
DICIONRIO FILOSFICO

Voltaire




APRESENTAO de Nlson Jahr Garcia

Voltaire (1694-1778) foi um dos maiores pensadores de seu tempo. Seu estilo, inconfundvel, est presente em todos os seus romances, peas teatrais, trabalhos sobre
filosofia e cincias. O trao mais marcante de seus textos  a agressividade inteligente, manifesta atravs de crticas cidas e de uma ironia grave, geralmente
beirando o sarcasmo.

 o patrono deste site, cujo lema  "Ridendo Castigat Mores" (com o riso se castigam os costumes). Voltaire, com humor, castigou reis, nobres, ministros, religies,
teorias cientficas e filosficas. Nesse aspecto "Dicionrio filosfico" , talvez, o trabalho mais significativo. No perdoou autoridades, costumes, crenas ou
teorias;  difcil lembrar alguma que no tenha sido alvo de sua verve.

Suas crticas procuram demonstrar as contradies embutidas nas concepes que ataca. s vezes o faz de forma leve e sutil, como neste argumento, em que ridiculariza
a certeza humana:

Se perguntsseis a todos os homens antes de Coprnico: - O sol levantou-se hoje? O sol se ps? - Temos absoluta certeza - responder-vos-iam  uma Tinham certeza,
e no entanto estavam errados.

Em outros momentos, investe com mais severidade: Pretendiam alguns escritores europeus que nunca haviam estado na China que o governo de Pequim era ateu. Wolf elogiara
Pequim. Logo, Wolf era ateu. Melhores silogismos nunca souberam forjar a inveja e o dio
No raro recorre  hostilizao aberta: As inimitveis tragdias de Racine foram todas criticadas, e pessimamente: porque as criticaram rivais. Certo, os artistas
so juizes de arte competentes, porm quase sempre lhes falta integridade.

Chega a apelar para a pilhria: Assistia eu certa vez  representao de uma tragdia em companhia de um filsofo. - Como  belo! - dizia ele. - Que viu o sr. de
belo? - O autor atingiu seu fim. No dia seguinte ele tomou um purgante que lhe fez efeito. - O purgante atingiu seu fim - disse-lhe eu. Eis um belo purgante. Ele
compreendeu no se poder dizer que um purgante seja belo, e que para chamar belo a alguma coisa  preciso que nos cause admirao e prazer. Conveio em que a tragdia
lhe inspirara estas duas emoes, e que nisso estava o to kalon, o belo.

Em outros casos o chiste chega a ser corrosivo: Ben al Betif, digno chefe dos dervs, disse-lhes um dia: "Meus irmos, muito conveniente  que useis com toda freqncia
esta frmula sagrada do nosso Alcoro: Em nome de Deus mui misericordioso, pois Deus usa de misericrdia e vs aprendereis a pratic-la com repetir freqentemente
os termos que recomendam uma virtude sem a qual poucos homens restariam sobre a terra. Mas, meus irmos, abstende-vos de imitar esses temerrios que a todo transe
se jactam de trabalhar pela glria de Deus. Se um jovem imbecil sustenta uma tese sobre as categorias, tese presidida por um ignorante encasacado, no deixa de escrever
em grossos caracteres no cabealho de sua tese: Ek Allah abron doxa: ad majorem Dei gloriam. Um bom muulmano fez pintar o seu salo gravando em sua porta essa tolice;
um saca carrega gua para maior glria de Deus.  um costume mpio, piedosamente posto em uso. Que direis de um pequeno tchauch que ao limpar a privada do nosso
ilustre sulto gritasse: "Para maior glria do nosso invencvel monarca"? H certamente maior distncia do sulto a Deus que do sulto ao pequeno tchauch.

Voltaire no simpatizava com menes a milagres e reprovava: Segundo a energia do termo, um milagre  uma coisa admirvel. Nesse caso, tudo  milagre. A ordem prodigiosa 
da natureza, a rotao de cem milhes de globos ao redor de um milho de sis, a atividade da luz, a vida dos animais, constituem perptuos milagres. Segundo as 
idias aceitas, chamamos milagre  violao dessas leis divinas e eternas. Assim, quando houver um eclipse do Sol durante a Lua cheia, quando um morto fizer a p 
duas lguas de caminho levando a cabea de baixo do brao, isto quer dizer que sucedeu um milagre.

O tema da ressurreio tampouco o animava, disparava com preciso: Gabam-se-lhes as pirmides. Mas as pirmides so monumentos de um povo de escravos.
Foi preciso pr de baixo de canga toda uma nao, sem o que essas vis massas no teriam sido levantadas. Que finalidade tinham? Conservar em uma pequena cmara a 
mmia de algum prncipe, de algum governador, de um intendente qualquer, porque ao cabo de mil anos sua alma devia reanim-la. Mas se esperavam a ressurreio dos 
corpos, por que lhes extraiam os miolos antes de embalsam-los? Ser que os egpcios deviam ressuscitar sem crebro?

Incomodava-o a idolatria, com presteza denunciava: Escreveram-se volumes imensos, debitaram-se sentimentos diversos sobre a origem desse culto rendido a Deus ou 
a vrios deuses sob figuras sensveis: esta multitude de livros e de opinies no atesta seno ignorncia. No se sabe quem inventou as vestes e os calados e quer-se 
saber quem primeiro inventou os dolos?

Contra as crticas, Voltaire devolvia outras, muitas vezes em defesa do criticado: Dizem alguns telogos que o divino imperador Antonino no era virtuoso; que era
um estico tenoeiro que, no contente de governar os homens, ainda queria ser estimado por eles; que fazia reverterem a si prprio os benefcios que fazia ao gnero
humano; que foi toda a sua vida justo, trabalhador, benfeitor por simples vaidade, e que apenas enganou os homens com a sua virtude; neste caso exclamarei: "Meu
Deus, dai-nos a basto velhacos desta laia !"

Outro exemplo sugestivo: Um mendigo dos arredores de Madri esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte: - O sr. no tem vergonha de se dedicar a mister to infame,
quando podia trabalhar? - Senhor, respondeu o pedinte - estou lhe pedindo dinheiro e no conselhos. E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas. Era um 
mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo no suportava reprimendas.

Esse era o genial Voltaire. A leitura de suas obras nos faz meditar melhor sobre nossos pensamentos e a forma como os comunicamos. Podemos no rir de suas frases, 
mas um sorriso discreto e salutar  inevitvel.




BIOGRAFIA DO AUTOR

FRANOIS-MARIE AROUET, filho de um notrio do Chtelet, nasceu em Paris, em 21 de novembro de 1694. Depois de um curso brilhante num colgio de jesutas, pretendendo
dedicar-se  magistratura, ps-se ao servio de um procurador. Mais tarde, patrocinado pela sociedade do Templo e em particular por Chaulieu e pelo marqus de la
Fare, publicou seus primeiros versos. Em 1717, acusado de ser o autor de um panfleto poltico, foi preso e encarcerado na Bastilha, de onde saiu seis meses depois,
com a Henriade quase terminada e com o esboo do OEdipe. Foi por essa ocasio que ele resolveu adotar o nome de Voltaire. Sua tragdia OEdipe foi representada em
1719 com grande xito; nos anos seguintes, vieram: Artemise (1720), Marianne (1725) e o Indiscret (1725).

Em 1726, em conseqncia de um incidente com o cavaleiro de Rohan, foi novamente recolhido  Bastilha, de onde s pode sair sob a condio de deixar a Frana. Foi
ento para a Inglaterra e a se dedicou ao estudo da lngua e da literatura inglesas. Trs anos mais tarde, regressou e publicou Brutus
 (1730), Eriphyle (1732), Zare (1732), La Mort de Csar (1733) e Adlade Duguesclin (1734). Datam da mesma poca suas Lettres Philosophiques ou Lettres Anglaises, 
que provocaram grande escndalo e obrigaram a refugiar-se em Lorena, no castelo de Madame du Chtelet, em cuja companhia viveu at 1749. A se entregou ao estudo 
das cincias e escreveu os Elments de le Philosophie de Newton (1738), alm de Alzire, L'Enfant Prodigue, Mahomet, Mrope, Discours sur l'Homme, etc. Em 1749, aps 
a morte de Madame du Chtelet, voltou a Paris, j ento cheio de glria e conhecido em toda a Europa, e foi para Berlim, onde j estivera alguns anos antes como 
diplomata. Frederico II conferiu-lhe honras excepcionais e deu-lhe uma penso de 20.000 francos, acrescendo-lhe assim a fortuna j considervel. Essa amizade, porm, 
no durou muito: as intrigas e os cimes em torno dos escritos de Voltaire obrigaram-no a deixar Berlim em 1753.

Sem poder fixar-se em parte alguma, esteve sucessivamente em Estrasburgo, Colmar, Lyon, Genebra, Nantua; em 1758, adquiriu o domnio de Ferney, na provncia de Gex 
e a passou, ento, a residir em companhia de sua sobrinha Madame Denis. Foi durante os vinte anos que assim viveu, cheio de glria e de amigos, que redigiu Candide, 
Histoire de la Russie sous Pierre le Grand, Histoire du Parlement de Paris, etc., sem contar numerosas peas teatrais.

Em 1778, em sua viagem a Paris, foi entusiasticamente recebido. Morreu no dia 30 de maro desse mesmo ano, aos 84 anos de idade.






ABRAO

Abrao  um desses nomes clebres na sia Menor e na Arbia, como Tot entre os egpcios, o primeiro Zoroastro na Prsia, Hrcules na Grcia, Orfeu na Trcia, Odin
nas naes setentrionais e tantos outros mais conhecidos por sua celebridade do que por uma histria bem comprovada. No falo aqui seno da histria profana, pois
quanto  dos judeus, nossos mestres e nossos inimigos, em quem cremos e que detestamos, tendo sido a histria desse povo visivelmente escrita pelo prprio Esprito
Santo, temos por ela os sentimentos que devemos ter. Dirijo-me apenas aos rabes; que se gabam de descender de Abrao por Ismael; que acreditam ter sido esse patriarca
o fundador de Meca, onde teria morrido. O fato  que a raa de Ismael foi infinitamente mais favorecida por Deus do que a raa de Jac. Uma e outra,  verdade, produziram
ladres. Mas os ladres rabes foram incomparavelmente superiores aos ladres judaicos. Os descendentes de Jac no conquistaram mais que uma faixa de terra insignificante,
que perderam. Os descendentes de Ismael avassalaram parte da sia, parte da frica e parte da Europa, edificaram um imprio mais vasto que o imprio dos romanos
e enxotaram os judeus de suas cavernas que estes chamavam terra da promisso.

Bem difcil seria,  luz da histria moderna, ter sido Abrao pai de duas naes to diferentes. Dizem que nasceu na Caldia, filho de pobre oleiro que ganhava a
vida fazendo pequenos dolos de barro.  pouco verossmil que esse filho de oleiro se haja abalanado a ir fundar Meca a trezentas lguas de distncia, de baixo
do trpico, tendo de vingar desertos intransitveis. Se foi um conquistador, certamente ter-se- dirigido ao belo pais da Assria. Se, como o despintam, no passou
de um pobre diabo, ento no ter fundado reinos seno na prpria terra
Reza o Gnesis que tinha Abrao setenta e cinco anos ao emigrar do pas de Har, aps a morte de seu pai Tareu o oleiro. O mesmo Gnesis, porm, diz que Tareu, tendo
gerado Abrao aos setenta anos, viveu at a idade de duzentos e cinco anos, e que Abrao s saiu de Har depois da morte do pai. Portanto  claro, segundo o prprio
Gnesis, que Abrao contava cento e trinta e cinco anos quando deixou a Mesopotmia. Saiu de um pais idlatra para outro pas idlatra: Siqum, na Palestina. Por
que? Por que deixou as frteis margens do Eufrates por terras to remotas, estreis e pedregosas? A lngua caldaica devia ser muito diferente da lngua de Siqum.
No se tratava de lugar de comrcio. Siqum dista da Caldia mais de cem lguas.  preciso transpor desertos para l chegar. Mas Deus queria que Abrao realizasse
essa viagem. Queria mostrar-lhe a terra que sculos depois haviam de habitar seus psteros. Custa ao esprito humano compreender os motivos de tal peregrinao.

Mal arriba ao montanhoso rinco de Siqum, obriga-o a fome a abandon-lo. Vai para o Egito em companhia de sua mulher,  procura de com que viver. Duzentas lguas
medeiam de Siqum e Menfis. Ser natural ir buscar trigo to longe? Num pas de que nem se sabe a lngua? Estranhas viagens empreendidas  idade de quase cento e
quarenta anos.

Traz a Menfis sua mulher Sara. Sara era extremamente jovem em comparao com ele, pois no contava mais que sessenta e cinco anos. Como fosse muito bonita, Abrao
resolveu tirar proveito de sua beleza. "Faamos de conta que voc  minha irm, - disse-lhe - " a fim de que me acolham com benevolncia". "Faamos de conta que
 minha filha" - devia dizer. O rei enamora-se da jovem Sara e presenteia o pretenso irmo com muitas ovelhas, bois, burros, mulas, camelos e servos. O que prova
que j ento era o Egito um reino poderoso e civilizado - por conseguinte antigo - e que se recompensavam magnificamente os irmos que vinham oferecer as irms aos
reis de Menfis.

Tinha a jovem Sara noventa anos, segundo a Escritura, quando Deus lhe prometeu que Abrao, que ento tinha cento e sessenta, lhe daria um filho.

Abrao, que gostava de vigiar, tomou o caminho do hrrido deserto de Cades, acompanhado da mulher grvida, sempre jovem e bonita. Como acontecera com o rei egpcio,
enamorou-se tambm de Sara um rei do deserto - O pai dos crentes pregou a mesma mentira que no Egito: fez passar a esposa por irm. O que mais uma vez lhe valeu 
ovelhas, bois e servos. Pode-se dizer que, graas a sua mulher, Abrao se tornou riqussimo.

Os comentaristas escreveram um nmero prodigioso de volumes para justificar o procedimento de Abrao e conciliar a cronologia. Cumpre-me, pois, a eles remeter o 
leitor. So todos espritos finos e sutis, excelentes metafsicos, senhores sem preconceito e profundamente avessos  pedanteria.

ALMA

Seria maravilhoso ver a prpria alma. Conhece-te a ti mesmo (1)  excelente preceito, mas s a Deus  dado p-lo em prtica. Quem mais pode conhecer a prpria essncia?

Alma chamamos ao que anima.  tudo o que dela sabemos: a inteligncia humana tem limites. Trs
quartos do gnero humano no vo alm, nem se preocupam com o ser pensante. O outro quarto indaga. Ningum obteve nem obter resposta.

Pobre filsofo! Vs uma planta que vegeta, e dizes vegetao, ou alma vegetativa. Notas que os corpos tm e comunicam movimento, e dizes fora. Vs teu co de caa 
aprender contigo teu ofcio, e crias instinto, alma sensitiva. Tens idias combinadas, e dizes esprito.

Mas que entendes tu por estas palavras? Aquela flor vegeta. Existir porm um ser material vegetao? Aquele corpo impele outro. Porm encerra ele em si um ente 
distinto - fora? Aquele co traz-te uma perdiz. Existir porm um ser chamado instinto? No te ririas de um raciocinador (teria sido preceptor de Alexandre) que 
te dissesse Todos os animais vivem; logo, encerram uma forma substancial a vida?

Se uma tulipa pudesse falar e dissesse: Minha vegetao e eu somos dois seres juntos formando um s, no te ririas da tulipa?

Vejamos primeiro o que sabes, e do que ests certo. Que andas com os ps. Que digeres com o estmago. Que sentes com todo o corpo. Que pensas com a cabea.

Pois bem. Pode a tua razo s por s dar-te luzes suficientes para conclures, sem um recurso sobrenatural, que tens uma alma?

Os primeiros filsofos, quer caldeus, quer egpcios, disseram: Foroso  haver em ns algo que produza o pensamento; esse algo deve ser extremamente sutil: sopro, 
fogo, ter, substrato, um tnue simulacro, uma entelquia, um nmero, uma harmonia. Finalmente, segundo o divino Plato,  um composto do mesmo e do outro. So tomos 
que pensam em ns, disse Epicuro depois de Demcrito. Mas, meu amigo, como pensa o tomo? Confessa que nem o imaginas.

Aceita-se seja a alma um ser imaterial. Mas vs no concebeis o que seja esse ente imaterial. - No, - respondem os sbios - porm conhecemos sua natureza: pensar. 
- Como o sabeis? - Porque ela pensa. - Oh sbios! Muito receio que sejais to ignorantes quanto Epicuro. A natureza de uma pedra  cair porque ela cai. Pergunto-vos: 
que a faz cair?

- Sabemos que uma pedra no tem alma. - De acordo. - Sabemos que uma negao, uma afirmao no so divisveis, no so partes da matria. - Da mesma opinio. Mas 
a matria, que alis desconhecemos, tem qualidades no materiais, no
divisveis. Possui gravitao para um centro, que Deus lhe deu. Essa gravitao no  formada de partes, no  divisvel. A fora motriz dos corpos no  ente composto 
de partes. A vegetao dos corpos organizados, sua vida, seu instinto, no so seres  parte, seres divisveis. No podeis cortar em duas a vegetao de uma rosa, 
a vida de um cavalo, o instinto de um co, da mesma forma como no podeis cindir em duas uma sensao, uma negao, uma afirmao. Portanto vosso grande argumento 
inferido da indivisibilidade do pensamento absolutamente nada prova.

Que chamais ento vossa alma? Que idia tendes dela? Por vs mesmos, sem revelao, no podeis admitir em vs seno um poder de vs desconhecido de sentir, de pensar.

Agora dizei-me sinceramente:  esse poder de sentir e pensar o mesmo que vos faz digerir e andar? Confessais que no. Porque debalde ordenaria vosso entendimento 
a vosso estmago doente: Digere! Ele no digeriria. Debalde vosso ser imaterial intimaria a vossos ps gotosos: Caminhem! Eles no caminhariam.

Com razo observaram os gregos no ter o pensamento quase nenhuma influncia no funcionamento dos rgos. Admitiam para os rgos uma alma animal. Para o pensamento 
uma alma mais tnue, mais sutil: um nous.

Mas eis a alma do pensamento que em milhares de ocasies governa a alma animal. Ordena a alma pensante s mes que apreendam: as mos apreendem. Porm no pode ordenar 
ao corao que bata. Ao sangue que circule. Que se forme o quilo. Tudo isso se faz independentemente dela. A esto as vossas duas almas metidas em maus lenis 
e feitas pssimas donas de casa.

Claro que a primeira alma no existe. No passa do movimento dos rgos. Em guarda, homem! Tua fraca razo no  capaz de provar a existncia da outra tambm. No 
podes conceb-la seno pela f. Tu Nasces. Vives. Ages. Pensas. Velas. Dormes. Sem saber como. Deus conferiu-te a faculdade de pensar como tudo o mais. E se no 
viesse ensinar-te nas idades assinaladas pela sua providncia que tens uma alma imaterial e imortal, dela no terias prova alguma.

Relanceemos os interessantes sistemas arquitetados pela tua filosofia em torno dessas almas. Um diz que a alma humana  parte da substncia do prprio Deus. Outro 
que  parte do todo infinito. Terceiro que foi criada ab eterno. Quarto que foi feita e no criada. Outros afirmam que Deus as fabrica  proporo necessria, e 
que chegam no instante da cpula. Alojam-se nos animlculos seminais, exclama este. No, diz aquele, vo habitar as trompas de Fallopio. Todos vs estais errados, 
intervm aqueloutro: a alma espera seis semanas at que esteja formado o feto; ento se acomoda na glndula pineal; se, porm, encontra um germe maligno, volta, 
a espera de melhor ocasio. A ltima opinio  que sua morada  no corpo caloso.  o local que lhe atribui La Peyronie. Era preciso ser primeiro cirurgio do rei 
de Frana para dispor assim do alojamento da alma. Pena  que o corpo caloso do ar. La Peyronie no tenha tido a mesma fortuna que o dono.

Diz Santo Toms (questo septuagsima quinta e subseqentes) que a alma  uma forma subsistante per se. Que est em todas as coisas. Que sua essncia difere de sua 
potncia. Que h trs almas vegetativas: nutritiva, aumentativa, generativa. Que a memria das coisas espirituais  espiritual. Que a memria das coisas corporais 
 corporal. Que a alma racional  uma forma imaterial quanto s operaes
e material quanto ao ser. Sto. Toms escreveu duas mil pginas dessa fora e dessa clareza.  o pai da escola.

No  menor o nmero de sistemas forjados sobre a maneira de sentir da alma depois de desertar do corpo por meio de que sente. Como ouvir sem ouvidos. Como olfatar 
sem nariz. Como tocar sem mos. Que corpo retomar de futuro: o que tinha aos doze ou aos oitenta anos? Como o eu, a identidade da mesma pessoa subsistir. Como 
a alma de um indivduo tornado cretino  idade de quinze anos e que cretino tenha morrido aos setenta anos retomar o fio das idias interrompido na puberdade. Por 
que milagre uma alma que haja perdido uma perna na Europa e um brao na Amrica reencontrar essa perna e esse brao. (Que, tendo se transformado em legumes, tero 
virado sangue de algum outro animal).

Singular  no haver nas leis do povo de Deus palavra sequer a respeito da espiritualidade e imortalidade da alma. Nem no Declogo, nem no Levtico nem no Deuteronmio.

Em passo algum - e sobre isto no paira a menor dvida - Moiss promete aos judeus recompensas e castigos em outra vida. Nem lhes fala da imortalidade da alma. No 
lhes acena com cu nem os ameaa com inferno. Tudo  temporal.

Antes de morrer diz-lhes no Deuteronmio: "Se depois de terdes filhos e netos vs prevaricardes, sereis exterminados no pas e reduzidos a nmero nfimo entre as 
naes.

" Eu sou um deus cioso que pune a iniqidade dos pais at terceira e quarta gerao. " Honrai pai e me para que vivais longo tempo. " Nunca vos faltar o que comer. 
" Se seguirdes deuses estrangeiros sereis destrudos... " Se obedecerdes tereis chuva na primavera como no outono. Tereis frumento, leo e vinho. Tereis feno para 
os vossos animais. Para que comais e vos farteis.

" Gravai estas palavras em vossos coraes, em vossas mos, aos vossos olhos. Escrevei-as em vossas portas. Para que vossos dias se multipliquem.

" Fazei o que vos ordeno sem tirar nem pr. " Se se erguer um profeta e vos predisser causas prodigiosas; se a predio for verdadeira e se cumprir; e se ele vos 
disser: Vamos! Sigamos deuses estrangeiros...- matai-o incontinenti. E que todo o povo vos acompanhe.

" Quando o Senhor vos entregar naes estrangeiras, degolai a todos. No poupeis um s homem. No tenhais piedade de ningum.

" No comais aves impuras como a guia, o grifo, o ixiao.
" No comais animais que ruminem e que no tenham a unha fendida, como o camelo, a lebre, o porco espinho, etc.

" Observando todos os preceitos sereis abenoados na cidade como no campo. Abenoados sero os frutos do vosso ventre, da vossa terra, dos vossos animais...

" Se no observardes todos os mandamentos e todas as cerimnias, amaldioados sereis na cidade como no campo... Padecereis fome, pobreza. Morrereis de misria, de 
frio, de penria, de febre. Tereis ronha, rabugem, fstula. Tereis lceras nos joelhos e na barriga das pernas.

" O estrangeiro vos emprestar a onzena, e vs no lhe emprestareis a onzena... Por no servirdes ao Senhor.

" E comereis o fruto do vosso ventre. A carne dos vossos - filhos, etc. ".  manifesto nada haver em todas essas promessas e ameaas que no seja temporal. Nem uma 
palavra sobre imortalidade da alma. Nem uma palavra sobre vida futura.

Muitos comentadores ilustres foram de parecer que Moiss estava perfeitamente avisado destes dois grandes dogmas. Provam-no com palavras de Jac, que julgando que 
seu filho fora devorado pelas feras, exclamou em sua dor: "Eu acompanharei meu filho  sepultura, in infernum, ao inferno". Isto : eu morrerei, j que meu filho 
morreu.

Provam-no ainda com trechos de Isaas e Ezequiel. Porm os hebreus a quem falava Moiss no podiam ter lido Ezequiel nem Isaas. Porque Ezequiel e Isaas s viveram 
muitos sculos depois.

Intil discutir quanto aos sentimentos secretos de Moiss. O fato  que nas leis pblicas ele nunca falou de vida futura. Todos os castigos, todos os prmios, restringe-os 
ao presente. Se conhecia a vida vindoura, por que no exps expressamente to importante dogma? E se no a conheceu, qual o objeto de sua misso?  o que perguntam 
muitas personagens ilustres. E respondem que o Mestre de Moiss e de todos os homens se reservava o direito de explicar a bom tempo aos judeus uma doutrina que eles 
no estavam em condies de compreender quando no deserto.

Houvesse Moiss anunciado o dogma da imortalidade da alma, no o teria combatido uma grande escola de judeus. No teria sido autorizada pelo estado a grande escola 
dos saduceus. Os saduceus no teriam ocupado os primeiros cargos. De seu seio no teriam sado grandes pontfices.

Parece que s depois da fundao de Alexandria os judeus se cindiriam em trs seitas: fariseus, saduceus, essnios. Ensina o historiador fariseu Jos no livro 13 
das Antigidades que os fariseus acreditavam na metempsicose. Criam os saduceus que a alma se extinguia com o corpo. Para os essnios -  ainda Jos quem o afiana 
- a alma era imortal; segundo eles as almas, sob forma area, desciam do fastgio do firmamento violentamente atradas pelos corpos. Aps a morte as almas das pessoas 
boas iam morar alm oceano, num pas onde no fazia calor nem frio, no ventava nem chovia. Lugar de todo em todo oposto era o desterro das almas ruins. Tal a teologia 
dos judeus.

Aquele que devia ensinar todos os homens veio condenar essas trs seitas. Sem ele, porm, jamais
saberamos coisa alguma da prpria alma. Porque os filsofos nunca souberam nada certo e Moiss, nico verdadeiro legislador do mundo antes do nosso, Moiss que 
falava com Deus face a face e no o via seno pelas costas, deixou os homens em profunda ignorncia dessa magna questo. H apenas mil e setecentos anos que estamos 
certos da existncia e imortalidade da alma.

Ccero no tinha mais que dvidas. Seus netos aprenderam a verdade com os primeiros galileus que arribaram a Roma.

Mas antes disso, e at depois disso em todo o resto da terra onde no penetraram os apstolos, cada um devia dizer  prpria alma: Que s tu? De onde vens? Que fazes? 
Para onde vais? Tu s no sei que, que pensa e que sente. Mas ainda que pensasses e sentisses cem bilhes de anos, nada saberias por tuas prprias luzes, sem o auxlio 
de Deus.

Homem! Deus outorgou-te o entendimento para bem procederes e no para penetrares a essncia das coisas por ele criadas.

AMIZADE

Contrato tcito entre duas pessoas sensveis e virtuosas. Sensveis porque um monge, um solitrio, pode no ser ruim e viver sem conhecer a amizade. Virtuosas porque 
os maus no adjungem mais que cmplices. Os voluptuosos careiam companheiros de devassido. Os interesseiros renem scios. Os polticos congregam partidrios. O 
comum dos homens ociosos mantm relaes. Os prncipes tm cortesos. S os virtuosos possuem amigos. Ctego era cmplice de Catilina. Mecenas era corteso de Otvio. 
Mas Ccero era amigo de tico. Que estabelece esse convnio entre duas almas ternas e honestas? As obrigaes so mais ou menos intensas consoante a sensibilidade 
de uma e de outra e o nmero de servios prestados, etc.

O entusiasmo da amizade foi mais forte entre gregos e rabes que entre ns. So admirveis as histrias que teceram esses povos em torno deste sentimento. No temos 
iguais. Somos em tudo um pouco secos.

A amizade era objeto de religio e legislao entre os gregos. Os tebanos tinham o regimento dos amantes. Magnfico regimento! Houve quem o tomasse por um regimento 
de sodomitas. Engano: seria tomar o acessrio pelo essencial. A amizade era prescrita na Grcia pela lei e pela religio. Infelizmente tolerava-se a pederastia. 
Alis: toleravam-na os costumes.  preciso no imputar  lei abusos vergonhosos. Voltaremos ao assunto.

AMOR

Amor omnibus idem (2). Cumpre recorrermos  imagem. O amor  a estopa da natureza bordada pela
imaginao. Quereis ter uma idia do amor? Vede os pardais do vosso jardim. Vede vossos pombos. Contemplai o touro que levam  novilha. Admirai aquele soberbo cavalo 
que dois de vossos camaradas conduzem  gua que passiva o espera e arreda a cauda para receb-lo. Observai como seus olhos chamejam. Ouvi seus relinchos. Admirai 
aqueles saltos, aquelas curvetas, aquelas orelhas em p, aquela boca que Se abre com ligeiras convulses, aquelas narinas aflantes bafejando inflamadamente, aquelas 
crinas que se empinam e esvoaam, o movimento imperioso com que se lana sobre o objeto que lhe destinou a natureza.

Mas no os invejeis. Pensai nas vantagens da espcie humana. Que contrabalanam fora, beleza, ligeireza, impetuosidade todos os predicados de que a natureza dotou 
os irracionais.

H animais que no conhecem o gozo. Carecem desse prazer os peixes escamados. A fmea lana sobre a vasa milhes de ovas e o macho que as encontra fecunda-as com 
o smen sem preocupar-se com a dona.

A maioria dos animais que se acasalam no experimenta prazer por mais que um nico sentido. Satisfeito o apetite est tudo acabado. Nenhum animal seno vs conhece 
os afagos. Todo o vosso corpo  sensvel. Vossos lbios sobre tudo experimentam uma volpia inexaurvel - prazer exclusivo da vossa espcie. Enfim podeis amar em 
qualquer tempo, enquanto os animais s o podem em pocas determinadas. Se refletirdes nestas preeminncias direis com, o conde de Rochester: "O amor, em um pas 
de ateus, faria adorar a Divindade"

Como recebeu o dom de aperfeioar tudo o que lhe concedeu a natureza, o homem aperfeioou o amor. A higiene, o cuidado com o prprio corpo, tornando a pele mais 
delicada, aumentam o prazer do tato. O zelo da prpria sade faz mais sensveis os rgos da volpia.

Todos os outros sentimentos de presto se amalgamam com o amor como metais em fuso com o ouro. Vem refor-lo a amizade, a estima. So outros elos de unio os dotes 
do corpo e do esprito.

Nam facit ipsa suis interdum famina factis, morigerisque modis, et mundo corpore cultu, ut facile insuescat secum vir degere vitam. (Lucrcio, liv. 4).

Principalmente o amor prprio estreita esses liames. Palmeamo-nos a prpria escolha, e as iluses em chusma so ornamentos dessa obra de que a natureza lanou os 
alicerces.

Eis o que possus de superior aos animais. Se, porm, frus prazeres que eles desconhecem, tambm quantos sofrimentos padeceis de que eles nem tm idia! O que h 
de horrvel para vs  haver a natureza em trs quartos da terra envenenado os prazeres do amor e as fontes da vida com um mal tremendo, a que s o homem est sujeito 
e que lhe infecciona os rgos da gerao.

Esta peste no  como tantas outras doenas filhas de nossos excessos. No foi a dissoluo que a introduziu no mundo. As Frinias, as Lases, as Floras, as Messalinas 
no foram vtimas dela. Nasceu em
ilhas onde os homens viviam na inocncia e de l propagou pelo mundo antigo. Se alguma vez se pde acusar a natureza de desamar a prpria obra, de contradizer o 
prprio plano, de tramar contra os prprios fins, foi ento. No tnhamos o melhor dos mundos possveis? Se Csar, Antnio, Otvio no foram vtimas desse mal, por 
que o foi Francisco I? No, direis, tudo foi disposto da melhor forma possvel. Quero crer. Mas  difcil.

AMOR PRPRIO

Um mendigo dos arredores de Madri esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte: - O sr. no tem vergonha de se dedicar a mister to infame, quando podia trabalhar? 
- Senhor, - respondeu o pedinte - estou lhe pedindo dinheiro e no conselhos. - E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.

Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo no suportava reprimendas.

Viajando pela ndia, topou um missionrio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados 
de seus patrcios hindus, que lhe davam algumas moedas do pas.

- Que renncia de si prprio! - dizia um dos espectadores. - Renncia de mim prprio? - retorquiu o faquir. - Ficai sabendo que no me deixo aoitar neste mundo 
seno para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.

Tiveram pois plena razo os que disseram ser o amor de ns mesmos a base de todos as nossas aes na ndia, na Espanha como em toda a terra habitvel.

Suprfluo  provar aos homens que tm rosto. Suprfluo tambm seria demonstrar-lhes possurem amor prprio. O amor prprio  o instrumento da nossa conservao. 
Assemelha-se ao instrumento da perpetuao da espcie. Necessitamo-lo. -nos caro. Deleita-nos - E cumpre ocult-lo.

AMOR SOCRTICO

Por que motivo um vcio que se fosse geral extinguiria o gnero humano, atentado infame  natureza,  contudo to natural ? Parece o ltimo degrau da corrupo refletida 
- Entanto manieta de cotio adolescentes que nem sequer tiveram tempo de ser corrompidos. Entra coraes tenros que no
conhecem nem a ambio, nem a fraude, nem a sede de riqueza.  a juventude cega que, por instinto mal definido, se precipita na depravao apenas dobra a infncia.

Bem cedo se manifesta a inclinao recproca dos sexos. Mas, diga-se o que se disser das mulheres africanas e da sia meridional, essa inclinao  geralmente muito 
mais forte no homem que na mulher.  uma lei que a natureza ditou aos animais.  sempre o macho que ataca a fmea.

Sentindo essa fora que a natureza comea a insuflar-lhes e no encontrando o objeto natural do instinto, atiram-se os jovens machos da nossa espcie sobre o que 
melhor se lhe semelhe. No raro, pela frescura da tez, pelo lustre das cores, pela doura dos olhos, durante dois ou trs anos um jovem parece-se a uma rapariga. 
Se o amamos,  porque a natureza se equivoca. Amamos nele o sexo a que evoca sua beleza. At que, dissipando-se a semelhana, a natureza se corrige

Citraque juventam oetatis breve ver et primos carpere flores( 3)

Assaz sabido  ser esse equvoco da natureza muito mais comum nos climas suaves que nos gelos do norte. Porque nos climas mais doces o sangue  mais quente e mais 
freqente a ocasio. Da o que no se considera mais que uma fraqueza no jovem Alcibades ser uma abominao num marinheiro holands ou num vivandeiro moscovita.

No posso admitir que, como se pretende, tenham os gregos autorizado semelhante licenciosidade. Cita-se o legislador Slon por haver dito em dois maus versos:

Algum dia inda amars um glabro e belo rapaz.

Mas seria Slon legislador quando escreveu essa ridcula parelha? Ainda era jovem. E quando o libertino se fez sbio, no iria incluir tamanha infmia nas leis da 
sua repblica.  como se se acusasse Teodoro de Besis de ter pregado o homossexualismo em sua igreja por haver, na juventude, dedicado versos ao jovem Cndido e 
dito:

Amplector hunc et illam. Abusa-se do texto de Plutarco, que, em suas tagarelices no Dilogo do Amor, faz dizer a uma personagem que as mulheres no so dignas do 
amor verdadeiro. Outra personagem, porm, sustenta devidamente o partido das mulheres.

Certo , tanto quanto o pode ser a cincia da antigidade, que o amor socrtico no era um amor infame. A palavra amor foi que enganou. O que se chamavam os amantes 
de um jovem era nem mais nem menos o que so hoje os infantes de companhia dos nossos prncipes, os jovens companheiros de educao de um menino distinto, participando 
dos mesmos estudos, dos mesmos exerccios militares instituio guerreira e santa de que se abusou como das festas noturnas e das orgias.
A tropa dos amantes instituda por Laio era um corpo invencvel de jovens guerreiros unidos pelo juramento de dar a vida uns pelos outros. Foi o que de mais belo 
possuiu a disciplina antiga.

Asseveram Sexto Emprico e outros que o homossexualismo tinha guarida nas leis da Prsia. Que citem o texto da lei. Que mostrem o cdigo dos persas. Mas ainda que 
o provem eu no acreditarei Direi que  mentira. Porque no seria possvel, no  da natureza humana elaborar uma lei que contradiz e ultraja a natureza. Lei que 
aniquilaria o gnero humano se fosse literalmente observada. Prticas vergonhosas toleradas pelas leis do pas! Sexto Emprico, que duvidava de tudo, devia duvidar 
dessa jurisprudncia. Se vivesse em nossos dias e visse dois ou trs jesutas abusarem de alguns escolares, teria direito de concluir ser tal depravao permitida 
pelas constituies de Incio de Loiola?

Era to comum o amor entre rapazes em Roma que ningum pensava em puni-lo. Otvio Augusto, esse assassino devasso e poltro que teve o desplante de exilar Ovdio, 
achou muito natural que Virglio cantasse Aleixo e Horcio escrevesse odes a Ligurino. No obstante, sempre subsistiu a lei Scantnia, preventiva da pederastia. 
Rep-la em vigor o imperador Filipe, que expulsou de Roma os meninos que se dedicavam ao ofcio. Enfim no creio que em tempo algum nao civilizada haja lavrado 
leis contra os prprios costumes.

ANJO

Enviado em grego. Baldio ser acrescentar que os persas tinham peris, os hebreu malakhs, os gregos seus daimones. Mas talvez nos aclare saber que uma das primeiras 
idias do homem foi interpor seres intermedirios entre a Divindade e ns. So os demnios, os gnios ideados pela antigidade. O homem sempre criou os deuses  
sua imagem. Viam-se os prncipes transmitir suas ordens por mensageiros: ento a Divindade tambm tinha seus correios. Mercrio, Isis, eram mensageiros, arautos.

Os hebreus - povo conduzido pela prpria Divindade - a princpio no deram nomes aos anjos que por fim Deus condescendia em enviar-lhes. Tomaram de emprstimo os 
nomes que lhes davam os caldeus, quando a nao judaica esteve cativa em Babilnia. Miguel e Gabriel so referidos pela primeira vez por Daniel, escravo entre aqueles 
povos. O judeu Tobias, que vivia em Nnive, conheceu o anjo Rafael, que viajou com seu filho para ajud-lo a reaver certa soma que lhe devia o judeu Gabael.

No se faz nas leis dos judeus, isto , o Levtico e o Deuteronmio, a menor meno  existncia dos anjos. Muito menos ao seu culto. To pouco criam em anjos os 
saduceus.

Nas histrias judaicas, porm, os anjos so a basto falados. Eram corporais e tinham asas nas costas, como imaginaram os antigos que tivesse Mercrio nos calcanhares 
- s vezes escondiam-nas sob as vestes. Como no teriam corpo se bebiam e comiam? Se os habitantes de Sodoma quiseram cometer o pecado da pederastia com os anjos 
que foram  casa de L?

Segundo Ben Memon, admitia a antiga tradio judaica dez graus, dez ordens de anjos - Primeira: cheios acodesh - puros, santos. Segunda: ofamim - rpidos Terceira: 
oralim - fortes. Quarta: chasmalim flamas. Quinta: seraphim - centelhas. Sexta: malakhim - mensageiros, deputados. Stima: eloim - deuses
ou juizes. Oitava: ben eloim - filhos dos deuses. Nona: cherubim - imagens. Dcima: ychim - animados. No consta nos livros de Moiss a histria da queda dos anjos. 
Seu primeiro testemunho d-no-lo o profeta Isaas, que, apostrofando o rei, exclama: "Que  feito do exator das tribos? Os pinheiros e cedros regozijam-se com sua 
queda. Como caste do cu,  Helel, estrela da manh?"( 4). Traduziu-se Helel pela palavra latina Lcifer. Depois, em sentido alegrico, deu-se o nome de Lcifer 
ao prncipe dos anjos que atiaram a guerra no cu. Finalmente o termo, que significa fsforo e aurora, tornou-se nome do diabo.

A religio crist funda-se na queda dos anjos. Os que se revoltaram foram precipitados das esferas que habitavam ao inferno, no centro da terra, e transmudaram-se 
em diabos. Um diabo transfigurado em serpente tentou Eva e desgraou o gnero humano. Jesus veio resgatar os homens e vencer o diabo, que ainda nos tenta. Essa tradio 
fundamental, contudo, s a refere o livro apcrifo de Enoque. E ainda assim muito outra da tradio aceita.

No trepida Santo Agostinho (carta centsima nona) em reportar tanto aos anjos bons como aos anjos maus corpos livres e geis. Reduziu o papa Gregrio II a nove 
coros, nove hierarquias ou ordens os dez coros de anjos admitidos pelos judeus. So eles: serafins, querubins, tronos, dominaes, virtudes, potncias, arcanjos 
e finalmente os anjos, que emprestam o nome s oito outras hierarquias.

Tinham os judeus no templo dois querubins, cada um com duas cabeas - uma de boi e outra de guia - e seis asas. Representamo-los hoje sob a forma de uma cabea 
solta com duas asinhas abaixo das orelhas.

Pintamos os anjos e os arcanjos sob a figura de jovens com um par de asas nas costas. Quanto a tronos e dominaes, ainda ningum se lembrou de retrat-los.

Diz Sto. Toms (questo centsima oitava, artigo 2o.) estarem os tronos to prximos de Deus quanto os serafins, pois  sobre eles que se acha sentada a Divindade. 
Scot contou um bilho de anjos. Tendo o antigo mito dos gnios bons e maus passado do Oriente  Grcia e Roma, consagramo-lo admitindo para cada pessoa um anjo bom 
e outro mau. Um ajuda-a e o outro molesta-a do nascimento,  morte. Ainda no se estabeleceu, contudo, se esses anjos bons e maus mudam continuamente de posto ou 
so rendidos por outros. Consulte-se sobre o ponto a Suma de Sto. Toms

Outro ponto que tem dado pano a muita controvrsia  o lugar onde se conjuntariam, os anjos - no ar, no vcuo ou nos astros? No aprouve a Deus pr-nos a par dessas 
questes.

ANTROPFAGOS

Falamos do amor.  duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem. No resta dvida terem existido antropfagos. Encontramo-los na Amrica, onde  possvel 
que ainda os haja. Na antigidade no foram os ciclopes os nicos a se alimentarem s vezes de carne humana. Conta Juvenal que entre os egpcios - esse povo to 
sbio, to famigerado por suas leis, esse povo to piedoso que adorava crocodilos e cebolas - os tentiritas comeram certa vez um inimigo que lhes caiu nas mos. 
No o
diz de outiva: estava no Egito, porto de Tntiro, quando se cometeu o crime quase aos seus olhos. E lembra, ao relatar o caso, os gasces e saguntinos, que outrora 
se alimentaram de carne dos prprios compatriotas.

Em 1725 trouxeram-se quatro selvagens do Mississipi a Fontainebleau - Tive a honra de falar-lhes. Havia entre eles uma dama do pas, a quem perguntei se havia comido 
gente. Respondeu-me muito singelamente que sim. Fiquei um tanto escandalizado, e ela desculpou-se dizendo ser prefervel comer o inimigo, depois de morto, a deix-lo 
servir de pasto s feras; que demais o vencedor merecia a preferncia. Ns outros, em batalha campal ou no, por fas ou por nefas matamos nossos vizinhos e. pela 
mais vil recompensa pomos em funo o engenho da morte. Aqui  que est o horror. Aqui  que est o crime - Que importa que depois de morto se seja comido por um 
soldado, por um urubu ou por um co?

Respeitamos mais os mortos que os vivos. Cumpria respeitar uns e outros. Bem fazem as naes que chamamos civilizadas em no meter no espeto os inimigos vencidos. 
Porque se fosse permitido comer os vizinhos, comeariam a comer-se entre si os prprios compatriotas, o que seria grande desdouro para as virtudes sociais. Mas as 
naes que hoje so civilizadas no o foram sempre. Todas elas foram muito tempo selvagens. E com o sem nmero de revolues de que tem sido palco o mundo, o gnero 
humano foi ora mais ora menos numeroso. Sucedeu com os homens o que hoje sucede com os elefantes, lees, tigres, cujas espcies minoraram consideravelmente. Quando 
uma regio estava ainda escassamente povoada de seres humanos e as artes eram rudimentares, os homens se dedicavam  caa. O hbito de se alimentarem do que matavam 
facilmente levou-os a tratar os inimigos como tratavam os cervos e javalis. A superstio fez imolar vtimas humanas. A necessidade as fez comer.

Qual o crime maior: reunir-se religiosamente para cravar em honra da Divindade uma faca no corao de uma menina enfitada, ou comer um bandido morto em legtima 
defesa?

No entanto h muito mais exemplos de meninas e meninos sacrificados que de meninas e meninos comidos. Quase todas as naes conhecidas sacrificaram crianas. Os 
judeus imolavam-nas.  o que se chamava o antema um verdadeiro sacrifcio. Ordena-se no captulo 27 do Levtico no se pouparem as almas viventes prometidas, porm 
em ponto algum se prescreve que sejam comidas. Isto era outro caso: tratava-se exclusivamente de uma ameaa. Como vimos, disse Moiss aos judeus que caso no observassem 
as cerimnias, no s teriam ronha, como as mes comeriam os prprios filhos. Positivamente no tempo de Ezequiel os judeus deviam comer carne humana, pois diz esse 
profeta no captulo 39 que Deus os faria comer no apenas os cavalos dos seus inimigos, mas ainda os cavaleiros e os outros guerreiros.  positivo. De fato, por 
que no teriam os judeus sido antropfagos? Seria a ltima coisa a faltar ao povo de Deus para ser a mais abominvel nao da terra.

Li nas anedotas da histria da Inglaterra do tempo de Cromwell que uma sebeira de Dublin vendia excelentes candeias feitas com gordura de ingls. Certa vez queixou-se-lhe 
um de seus fregueses de que as candeias j no eram to boas como antes. - Ah, - disse ela -  que este ms faltaram ingleses. Pergunto eu: quem o mais culpado: 
quem passava os ingleses  faca ou a mulher que fazia velas com sua banha?

APIS

Era o boi Apis adorado em Menfis como deus, como smbolo ou como boi?  de crer que os fanticos nele vissem um deus, os cultos mero smbolo e que o vulgo ignorante 
adorasse o boi. Ter Cambises feito bem, quando conquistou o Egito, em matar esse boi com as prprias mos? Por que no? Com isso fez ver aos imbecis que se podia 
passar seu deus  faca sem que a natureza se armasse para vingar o sacrilgio.

Incensaram-se muito os egpcios. No sei de povo mais desprezvel. Encarrapatou-se-lhes sempre no carter e no governo um vcio radical que os fez um povo de eternos 
e vis escravos. Que tenham, em pocas imemoriais, conquistado a terra. Na clareira dos tempos histricos, porm, avassalaram-nos quantos povos quiseram dar-se ao 
trabalho - assrios, persas, gregos, romanos, rabes, mamelucos, turcos, enfim, toda gente, salvo os cruzados, que no lhes conheciam a fraqueza. Foi a milcia dos 
mamelucos que venceu os franceses. No h talvez mais que duas coisas sofrveis nessa nao: primeiro, que adorando um boi nunca constrangeram quem adorasse um macaco 
a mudar de religio; segundo, terem inventado a chocadeira artificial.

Gabam-se-lhes as pirmides. Mas as pirmides so monumentos de um povo de escravos. Foi preciso pr de baixo de canga toda uma nao, sem o que essas vis massas 
no teriam sido levantadas. Que finalidade tinham? Conservar em uma pequena cmara a mmia de algum prncipe, de algum governador, de um intendente qualquer, porque 
ao cabo de mil anos sua alma devia reanim-la. Mas se esperavam a ressurreio dos corpos, por que lhes extraiam os miolos antes de embalsam-los? Ser que os egpcios 
deviam ressuscitar sem crebro?

APOCALIPSE

Justino o Mrtir, que escreveu pelo ano de 170( 5) da nossa era,  quem primeiro fala no Apocalipse. Perfilha-o ao apstolo Joo o Evangelista. Perguntando-lhe o 
judeu Trifo se no cria que Jerusalm devesse ser algum dia restaurada, respondeu Justino que sim, como o acreditavam todos os cristos que pensavam com acerto. 
"Houve entre ns" - diz - "uma personagem de nome Joo, um dos doze apstolos de Jesus, o qual predisse passaro os fiis mil anos em Jerusalm".

Foi opinio por muito tempo aceita pelos cristos a de um reinado de mil anos. Esse perodo desfrutava de grande crdito entre os gentios. Passados mil anos retomavam 
os corpos as almas entre os egpcios. O mesmo espao de tempo, et mille per annos, penavam as almas no purgatrio de Virglio. A nova Jerusalm de mil anos teria 
doze portas, em memria dos doze apstolos. A forma seria quadrada. Comprimento, largura e altura seriam de doze mil estdios - quinhentas lguas - de maneira que 
as casas teriam tambm quinhentas lguas de alto. Haveria de ser bem desagradvel morar no ltimo andar. Mas enfim  o que diz o Apocalipse, captulo 21.

Se foi Justino o primeiro em atribuir o Apocalipse a S. Joo, personalidades houve que lhe refugaram o testemunho, atendendo a que no mesmo dilogo com o judeu Trifo 
diz ele que, consoante o relato dos apstolos, Jesus Cristo, descendo ao Jordo, ferveu-lhe e inflamou-lhe as guas. O que no consta em
nenhum dos escritos dos apstolos. O mesmo S. Justino no hesita em citar os orculos das sibilas. E pretende ter visto restos das celas em que, no tempo de Herodes, 
foram encerrados no farol de Alexandria os setenta e dois intrpretes. O testemunho de um homem que teve a m fortuna de ver tais celas parece indicar mas  que 
devia ser metido nelas.

Posteriormente Sto. Ireneu, que tambm acreditava no reinado de mil anos, diz ter sabido de um velho que o Apocalipse era de autoria de S. Joo( 6). Mas j se reprochou 
a Sto. Ireneu o haver escrito no deverem existir seno quatro Evangelhos pela s razo de ter o mundo apenas quatro partes, quatro serem os ventos cardeais e no 
ter Ezequiel visto mais que quatro animais. Chama ele a isso demonstrao. Em singularidade, a demonstrao do ar. Ireneu no fica atrs da viso do sr. Justino.

Clemente de Alexandria, nas Electa, s se refere a um Apocalipse de S. Pedro, a que se reportava extraordinria monta. Tertuliano, partidrio ferrenho do reinado 
de mil anos, no se contenta em afirmar que S. Joo predisse a ressurreio e o reinado milenrio na cidade de Jerusalm: quer tambm que esta Jerusalm j se comeava 
a formar no ar; que todos os cristos da Palestina, e at os pagos, a tinham visto durante quarenta dias sucessivos s ltimas horas da noite. Infelizmente, porm, 
mal despontava o dia a cidade se esvaecia.

Em seu prefcio sobre o Evangelho de S. Joo e nas Homilias, cita Orgenes os orculos do Apocalipse, mas igualmente cita os orculos das sibilas. J S. Dinis de 
Alexandria, que escreveu por meados do sculo III, diz em um de seus fragmentos conservados por Eusbio (7) que a quase totalidade dos eruditos rejeitava por uma 
boca o Apocalipse como livro destitudo de razo. Que esse livro no o escreveu S. Joo, e sim um tal Cerinto, que se servira de um grande nome para dar mais peso 
a suas fantasias

O conclio de Laodicia (360) no recenseou o Apocalipse entre os livros cannicos. Singular  haver Laodicia repulsado um tesouro que lhe fora enviado expressamente, 
e que tambm o refutasse o bispo de feso, cidade em que se descobrira, enterrado, esse livro de S. Joo.

Para todos S. Joo ainda padejava na sepultura, fazendo a terra levantar e baixar continuamente. Entanto esses mesmos senhores certos de que S. Joo no estava de 
todo morto, tambm estavam certos de que ele no escrevera o Apocalipse. Os advogados do reinado de mil anos, no obstante, mantiveram-se irremovveis em sua opinio. 
Sulpcio Severo (Histria Sagrada, livro 9) chama insensatos e mpios aos que no acatavam o Apocalipse. Afinal, depois de muita dvida, muita oposio de conclio 
a conclio prevaleceu o parecer de Sulpcio Severo. Deslindado o mistrio, decidiu a igreja ser o Apocalipse incontestavelmente de S. Joo. No h, pois, apelar.

Atriburam as comunhes religiosas cada qual a si as profecias desse livro. Nele viram os ingleses as revolues da Gr Bretanha. Os luteranos, as convulses da 
Alemanha. Os reformados da Frana, o reinado de Carlos IX e a regncia de Catarina de Mdicis. Todos tiveram igualmente razo.

Bossuet e Newton comentaram o Apocalipse. As declamaes eloqentes de um e as sublimes descobertas de outro foram-lhes, todavia, muito mais honrosas que seus comentrios.

ATEU, ATESMO

Antigamente, quem quer que tivesse um segredo numa arte corria o risco de passar por bruxo. Toda seita nova era acusada de degolar crianas em seus mistrios. Todo 
filsofo que se desgarrasse da jria da escola era criminado de atesmo pelos fanticos e espertalhes. E condenado pelos cretinos.

Anaxgoras tem o atrevimento de pretender no ser o sol conduzido por Apolo montado numa quadriga: chamam-lhe ateu e o obrigam a expatriar-se.

Aristteles  culpado de atesmo por um sacerdote. No podendo fazer punir o caluniador, retira-se para Calcis. Mas a morte de Scrates  o que de mais odioso tem 
a histria da Grcia

Quem primeiro induziu os atenienses a verem um ateu em Scrates foi Aristfanes, que os comentadores admiram por ter sido grego, esquecendo-lhes que Scrates tambm 
o era.

Esse poeta cmico, que no foi nem cmico nem poeta, no seria admitido entre ns a representar farsas na feira de Saint- Laurent. Parece-me muito mais vil e desprezvel 
do que o despinta Plutarco. Eis o que diz o sbio Plutarco de tal farsista: "A linguagem de Aristfanes denuncia o miservel charlato que . So as graolas mais 
canalhas e repugnantes. No chega a agradar o povo e as pessoas de discernimento e pundonor no o toleram. No h quem suporte sua arrogncia, e sua malignidade 
 intolervel s pessoas de bem"( 8).

A est - para diz-lo de passo - o Tabarin que a sra. Dacier tem o ousio de admirar. Eis o homem que de longe confeccionou o veneno com que juizes infames assassinaram 
o homem mais virtuoso da Grcia.

Curtidores, sapateiros e costureirinhas de Atenas aplaudiram uma comdia em que se representava Scrates suspenso num cesto proclamando que no existiam deuses e 
jactando-se de haver roubado uma capa enquanto ensinava filosofia. Um povo cujo mau governo permitia to infames licenas bem merecia o fim que teve - ser vassalo 
dos romanos e hoje dos turcos.

Demos um salto  antigidade. Detenhamo-nos na repblica romana. Os romanos, muito mais sbios que os gregos, nunca perseguiram filsofos por motivo de opinies. 
A mesma iseno no exala os povos brbaros que medraram por sobre os destroos do imprio romano. Desde que o imperador Frederico II questiona com o papa, que 
o acusam de atesmo e de ter escrito com seu chanceler de Vinia o livro Dos Trs Impostores.

Manifesta-se o nosso grande chanceler do Hospital contrrio s perseguies:  quanto basta para levar a tacha de ateu. Homo doctus, sed verus atheos. Um jesuta 
que se acha to abaixo de Aristfanes quanto Aristfanes o est de Homero, um miservel cujo nome se tornou ridculo entre os prprios fanticos, em uma palavra, 
o jesuta Garasse, em toda gente v atestas.  assim que chama a todos aqueles contra quem investe. De atesta acoima ele Teodoro de Besis. Foi ele quem induziu 
em erro a respeito de Vanini.
O desgraado fim de Vanini no nos move a indignao nem a piedade como o de Scrates porque Vanini no passava de um pedante estrangeiro sem mrito nenhum. Mas 
a verdade  que no era ateu, como se pensava. Muito pelo contrrio

Tratava-se de um pobre padre napolitano, pregador e telogo de seu mister, polemista apaixonado das qididades e dos universais, et utrum chimera bombinans in vacuo 
possit comedere secundas intentiones. No tinha, porm, a veia do atesmo. Sua noo de Deus era da mais s e acatada teologia. "Deus  o princpio e o fim, pai 
de um e de outro, prescindindo de um e de outro. Eterno sem estar no tempo. Onipresente sem se achar em parte alguma. No tem passado nem futuro. Est em tudo e 
fora de tudo, tudo governando, tudo havendo criado - Imutvel, infinito, imparticular. Seu poder  sua vontade, etc."

Vangloriava-se Vanini de renovar este belo conceito de Plato abraado por Averrois: que Deus criou uma cadeia graduada de seres cujo ltimo anel se ata ao seu trono 
eterno. Idia em verdade mais sublime que veraz, mas to distante do atesmo quanto o ser do no ser.

Viajou com o fito em dinheiro e polmicas - infelizmente, porm, a senda da disputa conduz a polo contrrio ao da riqueza. Granjeiam-se tantos inimigos irreconciliveis 
quantos os sbios ou pedantes com quem se tera a palavra. Nem foi outra a origem da desdita de Vanini - Custaram-lhe seu calor e grosseria na discusso o dio de 
no poucos telogos, um dos quais - Francon ou Franconi, amigo de seus inimigos - o acusou de ateu e de pregar o atesmo.

Teve esse Francon ou Franconi, esteado por algumas testemunhas, a barbrie de sustentar na acareao o que tivera o descaramento de falsear. Interrogado no banco 
dos rus acerca do que pensava de Deus, respondeu Vanini adorar com a igreja um Deus em trs pessoas. Tomando uma palha do cho: "Basta isto" - disse "para provar 
que existe um criador". Pronunciou ento magnfico discurso sobre a vegetao e o movimento e sobre a necessidade de um Ser Supremo, sem o qual no existiria nem 
movimento nem vegetao.

O presidente Grammont, que ento se achava em Tolosa, transcreve esse discurso na sua Histoire de France, hoje to esquecida. Por inconceptvel prejuzo pretende 
o mesmo Grammont que Vanini dissesse tudo isso mais por vaidade ou medo que por persuaso interior

A que arrimar o julgamento temerrio e atroz do presidente Grammont? Patente  que a resposta de Vanini o absolvia da criminao de atesmo. Que sucedeu, porm! 
Esse caipora abeberara-se tambm de medicina. Encontraram em sua casa um sapo que ele conservava vivo em um vaso com gua: foi a conta para ser tachado de feiticeiro. 
Disseram que o sapo era o seu deus. Emprestaram sentido mpio a diversos passos de seus livros - o que  faclimo e muito comum - tomando objees por respostas, 
interpretando com malcia uma ou outra frase equvoca, envenenando expresses inocentes. Por fim a faco que o perseguia extorquiu dos juizes a sentena que o condenou 
 morte.

Para justificar tal crime, havia-se mister fazer pesarem sobre esse infeliz as calnias mais medonhas. O menor e muito menor Mersenne levou a demncia a ponto de 
imprimir que Vanini partira de Npoles com doze apstolos para converter o mundo ao atesmo. Santa ingenuidade. Como poderia ter um pobre padre doze homens a seu 
dispor? Como poderia convencer doze napolitanos a viajarem dispendiosamente para propagar aos quatro ventos uma doutrina abominvel e revoltante - com risco de
vida? Seria um rei bastante poderoso para pagar doze pregadores de atesmo? Ningum, antes de Mersenne, aventurara semelhante absurdo. Depois dele, porm, toda gente 
se ps a estribilh-lo, com ele envenenando jornais e dicionrios histricos - E o mundo, que gosta do extraordinrio, aceitou  carga cerrada essa fbula.

O prprio Bayle, nas suas Penses Diverses, fala de Vanini como de um ateu - Serve-se desse exemplo para estribar seu paradoxo de poder subsistir uma sociedade de 
ateus; afirma que Vanini era um homem de costumes rigorosamente regrados, e ter sido o mrtir de sua opinio filosfica. Engana-se tanto num ponto como noutro. Depreende-se 
dos Dialogues de Vanini, escritos  imitao de Erasmo, ter ele tido uma amante de nome Isabelle. Era livre no escrever como no viver. Porm no ateu.

Um sculo aps sua morte o sbio La Croze e aquele que adotou o nome de Philalthe( 9) empreenderam justific-lo. Mas como ningum se interessa pela memria de um 
infeliz napolitano, que para agravo de seus pecados era pssimo escritor, passaram quase despercebidas essas apologias.

O jesuta Hardouin, mais culto que Garasse e no menos temerrio, denuncia como ateus no livro Athei Detecti os Descartes, Arnauld, Pascal, Nicole e Malebranche. 
Que, porm, felizmente no tiveram a mesma sorte que Vanini.

Mas voltemos  questo de moral aventada por Bayle: se seria possvel uma sociedade de ateus. Sublinhemos  primeira ser grande a contradio em torno do problema. 
Os que mais indignadamente se levantaram contra a opinio de Bayle, os que com maior carga de injrias lhe desmentiram a possibilidade de uma sociedade de ateus, 
com o mesmo aferro sustentaram mais tarde ser o atesmo a religio do governo da China.

Positivamente enganaram-se no que respeita ao governo chins. Se houvessem lido os ditos desse vasto pas teriam visto no serem outra coisa seno sermes, sermes 
repletos de referncias ao Ser Supremo, guia, vingador e premiador.

No se enganaram menos quanto  impossibilidade de uma sociedade atia. E no sei como pde o sr. Bayle esquecer um exemplo conclusivo que talvez valesse a vitria 
a sua causa.

Por que impossvel uma sociedade atia? Porque sem um freio os homens no poderiam viver em harmonia? Por nada poderem as leis contra os crimes secretos? Por ser 
preciso um Deus vingador que puna, neste ou em outro mundo, os malfeitores escapos  justia humana!

Iluso. Os judeus, muito embora no ensinassem as leis de Moiss nenhuma vida por vir, no ameaassem castigos depois da morte, no ensinassem aos primeiros judeus 
a imortalidade da alma, os judeus, longe de ser ateus, longe de contar subtrair-se  vingana divina, foram os mais religiosos dos homens. No somente criam na existncia 
de um Deus eterno, como o acreditavam constantemente em sua presena. Temiam ser castigados na pessoa de si mesmos, da mulher, dos filhos, na posteridade, at a 
quarta gerao. E esse freio era poderosssimo.

Entre os gentios, porm, muitas seitas houve desempeadas de quaisquer ferropias. Os cpticos
duvidavam de tudo - De tudo inopinavam os acadmicos. Estavam persuadidos os epicuristas de que a divindade no metia a colher torta nos negcios dos homens, e em 
verdade no admitiam deuses de espcie alguma. Abrigavam a convico de no ser a alma de natureza substancial, mas rasamente uma faculdade que nasce e morre com 
o corpo. No tinham, por conseguinte, outras rdeas alm da moral e da honra. Verdadeiros ateus eram os senadores e cavaleiros romanos. Para quem no os temem e 
deles nada esperam os deuses no existem - Era pois o senado romano um congresso de ateus contemporneos de Csar e Ccero.

Na orao pr Cluncio diz o grande orador ao senado reunido: "Que mal lhe pode trazer a morte? Ns impugnamos todas as fbulas ineptas dos infernos. Que ento lhe 
tirou a morte? Nada mais que a sensao da dor".

Querendo salvar a vida de seu amigo Catilina perante o mesmo Ccero, no lhe objeta Csar que condenar  morte no  punir, que a morte no  nada, seno apenas 
o fim dos sofrimentos, momento mais feliz do que fatal? E no reconheceram Ccero e todo o senado a justeza de tais razes? No h neg-lo. Vencedores e legisladores 
do mundo conhecido formavam uma sociedade de homens destemerosos dos deuses - verdadeiros ateus, portanto.

Pondera Bayle a seguir se no  a idolatria mais perigosa que o atesmo, se crime maior no ser nutrir sobre a divindade conceitos indignos que dela descrer. E 
opina com Plutarco ser prefervel no ter de Deus concepo nenhuma a te-la m - Em que pese a Plutarco, porm, inegvel  ter sido infinitamente prefervel para 
os gregos temer Ceres, Netuno, Jpiter, a no temer coisa alguma. Irrecusavelmente  necessria a santidade dos juramentos, e antes fiar-se em quem creia que um 
falso juramento ser punido do que em quem pense poder jurar falso impunemente. No h dvida ser prefervel, em uma cidade policiada, ter uma religio ainda que 
m a no ter nenhuma.

Parece-me que Bayle devia antes examinar qual o mais nocivo, se o fanatismo, se o atesmo. O fanatismo  certamente mil vezes mais funesto, porquanto o atesmo no 
inspira, como ele, paixo sanguinria. O atesmo no se ope ao crime: o fanatismo o atia. Suponhamos com o autor do Commentarium Rerum Gallicarum fosse ateu o 
chanceler do Hospital. No elaborou ele seno leis sbias, no aconselhou seno moderao e concrdia: os fanticos cometeram as mortandades de So Bartolomeu. Havia-se 
Hobbes por ateu: entanto viveu tranqila e inocentemente. Os fanticos de seu tempo ensanguentaram a Inglaterra, Esccia e Irlanda. Spinoza, sobre ser ateu, ensinava 
o atesmo: parece contudo no ter sido ele quem participou do assassnio jurdico de Barneveldt, quem fez em traalhos os irmos de Witt e os comeu  grelha.

O mais das vezes so os ateus sbios audazes e tresmalhados que raciocinam mal e que, no compreendendo a criao, a origem do mal e outras dificuldades, recorrem 
 hiptese da eternidade das coisas e da necessidade.

Aos ambiciosos, aos voluptuosos, falta-lhes tempo para raciocinar e abraar maus sistemas. Tm mais que fazer que comparar Lucrcio com Scrates

 o que sucede conosco. O mesmo no se dava com o senado romano, composto na quase totalidade de ateus que ateus eram
terica e praticamente. Isto : que no acreditavam nem na Providncia nem na vida futura. Era uma congregao de filsofos, de voluptuosos e ambiciosos, todos nocentissimos 
e que perderam a repblica.

No me agradaria o depender de um prncipe ateu cujo interesse fosse mandar-me pilar num morteiro. No quereria, se fosse soberano, ter de tratar com cortesos ateus 
cujo interesse fosse envenenar-me: ser-me-ia necessrio estar tomando ao acaso contravenenos todos os dias.  pois absolutamente imprescindvel aos prncipes e aos 
povos o estar profundamente gravada nos espritos a idia de um Ser Supremo, criador, condutor, remunerador e vingador.

H povos ateus, assevera Bayle em suas Penses sur les Comtes. Os cafres, hotentotes, tupinambs e muitas outras pequenas naes no tm Deus.  possvel. Mas isso 
no quer dizer que neguem Deus no o negam nem o afirmam, porque nunca ouviram falar em tal. Dizei-lhes que Deus existe, e cre-lo-o facilmente. Dizei-lhes que tudo 
se faz pela natureza das coisas, e cre-lo-o da mesma forma - Pretender que sejam ateus  o mesmo que pretender que sejam anticartesistas: no so nem contra nem 
a favor de Descartes. So verdadeiras crianas. Uma criana no  atia nem teista: no  nada.

Que concluir de tudo isso? Que o atesmo  um monstro perniciosssimo para os que governam, e igualmente para os estadistas em disposio, ainda que cidados inocentes, 
pois podem um dia ou outro ser elevados  bolia do poder. Que, se no  to funesto como o fanatismo,  quase sempre fatal  virtude. Ajuntemos principalmente que 
hoje em dia h menos ateus que nunca, depois que os filsofos reconheceram no haver nenhum ser vegetante sem germe, nenhum germe sem desgnio etc., e que o trigo 
no nasce da podrido.

Gemetras no filosficos enjeitaram as causas finais, porm os verdadeiros filsofos as admitem. E, como disse um autor conhecido, o catequista anuncia Deus s 
crianas e Newton o demonstra aos sbios.

BATISMO

Palavra grega que quer dizer imerso. Como sempre se guiam pelos sentidos, facilmente imaginaram os homens que quem lavasse o corpo tambm lavava a alma. Havia nos 
subterrneos dos templos egpcios grandes cubas para os sacerdotes e iniciados. Desde tempos imemoriais que os hindus se purificaram nas guas do Ganges, e ainda 
hoje essa cerimnia est muito em voga. Da ndia passou  Judia. Era costume entre os hebreus batizar todos os estrangeiros que abraassem a lei judaica e no quisessem 
submeter-se  circunciso. Sobre tudo batizavam-se as mulheres, que no faziam essa operao, salvo na Etipia, onde a circunciso era de lei. Tratava-se de uma 
regenerao. Criam os hebreus, como os egpcios, que o batismo dava alma nova. Consultem-se sobre o assunto Epifnio, Memonide e la Gemara.

Joo batizou-se no rio Jordo. Ali tambm ele batizou Jesus, que, conquanto nunca haja batizado ningum, condescendeu todavia em consagrar essa cerimnia

Em si, todos os sinais so indiferentes. Confere Deus sua graa ao sinal que lhe aprouver escolher.
Bem cedo tornou-se o batismo em primeiro rito e chancela da religio crist. Contudo, embora fossem circuncidados, no se sabe ao certo se receberam o batismo os 
quinze primeiros bispos de Jerusalm

Muito se abusou desse sacramento nos primeiros sculos do cristianismo. Nada era mais comum que aguardar a agonia para receber o batismo.  assaz ilustrativo o exemplo 
do imperador Constantino. Eis como raciocinava: O batismo de tudo expurga; portanto posso matar minha mulher, meus filhos, todos os meus parentes; depois batizo-me 
e irei para o cu - O que efetivamente levou a prtica. O exemplo era perigosssimo. Paulatinamente foi se abolindo o vezo de esperar a morte para tomar o banho 
sagrado.

Sempre conservaram os gregos o batismo por imerso. Pelo fim do sculo VIII os latinos, havendo estendido sua religio s Glias e  Germnia, receosos de que a 
imerso pudesse matar as crianas nos pases frios, substituram-na por simples asperso, o que lhes custou numerosos antemas de parte da igreja grega.

Perguntou-se a S. Cipriano se estavam realmente batizadas as pessoas que, em vez de tomarem o banho, eram apenas borrifadas. Respondeu ele (septuagsima sexta carta) 
que "achavam muitas igrejas no serem crists tais pessoas; quanto a ele, era de parecer que sim, bem que sua graa fosse infinitamente menor que a das imersas trs 
vezes conforme o uso".

Entre os cristos, desde que um indivduo recebia a imerso estava iniciado. Antes do batismo era simples catecmeno. Para iniciar-se era de mister apresentar caues, 
responsveis, - a que se dava um nome correspondente a padrinho - a fim de que a igreja se certificasse da fidelidade dos novos cristos e no fossem divulgados 
os mistrios. Essa a razo por que nos primeiros sculos fossem os gentios geralmente to mal instrudos dos mistrios cristos quanto o eram os cristos dos mistrios 
de Isis e de Eleusina.

Assim se expressava Cirilo de Alexandria em seu escrito contra o imperador Juliano: "Falaria do batismo se no temesse que minhas palavras chegassem aos no iniciados".

Data do sculo II o costume de batizar crianas. Era natural desejassem os cristos que seus filhos, que sem esse sacramento seriam condenados s penas eternas, 
dele fossem apercebidos. Concluiu-se enfim ser necessrio ministr-lo ao fim dos oito primeiros dias de vida por ser essa entre os judeus a idade da circunciso. 
Ainda conserva o costume a igreja grega, conquanto no sculo III o uso a tenha levado a subministrar o batismo  morte.

Quem morria na primeira semana de existncia estava condenado, asseveravam os padres da igreja mais rigorosos. No sculo V, porm, ideou Pedro Crislogo o limbo, 
espcie de inferno suavizado, e propriamente lindes do inferno, extramuros infernais, para onde iriam as criancinhas finadas sem batismo, e onde estariam os patriarcas 
antes da descenso de Jesus Cristo aos infernos. De sorte que desde ento prevaleceu a opinio de que Cristo desceu ao limbo e no ao inferno.

Perguntou-se se, nos desertos da Arbia, poderia um cristo ser batizado com areia: respondeu-se que no. Se se poderia batizar com gua impura: estabeleceu-se ser 
conveniente gua munda, mas que em ltima instncia servia gua barrenta.  fcil ver que toda essa disciplina foi ditada pela prudncia dos primeiros pastores.

BELO, BELEZA

Perguntai a um sapo que  a beleza, o supremo belo, o to kalon. Responder-vos- ser a sapa com os dois olhos exagerados e redondos encaixados na cabea minscula, 
a boca larga e chata, o ventre amarelo, o dorso pardo. Interrogai um negro da Guin O belo para ele  - uma pele negra e oleosa, olhos cravados, nariz esborrachado. 
Indagai ao diabo. Dir-vos- que o belo  um par de cornos, quatro garras e cauda. Inquiri os filsofos. Responder-vos-o com aranzis. Falta-lhes algo de conforme 
ao arqutipo do belo em essncia, o to kalon.

Assistia eu certa vez  representao de uma tragdia em companhia de um filsofo. - Como  belo! - dizia ele. - Que viu o sr. de belo? - O autor atingiu seu fim. 
No dia seguinte ele tomou um purgante que lhe fez efeito. - O purgante atingiu seu fim - disse-lhe eu. - Eis um belo purgante. Ele compreendeu no se poder dizer 
que um purgante seja belo, e que para chamar belo a alguma coisa  preciso que nos cause admirao e prazer. Conveio em que a tragdia lhe inspirara estas duas emoes, 
e que nisso estava o to kalon, o belo.

Realizamos uma viagem  Inglaterra. L se representava a mesma pea, impecavelmente traduzida. Fez bocejarem todos os espectadores.

- Oh! - exclamou o filsofo - o to kalon no  o mesmo para os ingleses e os franceses. Aps muita reflexo concluiu ser o belo extremamente relativo, como o que 
 decente no Japo  indecente em Roma, o que  moda em Paris no o  em Pequim.

BEM (SUPREMO)

Muito discutiu a antigidade em torno do supremo bem. Que  o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar que  o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, 
o ler supremo, etc.

Cada um pe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. Quid dem? quid non dem? Renuis tu quod jubet alter...
Castor gaudet equis; ovo prognatus eodem pugnis... ( 10). Sumo bem  o bem que vos deleita a ponto de polarizar-nos toda a sensibilidade, assim como mal supremo 
 aquele que vos torna completamente insensvel. Eis os dois plos da natureza humana. Esses dois momentos so curtos.

No existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal so quimeras.

Conhecemos a bela fbula de Crntor, que fez comparecer aos jogos olmpicos a Fortuna, a Volpia, a Sade e a Virtude.

Fortuna: - O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtm. Volpia: - Meu  o pomo, porquanto no se aspira  riqueza seno para ter-me a mim. Sade: - Sem mim no 
h volpia e a riqueza seria intil. Virtude: - Acima da riqueza, da volpia e da sade estou eu, que embora com ouro, prazeres e sade pode haver infelicidade, 
se no h virtude.

Teve o pomo a Virtude A fbula  engenhosa, mas no solve o problema absurdo do supremo bem. Virtude no  bem, seno dever. Pertence a plano superior. Nada tem 
que ver com as sensaes dolorosas ou agradveis. Com clculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necessrio, perseguido, agrilhoado por um tirano voluptuoso 
aboletado no fausto, o homem virtuoso  infelicssimo, e o perseguidor insolente que acaricia uma nova amante em seu leito de prpura, felicssimo. Podeis dizer 
ser prefervel o sbio perseguido ao perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar ao outro. Mas esquece-vos que le sage dans les fers enrage. Se no 
concordar o sbio, engana-vos:  um charlato.

BEM (TUDO EST)

Armou-se grande estardalhao nas escolas e at entre as pessoas que raciocinam quando, parafraseando Plato, lanou Leibnitz seu edifcio do melhor dos mundos possveis, 
dizendo que tudo corria s mil maravilhas (11). Afirmou ele no norte da Alemanha que Deus no poderia fazer mais que um nico mundo. Plato pelo menos concedera-lhe 
a liberdade de fazer cinco, pela razo de cinco serem os corpos slidos regulares: tetraedro ou pirmide trifacial de base igual s faces, cubo, hexaedro, dodecaedro, 
icosaedro. Mas como o nosso mundo no tem a forma de nenhum dos seus cinco slidos, devia conceder a Deus uma sexta forma.

Deixemos em paz o divino Plato. Leibnitz, que certamente era melhor gemetra e mais profundo
metafsico que ele. prestou ao gnero humano o servio de lhe fazer ver que devemos estar contentssimos e ter sido impossvel a Deus fazer por ns mais do que fez. 
Que necessariamente Deus escolhera entre todos os partidos sem contradita o melhor.

- E o pecado original? - perguntavam-lhe. - Foi o que podia ser - explicavam Leibnitz e seus amigos. Mas praceiramente escrevia ele entrar o pecado original necessariamente 
no melhor dos mundos.

Ora essa! Ser expulso de um lugar de delcias onde se viveria eternamente se no se tivesse comido uma ma! Como! Chafurdado na misria, pr no mundo filhos miserveis 
que tudo ho de sofrer, que tudo faro sofrer aos outros! Que! Padecer todas as doenas, sofrer todos os martrios, morrer na dor, e como refrigrio ser assado na 
eternidade dos sculos! Seria esse o melhor quinho que tinha Deus para nos dar? Nada tem de bom para ns. E em que poderia t-lo para Deus?

Compreendia Leibnitz nada ter que responder. Escreveu tambm maudos livros, mas calou o ponto. Negar a existncia do mal, pode neg-la rindo um Luculo refestelado 
na opulncia, aps lauto jantar libado em companhia dos amigos e da amante no salo de Apolo. Mas que ponha a cabea  janela. Ver o que  o mundo.

Repugna-me citar.  empresa de ordinrio espinhosa: negligencia-se o que precede e o que segue a citao, e se expe a querelas. Cumpre-me, todavia, citar Lactncio, 
padre da igreja, que em seu captulo 13, Da Clera de Deus, pe estas palavras na boca de Epicuro: "Ou Deus quer abolir o mal do mundo e no pode; ou pode e no 
quer; ou nem pode nem quer; ou enfim quer e pode. Se quer e no pode  impotente, o que contradiz a natureza divina; se pode e no quer,  mau, o que no  menos 
contrrio  sua natureza; se no quer nem pode,  a um tempo mau e impotente; se quer e pode (a nica conjuntura que convm a Deus) qual ento a origem do mal sobre 
a terra?"

O argumento  instante. Lactncio respondeu muito mal, dizendo que Deus quer o mal porm nos deu a sabedoria, com que podemos alcanar o bem. A resposta  fraqussima. 
Supe que Deus no podia dar a sabedoria seno de par com o mal. Demais ns possumos uma sabedoria agradvel!

A origem do mal foi sempre um abismo de que ningum conseguiu lobrigar o fundo. Da tantos filsofos e legisladores antigos se socorrerem de dois princpios, um 
do bem e outro do mal. Tifo era o princpio do mal entre os egpcios, Arim entre os persas. Adotaram essa teologia, como se sabe, os maniqueus. Como porm anteriormente 
nunca falaram nem em um nem em outro desses princpios, convm no lhes dar ouvidos.

Entre os absurdos de que regurgita o mundo, no  dos menores este, que pode entrar no rol dos nossos males: imaginar dois seres todo poderosos duelando-se para 
ver quem d mais de si ao mundo, e acordando um convnio como os dois mdicos de Molire Passe-me o emtico que lhe farei a sangria.

Rasteando os platonistas, pretendeu Basildio no primeiro sculo da igreja que Deus acometera a tarefa de forjar o nosso mundo aos ltimos de seus anjos, os quais 
no sendo l muito peritos desalinhavaram as coisas como a esto. Refuta tal fbula teolgica esta objeo irretorquvel: no  de
Deus onipotente e onisciente confiar a construo de um mundo a arquitetos inaptos. Sentindo a objeo, preveniu-a Simo asseverando que em virtude do pssimo desempenho 
da incumbncia Deus condenou aos infernos o anjo que presidia  oficina celeste. Por mais esturricado que esteja, contudo, a condenao desse anjo no nos cala o 
sofrimento.

No responde melhor  objeo a aventura de Pandora dos gregos. Inegavelmente a histria da boceta que encerra todos os males e em cujo fundo jaz a esperana  uma 
bela alegoria. Mas essa tal Pandora, t-la Vulcano to somente para fazer pique a Prometeu, que havia feito um homem de barro.

Os hindus no foram mais engenhosos: tendo criado o homem, Deus lhe deu uma droga que lhe asseguraria permanente sade; o homem carregou seu asno dessa droga, o 
asno ficou com sede, a serpente ensinou-lhe uma fonte: enquanto o asno bebia a serpente pilhou a droga.

Imaginaram os srios que, tendo o homem e a mulher sido criados no quarto cu, quiseram comer de uma torta em vez de ambrsia, seu manjar natural. A ambrsia exalava-se 
pelos poros. Comendo a torta, porm, era preciso ir  secreta. O homem e a mulher pediram a um anjo lhes indicasse onde ficava tal repartio do Paraso. - Esto 
vendo - disse-lhes o anjo - aquele planetinha insignificante, a uns sessenta milhes de lguas daqui? Pois  l. - Para l se foram, e l os deixaram. Desde ento 
o mundo  o que .

 o caso de perguntar aos srios por que Deus permitiu que o homem comesse da torta e que temos ns que ver com o pato.

Para nos forrarmos ao tdio, saltemos do quarto cu ao Sr. Bolingbroke. Este homem, incontestavelmente genial, deu ao clebre Pope seu plano de tudo est bem, que 
de fato l vem palavra por palavra nas obras pstumas de Bolingbroke, e que anteriormente inserira Shaftesbury em seus Caractersticos. Leia-se o captulo deste 
livro dedicado aos moralistas. L se encontrar:

" H muito que responder a essas lamrias sobre defeitos da natureza. Como saiu to impotente e falha das mos de um ser perfeito? Mas eu nego que a natureza seja 
imperfeita... Sua beleza resulta das contrariedades. De perptuo combate nasce a concrdia universal...  preciso que cada ser seja imolado a outros: os vegetais 
aos animais, os animais  terra... Demais no ser por amor de miservel verme que as leis do poder central e da gravitao, de que decorrem o peso e o movimento 
dos corpos celestes, sero perturbadas. Miservel verme que, por muito bem protegido que esteja por essas leis, longe no est o dia em que por elas mesmas ser 
reduzido a p de traque".

Bolingbroke, Shaftesbury e Pope - lapidrio dos primeiros - no solvem a questo melhor que os outros. Seu tudo est bem no diz seno que o todo  regido por leis 
imutveis. Quem no sabe disso? Para ningum  novidade saber, depois dos netos, que as moscas foram feitas para ser comidas pelas aranhas, as aranhas pelas andorinhas, 
as andorinhas pelas pegas, as pegas pelas guias, as guias para ser mortas pelos homens, os homens para matar-se uns aos outros, ser comidos pelos vermes e em seguida 
pelo diabo.

Eis a ordem ntida e constante entre os animais de todas as espcies. Em tudo existe ordem. Quando se forma um clculo em minha bexiga, verifica-se uma mecnica 
admirvel. Pouco a pouco aparecem no sangue sucos calculosos, que se filtram nos rins, passam pelas urteres, caem na bexiga e ali se
depositam em virtude de excelente atrao newtoniana; forma-se a concreo, que cresce, e eu sofro dores mil vezes piores que a morte, por mais maravilhosamente 
ordenado que esteja o mundo. Um cirurgio que aperfeioou a arte inventada por Tubalcain enterra-me um ferro agudo e trinchante no perineu, agarra o clculo com 
suas tenazes: por um mecanismo necessrio, a pedra se desfaz sob seus esforos. E pelo mesmo mecanismo necessrio entrego a alma ao diabo em meio de tormentos medonhos. 
Tudo isso est bem. Tudo isso  conseqncia evidente dos inalterveis princpios fsicos. Reconheo-o. Mas, como vs, j o sabia

Se fssemos insensveis, nada haveria que dizer a esta fsica. No se trata disso, porm Pergunto-vos se no existem males sensveis, e de onde provem. "No existem 
males" - decreta Pope em sua quarta epstola acerca do tudo est bem. "Ou, se os h particulares, compem o bem geral".

Singular bem geral, constitudo de clculos, gota, de todos os crimes, de todos os sofrimentos, da morte e da condenao.

A queda do homem  o emplasto que aplicamos a todas essas doenas particulares do corpo e do esprito, que vs chamais sade geral. Mas Shaftesbury e Bolingbroke 
escarnecem do pecado original. Pope no se digna mencion-lo.  evidente que tal sistema solapa a religio crist nos alicerces, e no explica coisa alguma.

No entanto foi h pouco aprovado por muitos telogos, que de bom grado admitem os contrrios. Assim sendo, a ningum  preciso invejar o consolo de raciocinar como 
melhor puder sobre o dilvio de males que nos assoberba. Justo  conceder aos doentes sem esperana que comam o que quiserem. Chegou-se at a pretender ser esse 
sistema consolador. "Deus" - leciona Pope - v com os mesmos olhos morrer o heri e o pardal, precipitar-se na runa um tomo ou mil planetas, formar-se um mundo 
ou uma bolha de sabo".

Deliciosa consolao! No sentis grande lenitivo com o decreto do sr. Shaftesbury, que diz, Deus no vai modificar suas leis eternas por um miservel verme como 
o homem? Convenha-se contudo ter esse verme direito de lamentar-se humildemente e lamentando-se diligenciar compreender por que tais leis eternas no foram feitas 
para bem de todos.

O sistema do tudo est bem apresenta o autor da natureza como um dspota poderoso e mau, pouco se incomodando que seus caprichos custem a vida a milhares de seres 
humanos, enquanto os restantes arrastam seus dias na penria e na dor.

Longe de consolar, a teoria do melhor dos mundos possvel  desesperadora. O problema do bem e do mal permanece um caos inextricvel para todos aqueles que perquirem 
de boa f. Para os polemistas,  um motivo de chiste: so forados brincando com os prprios grilhes. Para o povo no pensante,  o caso de peixes transportados 
de um rio para um reservatrio; no alimentam a menor idia que esto ali para ser comidos na quaresma.

Nada sabemos do porqu do nosso destino. Cumpre subpor ao fim de quase todos os captulos da metafsica as duas letras dos juizes romanos, quando no entendiam uma 
causa: N. L., non liquet, - no  claro.

CADEIA DOS ACONTECIMENTOS

H muito que se crem os acontecimentos encadeados uns aos outros por invencvel fatalidade - o Destino - que  em Homero superior ao prprio Jpiter. Sem refolhos 
confessava o soberano dos deuses e dos homens no poder impedir que seu filho Sarpdon morresse no prazo preestabelecido. No momento em que devia nascer Sarpdon 
nascera, nem poderia deixar de ser assim. No podia morrer em outro lugar seno diante de Tria. No podia ser enterrado seno em Lcia. Seu corpo, no prazo preestabelecido, 
produziria legumes que se transmudariam em substncia de alguns licienses. Seus herdeiros haveriam de estabelecer nova ordem em seus estados. Essa nova ordem influiria 
nos reinos vizinhos. Do que resultariam novas disposies de guerra e paz com os vizinhos dos vizinhos de Licia. E assim sucessivamente o destino da terra dependeu 
da morte de Sarpdon, a qual dependeu de outro acontecimento, que por seu turno se ata por intermdio de outros  origem das coisas.

Tivesse um nico desses fatos acontecido diferentemente, outro fora o mundo. Ora, impossvel que o mundo atual existisse e no existisse ao mesmo tempo: portanto 
impossvel fora a Jpiter salvar a vida do filho, por muito Jpiter que fosse.

Diz-se que este sistema da necessidade e fatalidade inventou-o Leibnitz em nossos dias, chamando-lhe razo suficiente. Entretanto  antiqussimo. No  de hoje que 
no h efeito sem causa e que muitas vezes a mais insignificante das causas produz os maiores efeitos.

Conta o sr. Bolingbroke que lhe proporcionaram ocasio de concertar o tratado particular da rainha Ana com Lus XIV as questinculas da sra. Marlborough e da sra. 
Masham. Esse tratado conduziu  paz de Utrecht. A paz de Utrecht firmou Filipe V no trono de Espanha. Filipe V conquistou Npoles e Siclia  frente da casa da ustria. 
Deve o prncipe que  atualmente rei de Npoles seu trono  sra Masbam. No o seria, talvez nem existisse, se a duquesa de Marlborough tivesse sido mais complacente 
para com a rainha de Inglaterra. Sua existncia dependia em Npoles de uma tolice a mais ou a menos na corte londrina. Examinai a situao de todos os povos do mundo: 
 o que  por fora de uma srie de acontecimentos aparentemente insulados, porm realmente baraados em ntimo emaranhamento. So tudo rodagens, pols, cabos, molas 
dessa mquina colossal.

O mesmo sucede na ordem fsica. Um vento que sopre do fundo da frica ou dos mares austrais acarreta parte da atmosfera africana que recai em chuva nos declvios 
dos Alpes. Essas chuvas fecundam nossas terras. Nosso vento do norte, por sua vez, leva nossos vapores daqui para o continente negro. Ns beneficiamos a Guin e 
a Guin nos beneficia. A cadeia se estende de cabo a cabo do mundo.

Parece-me contudo abusar-se demais desse princpio. Conclui-se no haver e mais nfimo tomo que no tenha infludo na disposio atual do mundo inteiro. Que no 
h o menor acidente, quer entre os homens, quer entre os animais, que no seja anel essencial da grande cadeia do destino.

Entendo eu: todo efeito tem evidentemente sua causa, remontante de causa em causa at o abismo da eternidade. Mas nem toda causa transmite seu efeito at o fim dos 
sculos. Todo acontecimento decorre um de outro, admito. O presente sai do passado. O futuro sair do presente. Tudo tem pai. Mas nem tudo tem filhos. Precisamente 
como numa rvore genealgica: toda famlia remonta, como  sabido, a Ado,
mas na famlia muitos indivduos morrem sem deixar posteridade. Existe uma rvore genealgica dos acontecimentos. Incontestavelmente os habitantes das Glias e de 
Espanha descendem de Gomer e os russos de Magogue, seu irmo mais novo: encontra-se esta genealogia em tantos livros maudos! Nesse p, no h negar devermos a Magogue 
os sessenta mil russos em armas hoje s portas da Pomernia e os sessenta mil franceses que combatem nas abas de Francfort. Mas que Magogue haja expectorado  direita 
ou  esquerda ao p do Cucaso, tenha dado duas ou trs voltas em redor de um poo, haja dormido do lado esquerdo ou direito, no vejo como possa isso ter infludo 
capitalmente na resoluo tomada pela imperatriz da Rssia Elizabete de enviar um exrcito em socorro da imperatriz romana Maria Teresa. Que meu co sonhe ou no 
quando dorme, no percebo que relao poder ter to importante fato com os negcios do gro mogol.

 necessrio atentar em que nem tudo  cheio na natureza e que nem todo movimento se transmite consecutivamente at descrever a volta ao mundo. Lance-se n'gua um 
corpo de mesma densidade. Facilmente se compreender que ao cabo de algum tempo assim o movimento do corpo como aquele que comunicou  gua se extinguem. O movimento 
consome-se e repara-se. Por conseguinte o movimento que possa ter produzido Magogue escarrando num poo no pode ter influncia no que hoje se passa. na Rssia e 
na Prssia. Nem todos os acontecimentos pretritos so pais dos acontecimentos presentes. Todo acontecimento atual provm em linhas diretas do passado. Porm milhares 
de linhas colaterais h que em nada os interessam. Repitamos: tudo tem pai, mas nem tudo tem filhos. Retornaremos ao assunto ao falar do Destino.

CARTER

A palavra grega impresso, gravura.  o que em ns gravou a natureza. Podemos apag-lo? Transcendental questo. Se tenho o nariz de esconso e olhos de gato, posso 
escond-los sob uma mscara. Poderei encobrir melhor o carter?

Apresenta-se perante Francisco I de Frana, a fim de queixar-se de uma preterio, um indivduo de natural violento e impetuoso. O semblante do prncipe, a postura 
respeitosa dos cortesos, o local mesmo impressionam-no fundamente. Maquinalmente baixa os olhos, a voz rude se abranda e faz o pedido humildemente. Crer-se-ia nascido 
to manso quanto os cortesos em meio dos quais parece quase desconsertado. Entretanto facilmente descobre Francisco I em seus olhos baixos, porm acesos de um fogo 
sombrio, nos msculos retesos do rosto, nos lbios contracerrados, que esse homem no  to humilde como aparenta. Esse homem acompanha-o a Pvia,  aprisionado 
com ele e com ele levado para Madri. J no lhe infunde a mesma impresso a majestade do rei. Familiariza-se com o objeto de seu respeito. Um dia, ao descalar-lhe 
as botas, e fazendo-o desleixadamente, Francisco, azedado pelo infortnio, ralha-lhe. Nosso homem manda o rei plantar batatas e atira as botas pela janela.

Nascera Sixto Quinto petulante, opinitico, soberbo, impetuoso, vingativo, arrogante. As provas do noviciado parecem ter-lhe adoado o carter. Mal comea a desfrutar 
de certo crdito em sua ordem, lana-se contra um guardio e alomba-o a punhadas. Inquisidor em Veneza, exerce o cargo com insolncia. Cardeal,  possudo della 
rabbia papale. Embua na obscuridade sua pessoa e seu carter.
Mascara-se de humilde e moribundo. Elegem-no papa:  quando d  mola do natural toda a elasticidade longo tempo retesada pela poltica.  o mais arrogante e desptico 
dos soberanos.

Naturam expellas furca, tamen usque recurret. Religio, moral, so freios retentores do carter. No podem, porm, mat-lo. Enclausurado, reduzido a dois dedos de 
sidra s refeies, pode o bbedo deixar de embriagar-se, mas ansiar sempre pelo vinho.

A idade amolenta o carter. Transforma-o em uma rvore que no d seno um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. Enodoa-se, cobre-se de musgo, 
caruncha. Jamais deixar de ser carvalho ou pereira, porm. Se fosse possvel alterar o carter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. 
Podemos l criar alguma coisa? No recebemos tudo? Experimentai animar o indolente de contnua atividade, inspirar gosto  musica a quem carea de gosto e de ouvido. 
No tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascena. Ns aperfeioamos, esborcelamos, embuamos o que nos estereogravou a natureza. 
No h, porm, alterar-lhe a obra.

Direis a um criador: - O Sr. tem peixe demais nesse viveiro; assim eles no vingam. Seus campos esto sobrelotados de gado; o capim no d, os animais emagrecero. 
- Com isso deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. Os restantes engordam. Gabar-se- ele dessa economia? 
Este campons s tu mesmo. Uma de tuas paixes devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti prprio. No parecemos quase todos ns com aquele velho general 
de noventa anos que, encontrando alguns jovens oficiais mexendo com umas moas, perguntou-lhes colrico: "Senhores,  esse o exemplo que lhes dou?".

CATECISMO CHINS

(Ou dilogos de Cu Su, discpulo de Cong- fu-tseu, com o prncipe Cu, filho do rei de Lou, tributrio do imperador hins Gnenv, 417 anos antes da nossa era. Traduzido 
em latim pelo padre Fouquet ex- jesuta. Encontra-se o manuscrito na biblioteca do Vaticano, nmero 42.759).

C.

Que devo entender quando me dizem que adore o cu (Chang ti)?

C. S.

No se trata do cu material que vemos, que no  outra coisa seno ar, composio de todas as
emanaes da terra. Imenso disparate seria adorar vapores.

C.

Pois no me surpreenderia. Parece-me que os homens cometeram disparates ainda maiores.

C. S.

De fato. Mas vs estais destinado a governar. Cumpre-vos ser sbio.

C.

H tantos povos que adoram o cu e os planetas!

C. S.

Os planetas no passam de mundos como o nosso. Temos tanto motivo para adorar a areia e o barro da Lua, por exemplo, como a Lua para se pr de joelhos diante da 
areia e do barro da Terra.

C.

Que se quer dizer quando se fala: O cu e a terra, acenda ao cu, seja digno do cu?

C. S.

Diz-se tremenda asneira. No existe cu: cada planeta  circundado como que de uma casca chamada atmosfera, e gira no espao em torno de seu sol. Cada sol  centro 
de poro de planetas que o acompanham espao em fora. No existe alto nem baixo, subida nem descida. Compreendeis que se habitantes da Lua dissessem que se sobe 
para a Terra, que era preciso tornar-se digno da Terra, diriam
um absurdo. Da mesma forma proferimos uma frase sem nexo quando dizemos ser necessrio fazer-se digno do cu.  como se dissssemos:  preciso tornar-se digno do 
ar, digno da constelao do Drago, digno do espao.

C.

Creio compreender. Devemos adorar somente o Deus que criou o cu e a terra.

C. S.

Isso! S Deus merece ser adorado. Mas quando dizemos que Deus fez o cu e a terra, piamente proferimos uma grande ingenuidade. Porque, se por cu entendemos o espao 
portentoso em que Deus acendeu tantos sis e fez girar tantos mundos,  mais ridculo dizer o cu o a terra do que dizer as montanhas e um gro de areia. Infinitamente 
menor que um gro de areia  o nosso globo perto desses quintilhes de mundos, em meio aos quais desaparecemos. Tudo o que podemos fazer  juntar nossa dbil voz 
ao coro dos seres incontveis que no abismo da amplido rendem homenagem a Deus.

C.

Ento enganaram-nos quando nos disseram que Fo desceu do quarto cu e se nos apresentou sob a forma de um elefante branco?

C. S.

Isso so histrias que os bonzos contam s crianas e aos velhos. No devemos adorar seno o autor eterno de todos os seres.


C.

Mas como pde um ser fazer os outros?

C. S.

Olhai aquela estrela - Acha-se a um trilho e quinhentos bilhes de lis(12) do nosso minsculo globo. Dela projetam-se raios que vm formar em nossos olhos dois 
ngulos iguais pelo vrtice. Os mesmos ngulos formam nos olhos de todos os animais. No vedes nisso um desgnio evidente? No vedes nisso uma lei admirvel? Ora, 
quem faz uma obra seno um obreiro? Quem elabora leis seno um legislador? Existe pois um obreiro, um legislador eterno.

C.

Mas quem fez esse obreiro? Como  ele?

C. S.

Meu prncipe, passeando ontem pelos arredores do palcio mandado construir pelo rei vosso pai, ouvi dois grilos conversando, um dos quais dizia: - Que palcio formidvel! 
- Sim, - disse o outro - com toda a minha presuno confesso que deve ser algum mais poderoso que os grilos o autor de tal prodgio. Mas nem imagino quem seja. 
Vejo que h de existir, mas no sei quem .

C.

Confesso serdes um grilo mais entendido que eu. O que me agrada em vs  no pretenderdes saber o que ignorais.

Segundo dilogo C. S.
Ento convindes haja um ser todo poderoso, existente por si prprio, supremo arteso de toda a natureza?

C.

Sim. Mas se existe por si mesmo nada pode demarc-lo, est em toda parte. Acha-se ento em toda a matria, em todas as partes de mim mesmo?

C. S.

Por que no?

C.

Nesse caso eu prprio seria parte da divindade.

C. S.

No me parece certa a concluso. Este caco de vidro  de todos os lados penetrado pela luz. Entanto ser ele luz? No;  simplesmente areia. Tudo est em Deus, no 
resta dvida: o que tudo anima em tudo deve estar. Deus no  como o imperador da China, que mora em um palcio e transmite suas ordens por calao. Desde que exista, 
necessrio  que sua existncia encha todo o espao e todas as suas obras. E j que est em vs  uma advertncia contnua para que nada faais que vos possa envergonhar 
em sua presena.

C.

Que fazer para ousar olhar-se a si mesmo sem repugnncia e sem pejo diante do ser supremo?

C. S.
Ser justo.

C.

Que mais?

C. S.

Ser justo.

C.

Mas diz a seita de Lao Quium no existir justia nem injustia, vcio nem virtude.

C. S.

Diz a seita de Lao Quium no existir sade nem doena?

C.

No, ela no diria tamanho absurdo.

C. S.

Absurdo to grande e mais funesto  pensar no existir sade nem molstia da alma, virtude nem vcio. Os que disseram ser tudo a mesma coisa so monstros. Ser a 
mesma coisa criar o filho ou esmag-lo em cima de uma pedra? Assistir  me ou cravar-lhe um punhal no corao?
C.

Fazeis-me estremecer. Eu execro a seita de Lao Quium. Mas so tantos os matizes do justo e do injusto! As vezes fica-se perplexo. Quem saber precisamente o que 
 permitido e o que no o ? Quem ser capaz de estabelecer seguramente as fronteiras que separam o bem do mal? Que norma me dais para discerni-los?

C. S.

As normas de Cong- fu-tseu, meu mestre: "Vive como ao morrer desejarias ter vivido. Trata o prximo como queres que ele te trate"

C.

Confesso que tais mximas devem ser o cdigo do gnero humano. Mas que me importar ao morrer ter bem vivido? Que ganharei com isso? Acaso, ao se quebrar, se sentir 
feliz aquele relgio por haver bem soado as horas?

C. S.

Aquele relgio no sente, no pensa No pode ter remorsos, ao passo que vs os tendes quando vos sentis culpado.

C.

E se, aps cometer muitos crimes, vier a no mais os sentir?

C. S.

Nesse caso seria preciso reprimir-vos. E ficai certo que entre os homens que no gostam de ser oprimidos algum haveria que vos tolheria as mos.

C.

Quer dizer que Deus, que est neles, consentiria que fossem maus depois de t-lo permitido a mim?

C. S.

Deus vos galardoou com a razo: que dela no abuseis nem vs nem eles. No somente sereis infeliz nesta vida, como ainda quem vos disse no o sereis em outra?

C.

Quem vos disse existir outra vida?

C. S.

Na dvida, procedei como se existisse.

C.

Se eu tivesse certeza de que no existe?

C. S.

Desafio-vos.
Terceiro dilogo 

C.

Mas para poder ser punido ou recompensado quando deixar de existir, foroso  que subsista em mim algo que sinta e que pense. Ora, se antes de nascer nada de mim 
havia que sentisse ou pensasse, como haver depois que morrer? Que poderia ser essa parte inconceptvel de mim mesmo? Subsistir o zumbido daquela abelha  sua morte? 
Subsistir a vegetao desta planta a seu desarraigamento? Vegetao no  uma palavra de que nos servimos para exprimir a maneira inexplicvel como quis o Ser Supremo 
que a planta absorvesse os sucos da terra? Tal e qual, alma  uma palavra inventada para exprimir pobremente e obscuramente os princpios essenciais da vida humana. 
Todos os animais se movem. A esse poder de mover-se chamamos fora ativa. Mas no existe um ser distinto - fora ativa. Temos paixes, memria, razo. Porm razo, 
memria, paixes no so,  claro, coisas a parte. No so seres em ns existentes. No so indivduos de existncia prpria: so termos genricos por ns inventados 
para expressarmos nossas idias. Alma - memria, razo, paixes - no passa pois de uma palavra. Quem anima a natureza de movimento? Deus. Quem faz vegetar as plantas? 
Deus. Quem d vida aos animais? Deus. Quem gera o pensamento humano? Deus.

Se a alma humana fosse um anozinho que habitasse o nosso corpo, governando-nos os movimentos e as idias, no denotaria isso impotncia e artifcio indignos do 
eterno arteso do mundo? No seria ele capaz de fazer tomos por si prprios dotados de movimento e pensamento? Ensinastes-me grego, fizestes-me ler Homero. Reputo 
Vulcano um ferreiro divino quando faz trpodas de ouro que se apresentam sozinhas perante o conselho dos deuses. Vil charlato parecer-me-ia porm se houvesse escondido 
no corpo das trpodas um moleque que, sem que ningum percebesse, as fizesse mover-se.

Criaram frios sonhadores a fantasia de atribuir o movimento dos astros a gnios que incessantemente os impelissem espao em fora. Mas Deus no poderia ver-se reduzido 
a to msero recurso. Em uma palavra, para que duas molas quando basta uma? No ousareis negar tenha Deus o poder de animar o ente pouco conhecido a que chamamos 
matria. Por que ento haveria de recorrer a outro agente?

Mais: que seria essa alma que to liberalmente dais ao nosso corpo? De onde veio? Quando? Seria preciso plantar-se tempo sem tempo o Criador do universo a coca da 
unio de homem e mulher, observando atentamente o instante em que sasse um germe do corpo do homem e entrasse no corpo da mulher para ento enviar-lhe s pressas 
uma alma? E se o germe morresse, que seria da alma? Teria sido criada inutilmente, ou esperaria outra oportunidade.

Estranha ocupao para o senhor do mundo. Tanto mais que no se veria abarbado apenas com as cpulas da espcie humana: precisaria ter olhos para a reproduo de 
todos os animais, porque todos os animais tm memria, idias, paixes. E se para criar sentimentos, memria, idias, paixes fosse necessria uma alma, cumpriria 
a Deus afanar-se incessantemente a forjar almas para elefantes, pulgas, mochos, peixes, bonzos.
Que idia tereis do arquiteto de tantos milhes de mundos apeado a fazer cavilhas invisveis da manh  noite a fim de perpetuar sua obra?

A tendes nfima parte das razes que me fazem duvidar da existncia da alma.

C. S.

Raciocinais de boa f. E vosso sincero parecer, errneo embora, h de ser grato ao Ser Supremo. Podeis enganar-vos, mas no o procurais. Sois, pois, desculpvel. 
Mas vede que no me propusestes seno dvidas, e dvidas tristes. Admiti verossimilhanas mais consoladoras.  duro ser aniquilado; esperai viver. Sabeis que um 
pensamento no  matria, nada tem que ver com a matria: por que h de ser to difcil crerdes que Deus vos haja inoculado um princpio divino que - indissolvel 
- escape  morte? Ousareis dizer impossvel terdes uma alma? No, certamente. E sendo possvel, no ser muito provvel? Enjeitareis um sistema to belo e to necessrio 
ao gnero humano? Por somenos impedimentos?

C.

Grato ser-me-ia abraar tal sistema, de vez que me fosse provado. No sou. senhor de ver o que no enxergo. Sempre me impressionou a idia grandiosa de que Deus 
tudo criou, em tudo est, tudo penetra, a tudo inspira vida e movimento. E se, estando em toda a natureza, se acha em todas as partculas do meu ser, no vejo que 
necessidade tenho de uma alma. Para que um pequeno ente subalterno, quando sou animado do prprio Deus? De que me serviria essa alma? Nossas prprias idias, no 
somos ns quem as elaboramos: acodem-nos no raro a despeito de ns mesmos; temo-las enquanto dormimos. Tudo em ns se opera sem a nossa interveno. Por mais que 
a alma dissesse ao sangue e aos espritos animais: Circulai, peo-vos, de tal ou tal maneira, eles circulariam eternamente e impassivelmente da forma que Deus lhes 
ditou. Prefiro ser mquina de um Deus que se me evidencia a s-la de uma alma de cuja existncia duvido.

C. S.

Pois bem! Se vos anima o prprio Deus, nunca profaneis com crimes a sua presena. E se vos deu uma alma, que essa alma jamais o ofenda. Num sistema como noutro tendes 
vontade. Sois livre, dispondes do poder de fazer o que quiserdes; usai desse poder para servir a Deus que vo-lo outorgou. Bom  que sejais filsofo: necessrio que 
sejais justo. S-lo-eis ainda mais quando crerdes possuir uma alma imortal.
Dignai-vos responder-me: no  verdade ser Deus a suma justia?

C.

Sem dvida. E ainda que fosse possvel deixar de s-la (o que  uma blasfmia) eu mesmo quereria proceder com eqidade.

C. S.

Quando estiverdes no trono, no  verdade ser vosso dever recompensar as aes virtuosas e punir as culposas? Querereis que Deus no fizesse o que vs mesmo fareis? 
Sabeis que h e sempre haver nesta vida virtudes infelizes e crimes impunes. Necessrio  pois que bem e mal encontrem seu julgamento em outra existncia. Foi esta 
idia to simples, to natural, to geral que gerou em tantas naes a crena da imortalidade da alma e da justia divina, que a julgar quando se despir do despojo 
mortal. Haver sistema mais razovel, mais conforme  Divindade e mais til ao gnero humano?

C.

Por que ento muitas naes no o abraaram? Sabeis haver em nossa provncia coisa de duzentas famlias de antigos sins( 13) que habitaram outrora parte da Arbia 
Ptrea. Pois nem eles nem seus avitos jamais creram a alma imortal. Tm seus Cinco Livros, como ns temos nossos Cinco Quings( 14). Li-lhes a traduo; suas leis, 
necessariamente semelhantes s de todos os outros povos, ordenam-lhes respeitar os pais, no furtar, no mentir, no cometer o adultrio nem o homicdio. No lhes 
falam, porm, de recompensas e castigos em outra vida.

C. S.

Se essa idia ainda no se desenvolveu nesse pobre povo, desenvolver-se- sem dvida algum dia. Demais, que nos importa uma insignificante e miservel nao quando 
babilnios, egpcios, hindus, todos os povos civilizados admitiram esse dogma to salutar? Se estivsseis doente, refugareis um remdio aprovado por todos os chineses 
s porque meia dzia de brbaros das montanhas no o tomariam? Deus concedeu-vos a razo, e diz-vos a razo que a alma deve ser imortal.  o prprio Deus que vo-lo 
diz, portanto.

C.

Mas como poderei ser recompensado ou punido quando j no for eu mesmo, quando nada existir do que constitui a minha pessoa? To somente por fora da memria  que 
sou sempre eu mesmo. Ora, a memria, perd-la-ei na derradeira doena. Haver ento um milagre depois de minha morte que ma restitua, para que eu retorne  existncia?

C. S.

Nesse caso um prncipe que houvesse decapitado a famlia para reinar, tiranizado os sditos, eximir-se-ia de culpa dizendo a Deus: - No fui eu, eu perdi a memria, 
vs vos equivocais, eu j no sou a mesma pessoa. - Julgais que Deus se daria por achado com semelhante sofisma?

C.

Pois bem. Seja, rendo-me. Se praticaria o bem por mim prprio, f-lo-ei igualmente para comprazer ao Ser Supremo. Eu pensava bastar minha alma ser justa nesta vida 
para ser feliz em outra. Vejo que tal opinio  boa para os povos e para os prncipes, mas o culto de Deus me preocupa.

Quarto dilogo C. S.

Que achais de esquisito em nosso Chu Quing, esse primeiro livro cannico to respeitado por todos os imperadores chineses? Para servir de exemplo ao povo trabalhais 
um campo com as prprias mos reais e dele ofertais as primcias a Chang- ti, a Tien, ao Ser Supremo. A ele sacrificais quatro vezes ao ano. Sois rei e pontfice. 
Prometeis a Deus todo o bem que estiver em vosso poder. No h nisso algo que repugne?

C.

Sei que Deus no tem nenhuma necessidade de nossos sacrifcios e de nossas preces. Ns  que temos preciso de nos sacrificarmos e de orar. O culto de Deus no foi 
estabelecido por ele, mas por ns. Muito me apraz orar, e quero sobretudo que minhas oraes no sejam ridculas. Porque se me ponho a gritar que "a montanha do 
Chang- ti  uma montanha gorda,  que no se deve olhar para as montanhas gordas,"( 15) e fao fugir o Sol e apagar a Lua, seriam essas algarvias do agrado do Ser 
Supremo, teis a meus sdito e a mim mesmo?

No suporto principalmente a demncia das seitas. De um lado vejo Lao Tseu concebido pela unio do cu e da terra e cuja me o carregou no ventre durante oitenta 
anos. No tenho mais f em sua doutrina do aniquilamento e da renncia universal que nos cabelos brancos com que nasceu ou na vaca preta que montou para ir pregar 
sua doutrina.

No creio mais no deus Fo, ainda que tenha tido por pai um elefante branco e prometa a vida eterna. Mais que tudo me desagrada serem tais fantasias continuamente 
pregadas pelos bonzos, que seduzem o povo para govern-lo. Fazem-se respeitveis por mortificaes que repugnam  natureza. Uns se privam toda a vida dos alimentos 
mais salutares, como se no se pudesse agradar a Deus seno com um mau regime. Outros pem argolas de ferro no pescoo, o que por vezes lhes d um ar dignssimo. 
Enterram cravos nas coxas, como se fossem tbuas. E o povo segue-os em chusma. Se um rei decreta um dito que os desagrada, dizem-vos friamente que tal dito no 
se encontra no comentrio do deus Fo, e que mais vale obedecer a Deus que aos homens. Como remediar to extravagante e nociva doena popular? Sabeis ser a tolerncia 
o princpio do governo da China como de todos os povos da sia. No vos parece, porm, funesta semelhante indulgncia, quando expe um imprio a ser transtornado 
por opinies fanticas?

C. S.

Que o Chang- ti me livre de querer desenvolver em vs o esprito de tolerncia, virtude to respeitvel, que  para a alma o que  para o corpo a liberdade de saciar 
a fome. Permite a lei natural a cada um crer o que quiser, como se alimentar do que bem entender. O mdico no pode matar os clientes por no terem observado a dieta 
prescrita. No assiste ao prncipe o direito de mandar prender os sdito que no pensarem como ele. Mas cumpre-lhe prevenir perturbaes, e se for sbio, faclimo 
lhe ser extirpar as supersties. Sabeis o que se passou com Dao, sexto rei da Caldia, h cerca de quatro mil anos?

C.

No. Dar-me-eis prazer contando-mo.

C. S.

Os sacerdotes caldeus adoravam as solhas do Eufrates. Diziam que uma solha memorvel - Oans ensinara-lhes outrora a teologia, que essa solha era imortal, tinha 
trs ps de comprido e um pequeno crescente na cauda. Por amor de Oans era proibido comer solhas. Levantou-se grande barulho entre os telogos a fim de saber se 
a solha Oans era macho ou fmea Os dois partidos se excomungaram reciprocamente e por no poucas vezes chegou-se a vias de fato. Eis o que fez o rei Dao para pr 
termo  referta.

Ordenou a ambas as faces um rigoroso jejum de trs dias, findo o qual chamou  sua presena os partidrios da solha fmea, que assistiram a seu jantar. Mandou 
trazer uma solha de trs ps de comprimento, em cuja cauda fizera desenhar um crescente.

-  este o vosso deus? - perguntou aos doutores. - Sim, majestade. Tem o crescente na cauda e seguramente h de ter ovas. Ordenou o rei que se abrisse a solha, que 
se evidenciou macho. -. Estais vendo no ser o vosso deus, pois no tem ovas, - concluiu o rei. E comeu-a com seus strapas, com grande regozijo dos telogos das 
ovas, que viam frito o deus dos adversrios.

Em seguida mandou virem os doutores do outro partido. Mostrou-lhes um deus de trs ps de longo, com um crescente na cauda e que tinha ovas. Afirmaram os doutores 
ser o deus Oans, e que era macho. Como da primeira vez, o rei mandou frit-lo e viu-se que era fmea. Ento, evidenciando-se ambos os partidos igualmente tolos, 
e como no tivessem almoado, disse-lhes o bom rei Dao que no tinha seno solhas para dar-lhes de jantar. E os doutores comeram-nas gulosamente, fossem fmeas 
ou machos. Terminou a guerra civil, todos bendisseram o rei e de ento em diante toda gente fez servir  mesa quantas solhas lhe aprouvesse.

C.

Muito simpatizo com o rei Dao. Prometo imit-lo na primeira ocasio que se apresentar. Sem violncias, hei de impedir o quanto possa que se adorem Fos e solhas.

Sei que existem em Peg e Tonquim pequenos deuses e talapes que dizem fazer baixar a lua no minguante e predizer claramente o futuro, isto , verdadeiramente o 
que no existe, porque o futuro no existe. No que de mim depender, vedarei aos talapes virem ao meu imprio inventar o futuro e arriar  lua.
Que humilhao haver seitas que vo de cidade em cidade a propagar seus mitos, como charlates vendendo suas drogas! Que oprbrio para o esprito humano presumirem 
naezinhas insignificantes ser a verdade exclusividade sua, e que o vasto imprio da China chafurde no erro! Ento no seria o Ser Supremo seno o deus da ilha 
Formosa ou de Bornu? Abandonaria o resto do mundo ? Meu caro Cu Su, ele  o pai de todos os homens. A todos permite comer solhas. Ser virtuoso  a mais digna homenagem 
que se lhe possa render. Um corao puro  o mais sublime dos templos, como dizia o grande imperador Hiao.

Quinto dilogo C. S.

De vez que amais a virtude, como a praticareis quando fordes rei? No sendo injusto nem para com meus vizinhos nem para com meu povo.

C. S.

No basta no fazer o mal. Devereis praticar o bem. Dareis o que comer aos pobres empregando-os em trabalhos teis, e no presenteando-os com a ociosidade. Embelezareis 
as estradas reais, abrireis canais, construireis edifcios pblicos, estimulareis as artes, premiareis o mrito em que quer que se manifeste, perdoareis as faltas 
involuntrias.

C.

A isso chamo no ser injusto. Trata-se de deveres.

C. S.

Pensais como verdadeiro rei. Mas h o rei e o homem, a vida pblica e a vida privada. Logo vos casareis. Quantas esposas contais ter?

C.

Tenho que uma dzia ser o suficiente. Mais poderia furtar-me ao trabalho. No gosto desses reis que tm trezentas esposas e setecentas concubinas, e milhares de 
eunucos para servi-las. Essa mania de eunucos sobretudo parece-me um tremendo ultraje  natureza humana. Que se capem, quando muito, os galos. Com isso ficam melhores 
de comer. Nunca se viram, porm, eunucos na panela. Para que mutil-los? Tem o dalai lama cinqenta eunucos para cantarem em seu pagode. Gostaria de saber se  grato 
ao Chang- ti ouvir as vozes de taquara rachada desses cinqenta desmembrados.

Acho tambm muito ridculos esses bonzos que no se casam. Gabam-se de ser mais sbios que os demais chineses. Pois bem! Que faam ento filhos sbios. Boa moda 
essa honrar o Chang- ti privando-o de adoradores! Singular maneira de servir o gnero humano, dando-lhe o exemplo da prpria extino! Dizia o bom pequeno lama Stelca 
ed isant Errepi( 16) que todo padre devia fazer o maior nmero de filhos possvel. Ele prprio dava o exemplo e foi muito til em seu tempo. Por mim casarei todos 
os lamas e bonzos e lamizas e bonzas que tiverem vocao para esta santa obra. Sero melhores cidados, e com isso creio prestar grande benefcio ao reino de Lou.

C. S.

Oh que excelente prncipe teremos! Fazeis-me chorar de alegria. Mas certamente no tereis s mulheres e sdito. Porque afinal no se pode passar a vida a lavrar 
ditos e fabricar filhos. Sem dvida tereis amigos?

C.

J os tenho, e bons. Advertem-me de meus defeitos e eu tomo a liberdade de apontar-lhes os seus. Consola-me e eu os consolo. A amizade  o blsamo da vida, blsamo 
superior ao do qumico Erueil( 17) e at aos saquetes do grande Ranoud( 18). Admira-me no se haver feito da amizade um preceito de religio. Desejaria inseri-lo 
em nosso ritual.

C. S.

Preservai-vos de semelhante arbitrariedade. A amizade j  sagrada por si mesma. Nunca a forceis. O corao precisa ser livre. Se fizsseis da amizade um preceito, 
um mistrio, um rito, uma cerimnia,
milhares de bonzos, pregando e escrevendo suas tolices, cobririam esse sentimento de ridculo. No deveis exp-lo a semelhante profanao.

Mas como procedereis em relao aos vossos inimigos? Vinte vezes recomenda Cong- fu-tseu que os amemos. No vos parece um pouco difcil?

C.

Amar os prprios inimigos? Se  to comum!

C. S.

Como o entendeis?

C.

Como  de mister, creio; Fiz o aprendizado da guerra sob o prncipe de Dcon( 19) contra o prncipe de Vis Brunck. Quando um inimigo era ferido e caa em nossas 
mos; tratvamo-lo como se fosse nosso irmo. Muitas vezes demos o prprio leito a inimigos feridos e prisioneiros, dormindo-lhes ao p sobre peles de tigre estendidas 
no cho. Servamo-los ns mesmos. Que mais querereis? Que os amssemos como se ama s amantes?

C. S.

Muito me edifica tudo o que dissestes, e desejaria que todas as naes vos compreendessem. Porque me afirmam haver povos assaz impertinentes para dizer que ns no 
conhecemos a verdadeira virtude, que nossas boas aes no passam de pecados esplndidos, que necessitamos das lies de seus talapes para que nos ensinem bons 
princpios. Coitados! Mal aprenderam a ler e escrever e j querem ensinar aos prprios mestres!

Sexto dilogo

C. S.

No vos repetirei todos os lugares comuns que h cinco ou seis mil anos se repisam entre ns acerca de todas as virtudes. H virtudes que no o so seno para ns 
mesmos, como a prudncia para guiar a alma, a temperana para governar o corpo - meros preceitos de poltica e higiene. Verdadeiras virtudes so as virtudes teis 
 sociedade: fidelidade, magnanimidade, beneficncia, tolerncia, etc. Graas aos cus no h av entre ns que no ensine aos netos todas essas virtudes. Elas constituem 
o cimento da nossa juventude, na cidade como na aldeia. H contudo uma grande virtude que comea a ser esquecida, o que  deplorvel.

C.

Qual ? Vamos, dizei-me, eu tomarei a peito realent-la.

C. S.

A hospitalidade. Essa virtude to social, esse sagrado liame entre os homens, que comea a relaxar-se desde que temos tavernas. Ao que dizem, veio-nos essa perniciosa 
instituio de certos selvagens do Ocidente. Parece que esses miserveis no tm casas para acolher os viajores. Que prazer receber na grande cidade de Lou, na linda 
praa de Honch, na casa de Qui, um generoso estrangeiro recm chegado de Samarcande, para quem me tornaria de ento em diante um homem sagrado e a quem todas as 
leis divinas e humanas - obrigariam a receber-me em sua casa quando eu viajasse pela Tartria e a ser meu amigo ntimo!

Os brbaros de que vos falava s recebem os forasteiros quando pagos, e ainda assim em achavascados cochicholos. Vendem caro esse acolho miservel. Apesar de tudo 
ouo dizer que essa pobre gente se presume superior a ns e se vangloria de ter moral mais pura. Querem que seus pregadores falem melhor que Cong- fu-tseu. Enfim 
pretendem ensinar-nos justia por venderem mau vinho nas estradas reais, suas mulheres sarem como loucas pelas ruas e danarem enquanto as nossas cultivam bichos 
de seda.

C.

Acho plausvel a hospitalidade e pratico-a com prazer. Mas receio o abuso. Existem, nas cercanias do grande Tibete, povos que vivem pessimamente alojados, amantes 
de andejar, que sem motivo algum
seriam capazes de palmilhar o mundo de ponta a ponta. Entanto, se fordes ao grande Tibete desfrutar entre eles do direito da hospitalidade, no vos daro cama nem 
comida. Coisas tais podem fazer desgostar da polidez.

C. S.

O mal  pequeno e fcil de remediar, no se recebendo seno pessoas bem recomendadas. No h virtude que no oferea seus riscos. Por isso mesmo  belo abra-las.

Quo santo e sbio  o nosso Cong- fu-tseu! No h virtude que no inspire. Em suas sentenas est a felicidade dos homens. Eis uma que me vem  memria - a qinquagsima 
terceira:

Recompensai os benefcios com benefcios e jamais vos vingueis das injrias.

Qual a mxima, qual a lei dos povos do Ocidente comparvel a moral to pura? Em quantos passos preceitua Cong- fu-tseu a humildade! Se os homens praticassem esta 
virtude jamais haveria querelas sobre a terra.

C.

Li tudo o que escreveram Cong- fu-tseu e os rabes dos sculos passados a respeito da humildade. Mas ningum me parece t-la definido com exatido. Talvez seja pouca 
humildade atrever-me a increp-los, mas tenho pelo menos a humildade de confessar no os haver compreendido. Dizei-me, que pensais dessa virtude?

C. S.

Obedecer-vos-ei humildemente. Reputo a humildade a modstia da alma, porque a modstia exterior no passa de civilidade. Ser humilde no  negar a si prprio uma 
superioridade que se possa ter adquirido sobre outrem. Um bom mdico no pode deixar de reconhecer saber mais que seu cliente em delrio. Fora  que um professor 
de astronomia admita ser mais ciente que seus discpulos. No podendo neg-lo, no deve todavia presumir-se. Humildade no  abjeo:  corretivo do amor prprio, 
como a modstia o  do orgulho.

C.

. Pois bem!  no exerccio de todas essas virtudes e no culto de um Deus simples e universal que quero viver, longe dos delrios dos sofistas e das iluses dos falsos 
profetas. No trono, o amor ao prximo ser minha virtude, o amor a Deus minha religio. Desprezarei o deus Fo e Lao Tseu e Vichn, que tantas vezes se encarnou entre 
os hindus, e Samonocodom, que baixou do cu para fazer de escaravelho entre os siameses, e os camis, vindos da lua ao Japo.

Desgraado do povo suficientemente cretino e brbaro para pensar existir um Deus exclusivamente para o recanto do mundo em que habita!  uma blasfmia. Se a luz 
do sol alumia todos os olhos, no iluminaria a luz de Deus mais que uma msera nao num canto do globo! Que blasfmia! Que dislate! A Divindade fala ao corao 
de todos os homens, e de extremo a extremo do mundo devem uni-los os laos da caridade.

C. S.

O sbio filho o rei de Lou! Falastes como que inspirado pelo prprio Chang- ti. Sereis um prncipe digno. Fui vosso mestre, agora sou vosso discpulo.

CATECISMO DO JAPONS (20) Hindu

 verdade que antigamente os japoneses no sabiam cozinhar, que haviam entregue seu reino ao grande lama, que o grande lama decidia soberanamente do que deveis 
comer e beber e de tempos em tempos vos enviava um pequeno lama a fim de cobrar tributos, pagando-vos com um sinal de proteo feito com os dois primeiros dedos 
e o polegar?

Japons

Ai! Nada mais verdadeiro. Todos os cargos de canusi( 21) - os grandes cozinheiros da nossa ilha conferia-os o lama, e no certamente por amor de Deus. Alm disso 
todas as famlias seculares pagavam
uma ona de prata por ano a esse grande cozinheiro do Tibete. Em paga dava-nos minguados pratos de horrvel paladar chamados sobejos. E quando lhe dava na veneta 
alguma nova fantasia, como declarar guerra aos povos do Tangate, escorchava-nos com subsdios suplementares. Muitas vezes nos queixamos, porm baldamente, quando 
no nos fazia pagar mais ainda. Por fim o amor, que tudo resolve maravilhosamente, libertou-nos dessa servido. Um de nossos imperadores desaveio-se com o grande 
lama por causa. de uma mulher. Mas devo confessar que quem mais nos valeram nessa questo foram os nossos canusi, tambm chamados paiscospie. A eles devemos a libertao.

Eis o que se deu. O grande lama tinha uma mania engraada: julgava sempre ter razo. Uma vez ou outra, pelo menos, queriam os nossos canusi t-la tambm. O grande 
lama achou absurda tamanha pretenso. Nossos canusi no arredaram p e romperam definitivamente com ele.

Hindu

E de ento em diante vivestes sem dvida felizes e tranqilos?

Japons

No inteiramente. Fomos perseguidos, dilacerados, devorados durante perto de dois sculos. Em vo pleiteavam nossos canusi ter razo. Somente h cem anos so razoveis. 
Tambm, desde ento podemos orgulhosamente considerar-nos uma das naes mais felizes da terra.

Hindu

Como podeis ser felizes se - a crer no que me disseram - vosso imprio se acha dilacerado por doze faces de cozinha? No mnimo tereis doze guerras civis por ano.

Japons

Por que? Ser que por termos doze chefes de cozinha, cada qual com uma receita diferente, deveremos matar-nos em vez de jantar? Pelo contrrio, comeremos todos s 
mil maravilhas, cada um do cozinheiro que mais lhe agradar.

Hindu

De fato gostos no se devem discutir. A histria, porm,  que ningum se compenetra disso. Discutem, e da discusso s do cabo  um passo.

Japons

Depois de muito discutirmos, vendo que com isso s tnhamos que perder, acabamos optando tolerar-nos mutuamente. Era, no h dvida, o melhor partido que nos restava 
tomar.

Hindu

Podereis dizer-me quais so os chefes de cozinha que partilham a vossa nao na arte de beber e comer?

Japons

Primeiramente h os breuseh, que em caso algum vos dariam morcela ou lardo. Preconizam as fontes puras da cozinha do tempo do ona. Prefeririam morrer a mordiscar 
um frango. Quanto ao mais, exmios calculadores, e fosse o caso de dividir uma ona de prata entre eles e os onze outros cozinheiros, aambarcariam logo a metade, 
deixando o resto para os que melhor soubessem contar.

Hindu

Presumo no costumais cear com gente to esdrxula?

Japons

Claro. Em seguida vm os pispatas, que em determinados dias da semana e em boa parte do ano prefeririam cem vezes comer rodelas de rodovalhos, trutas, linguados, 
salmes, esturjes, a saborear uma
fritada de vitela que lhes ficaria por um nada. Quanto a ns outros canusi, somos devotos apreciadores de carne de vaca e de certa pastelaria que em japons se diz 
pudim. Toda gente convm em que os nossos cozinheiros sejam muito mais hbeis que os dos pispatas. Ningum melhor que ns sabe preparar o garum dos romanos, as cebolas 
do antigo Egito, a pasta de gafanhoto dos primeiros rabes, a carne de cavalo dos trtaros. Sempre h o que aprender nos livros dos canusi, comumente chamados paiscospie.

Escuso-me de falar dos que comem a Teluro, assim como dos adeptos do regime de Vicalno, dos batistandos e que tais. Os quekars, porm, merecem ateno particular. 
So os nicos convivas que nunca vi se emborracharem nem praguejarem. Dificlimos de enganar, tambm nunca enganam ningum. Parece que a lei que manda amar o prximo 
como a si mesmo foi feita especialmente para eles. Porque, verdade se diga, como pode um japons dizer amar o prximo como a si prprio se por uma bagatela mete-lhe 
uma bala de chumbo na cabea ou decapita-o com um cris de quatro dedos de largo? Quando ele prprio vive em constante risco de ser degolado ou engolir balas de chumbo? 
Com mais propriedade se dir que ele odeia o prximo como a si mesmo. Os quekars nunca tiveram desses furores. Dizem eles serem os homens efmeros vasos de argila 
e que no vale a pena se despedaarem deliberadamente uns contra os outros.

Confesso que se no fosse canusi no me desagradaria ser quekar. Fora  reconhecer que no h meio de brigar com cozinheiros to pacficos. H outros, em nmero 
incontvel, a que chamamos diestas. Do os diestas de comer a toda gente indiferentemente e em sua casa sois livre de comer o que vos der na lngua - recheado, lardeado, 
sem recheio, sem lardo, com ovos, com leo; perdiz, salmo, vinho palhete, vinho tinto, tudo lhes  indiferente. Contanto que faais alguma orao a Deus antes ou 
aps o jantar, ou simplesmente antes do almoo, e sejais honrado, de bom grado riro convosco  custa do grande lama, de Vicalno, de Memno e o mais que segue. Felizmente 
reconhecem que nossos canusi so doutssimos em matria culinria, e sobretudo nunca falam em cercear nossas rendas. Assim, vivemos na mais ednica harmonia.

Hindu

Mas a final deve haver uma cozinha predominante, a cozinha do rei.

Japons

Confesso-o. Mas naturalmente depois de seus gordos banquetes o rei est derretendo de bom humor e no pe embargos  digesto de ningum.

Hindu

E se algum cabea dura encasquetar de comer no nariz do rei salsichas que lhe repugnem? Se se reunirem armados de grelhas quatro ou cinco mil desses indivduos para 
cozer suas salsichas? Se insultarem as pessoas avessas e salsichas?

Japons

Nesse caso ser preciso puni-los como bbedos que perturbam o repouso dos cidados. Previmos o perigo. S os que comem  real so contemplados com as dignidades 
do estado. Todos os outros podem comer como lhes ditar a fantasia, porm so excludos dos cargos. Soberanamente interditos e punidos sem remisso so os tumultos 
 mesa. Atalha-se cuidadosamente toda discusso, consoante o preceito do grande cozinheiro japons Sufi Raho Cus Flac( 22), que escreveu na lngua sagrada:

Natis in usum laetitae scyphis pugnare Thracum est...

O que quer dizer: O jantar foi feito para gudio recatado e mundo, e no se devem atirar copos  cabea.

Com essas mximas vivemos felizmente em nossa terra. A liberdade individual roborou-se sob os nossos tecosema. Cresce nossa riqueza. Possumos duzentos juncos de 
linha, e constitumos o terror dos nossos vizinhos.

Hindu

Por que motivo ento o bom versificador Recina( 23), filho do poeta indiano do mesmo nome, to delicado, to exato, to harmonioso, to eloqente, disse em uma obra 
didtica rimada intitulada A Graa (no As Graas):

O Japo, onde brilharam tantas luzes, hoje  um triste acervo de loucas vises - ?

Japons

O prprio Recina de que me falais  um grande visionrio. Ignorar esse msero hindu que fomos ns
quem lhe ensinamos o que  a luz? Que se na ndia conhecem a rota dos planetas, a ns o devem? Que fomos ns quem ensinamos aos homens as leis primordiais da natureza 
e o clculo do infinito. Que, se  preciso descer a coisas mais triviais, conosco aprenderam os hindus a construir juncos segundo propores matemticas? Que nos 
devem at os borzeguins chamados meias do ofcio com que cobrem as pernas? Seria possvel que tendo inventado tantas coisas admirveis ou teis no fssemos ns 
mais que loucos, e que um homem que escreveu em versos os desvairos de outrem fosse o nico sbio? Deixe-nos com a nossa cozinha, e se quiser que faa versos sobre 
assuntos mais poticos.

Hindu

Que quereis. Ele est intoxicado dos preconceitos de sua terra, de seu partido e dos seus prprios.

Japons

Arre! Quanto preconceito!

CATECISMO DO PROCO Arston

Ento, caro Tetimo, ides ser proco no interior?

Tetimo

 verdade. Deram-me uma paroquiazinha, mas prefiro-a a uma grande. Minha inteligncia e atividade so restritas. No poderia, por certo, dirigir setenta mil almas, 
pois s tenho uma. Admirou-me sempre a confiana dos que pem ombros  empresa de manobrar o leme desses imensos distritos. A mim me falecem foras para me abalanar 
a tanto. Um rebanho muito grande me amedronta, conquanto possa prestar algum benefcio a um pequeno. Estudei suficientemente jurisprudncia para impedir, tanto quanto 
me for possvel, que meus paroquianos se arruinem em demandas. Sei de medicina o bastante para prescrever-lhes remdios simples quando carem doentes. Conheo de 
agricultura o quanto basta para dar-lhes l uma vez ou outra um conselho til. O senhor do lugar e sua esposa so pessoas honradas, que
me ajudaro a praticar o bem. Espero ser feliz e felizes fazer os meus paroquianos.

Arston

No sentis no ter uma esposa Seria um grande consolo. Como seria agradvel encontrardes no lar, aps haver pregado, cantado, confessado, comungado, batizado, enterrado, 
uma mulherzinha doce e virtuosa, que cuidasse de vossa roupa e de vossa pessoa, que vos desagastasse na sade e vos assistisse na doena, que vos brindasse com bonitos 
filhos cuja boa educao aproveitaria ao estado! Lamento-vos, a vs que servis aos homens, de vos ver privado de to necessrio lenitivo.

Tetimo

A igreja grega incita os clrigos ao casamento. O mesmo faz a igreja anglicana e os protestantes. Diversamente pensa a igreja latina, e foroso  que me submeta. 
Talvez hoje, que o esprito filosfico realizou to notveis progressos, um concilio institusse leis mais consoantes  humanidade que o conclio de Trento. Nesse 
em meio, porm, devo conformar-me s leis vigentes.  custoso, bem o sei, mas tanta gente melhor que eu a tanto se resignou que no devo murmurar.

Arston

Sbio sois e sbia  a vossa eloquncia. Como contais pregar aos camponeses?

Tetimo

Como pregaria a reis. Falar-lhes-ei a todo instante de moral e jamais de controvrsias. Defende-me Deus aprofundar a graa concomitante, a graa eficaz a que se 
resiste, a suficiente que no basta. Veda-me inquirir se tinham corpo os anjos que comeram com Abrao e L, ou se fingiram comer. H mil coisas que meu auditrio 
no entenderia, e eu to pouco. Diligenciarei fazer gente de bem e igualmente s-lo. Mas no farei telogos, e se-lo-ei o menos possvel.

Arston

Oh que excelente cura! Hei de comprar uma casa de campo na vossa parquia. Que pensais da confisso?

Tetimo

A confisso  um timo freio contra os crimes, que nos legou a mais remota antigidade. Era costume, outrora, confessar-se na celebrao de todos os mistrios. Imitamos 
e santificamos esta sbia usana. A confisso move os coraes ulcerados de dio a perdoar e os ladres  devoluo do furto. Tem suas inconvenincias: h muitos 
confessores indiscretos, particularmente entre os monges, que no raro ensinam s moas mais indecncias que todos os rapazes de uma aldeia. Nada de pormenores na 
confisso. No se trata de interrogatrio judicial, seno do reconhecimento das prprias faltas perante Deus, feito por um pecador nas mos de outro pecador, que 
de seu turno tambm se acusar. No se faz esse desabafo salutar para satisfazer a curiosidade de ningum.

Arston

E a excomunho? Us-la-eis?

Tetimo

No. H rituais em que se excomungam as bailarinas, os feiticeiros e os comediantes. No precisarei proibir a entrada  igreja s bailarinas, pois nunca a freqentam. 
No excomungarei os feiticeiros, pois no os h. Quanto aos comediantes, como os pensiona o rei e autoriza-os o magistrado, abster-me-ei de os difamar. At vos confesso, 
como a amigo, que muito aprecio a comdia. quando no vai de encontro aos costumes. Nutro verdadeira paixo a O Misantropo, Atlia e outras peas que me parecem 
da escola da virtude e do decoro. O senhor da minha aldeia faz representar em seu castelo peas dessa natureza por jovens de talento. Tais espetculos inspiram a 
virtude em consrcio com o prazer. Educam o gosto, ensinam a bem falar e bem pronunciar. No vejo nisso seno uma recreao inocente e at muito til. Conto, para 
ilustrar-me, assistir a esses espetculos. Fa-lo-ei todavia em camarote fechado, para no escandalizar os simples.

Arston

Quanto mais me revelais vossos sentimentos, mais desejo tornar-me vosso paroquiano. Uma coisa preocupa-me: como fareis para evitar que os campnios se embriaguem 
nos dias de festa?  essa a
solenidade com que as celebram. Haveis de v-los prostrados pelo lcool, cabea pensa, mos descadas, estrouvinhados, reduzidos a estado mais vil que o dos brutos, 
reconduzidos titubeantes para casa pelas esposas desfeitas em pranto, incapazes de enfrentar o trabalho no dia seguinte, muitas vezes doentes e embrutecidos para 
o resto da existncia. Ve-los-eis, enfunados pelo vinho, travar rixas sangrentas, atarracarem-se como feras, e no raro desfecharem em morte estas cenas que cobrem 
de oprbrio a espcie humana. Perde o estado mais sdito em festas do que em batalhas. Como atalhareis em vossa parquia to execrando abuso?

Tetimo

Meu partido est tomado. Consentirei, instarei at que cultivem seus campos nos dias de festa, aps o servio divino, que celebrarei ao alvorecer. O cio do feriado 
 que os leva  taverna. No h cabida, nos dias consagrados ao trabalho, para a devassido e o assassnio. O trabalho moderado  propiciador de sade do corpo e 
da alma. Demais, necessita-o o estado. Suponhamos pessimistamente cinco milhes de homens cujo trabalho dirio renda dez mil ris por indivduo. Ao cabo de um ano, 
cinco milhes de homens inteis durante trinta dias sero trinta vezes cinco milhes de notas de dez mil ris perdidas pelo estado em mo de obra. Ora, claro  que 
Deus jamais preceituou semelhantes desperdcios e borracheiras.

Arston

Assim conciliareis a religio e o trabalho. Um e outro foram prescritos por Deus. Servireis a Deus e ao prximo. Mas que partido tomareis em face das disputas eclesisticas?

Tetimo

Nenhum. Como controverter a virtude, se a virtude provm de Deus? Discutir, s as opinies dos homens.

Arston

Oh excelente proco! Sapientissimo proco!

CERTO, CERTEZA

Que idade tem vosso amigo Cristvo? Vinte e oito anos. Vi sua certido de casamento e de batismo, conheo-o desde criana. Tem vinte e oito anos, tenho certeza, 
estou certo.

Mal acabo de ouvir a resposta desse homem to seguro do que diz e de vinte outros que o corroboram, venho a saber que, por motivos secretos e singular engenho, se 
antedatou a certido de batismo de Cristvo. Aqueles com quem falei nada sabem ainda. No entanto, sempre tiveram certeza do que no .

Se perguntsseis a todos os homens antes de Coprnico: - O sol levantou-se hoje? O sol se ps? - Temos absoluta certeza - responder-vos-iam  uma Tinham certeza, 
e no entanto estavam errados. Sortilgios, adivinhaes, obsesses foram durante longo tempo as coisas mais certas do mundo aos olhos de todos os povos. Quanta gente 
presa dessas iluses no estava certa do que presumia ver! Hoje acha-se menos em voga essa certeza.

Vem visitar-me um jovem estudante de geometria. Principiante, ainda se acha s voltas com a definio dos tringulos.

- No  certo - pergunto-lhe - que os trs ngulos de um tringulo so iguais a dois ngulos retos? - No s no tenho certeza - responde-me - como nem sequer compreendo 
claramente essa proposio.

Demonstro-lha. Certifica-se, e para o resto da vida. Eis a uma certeza muito diferente das anteriores. Aquelas no eram mais que probabilidades que, examinadas, 
revelaram-se erros. A certeza matemtica, porm,  imutvel e eterna.

Existo. Penso. Sinto. Ser isso to certo quanto uma verdade geomtrica? Sim. Por que? Porque as verdades se provam pelo princpio de que nada pode ser e no ser 
ao mesmo tempo. No Posso existir e simultaneamente no existir, sentir e no sentir. Um tringulo no pode ter cento e oitenta graus - a soma de dois ngulos retos 
- e ao mesmo tempo no os ter.

De mesmo valor so pois a certeza fsica de que existo, de que sinto e a certeza matemtica, embora de gneros diversos.

O mesmo no acontece com a certeza que se funda em aparncias ou testemunhos unnimes dos homens.
- Ora essa! Ento no estais certo de que Pequim existe? No tendes em casa estofos de Pequim! Indivduos dos mais diversos pases e opinies, que escreveram violentamente 
uns contra os outros pregando a verdade em Pequim, no vos asseveraram a existncia dessa cidade?

- Acho muitssimo provvel ter existido tal cidade. Mas no apostaria a vida em como exista, se bem no hesite em apost-la em como os trs ngulos de um tringulo 
perfazem dois retos.

Estampou-se no Dictionnaire Encyclopdique uma coisa jovialssima. Sustenta-se l que, se mo dissesse toda Paris, eu deveria estar to seguro, to certo de que o 
marechal de Saxe ressuscitou, como o estou de que ele venceu a batalha de Fontenoy, quando toda Paris mo assevera. O raciocnio  admirvel: Creio em Paris quando 
toda ela me diz coisa moralmente possvel; portanto no devo cre-la quando me diz coisa moral e fisicamente impossvel.

Parece que o autor queria rir, e que o outro autor que se extasia ao fim desse artigo escrito contra si prprio tambm o queria.

CU DOS ANTIGOS (O)

Se um bicho da seda desse o nome de cu ao frouxel que lhe envolve o casulo, no raciocinaria pior que os antigos chamando cu  atmosfera, que , como muito bem 
diz o Sr. de Fontenelle em seus Mondes, o coto do nosso casulo.

Os vapores que se exalam dos mares e do solo e formam as nuvens, os meteoros e os troves, foram a princpio tomados pela morada dos deuses. Em Homero os deuses 
sempre descem em nuvens de ouro. Vem da ainda hoje representarem-nos os pintores sentados em uma nuvem. Mas como era justo estivesse o senhor dos deuses mais a 
vontade que os outros, deram-lhe uma guia por veculo, por ser a ave que mais alto voa.

Vendo os senhores das cidades morarem em cidadelas eretas nas assomadas das montanhas, julgaram os antigos gregos que os deuses tambm. deviam ter uma cidadela, 
e colocaram-na na Tesslia, no monte Olimpo, cujo vrtice no raro se amortalha de nuvens De sorte que seu palcio se achava no mesmo nvel do cu.

Estrelas e planetas, que parecem engastados na abbada azul da atmosfera, foram transformados em outras tantas moradas de deuses. Sete dentre estes tiveram cada 
um seu planeta. Os outros alojaram-se onde melhor puderam. Em sala a que conduzia a via lctea reunia-se o conselho geral dos deuses: necessrio era que tivessem 
seu congresso no ar, j que os homens tinham seus paos municipais na terra.

Quando os tits, espcie de animais entre os deuses e os homens, declararam uma guerra justssima aos deuses em vindicao de sua herana paterna - sendo como eram 
filhos do Cu e da Terra - no tiveram mais que empilhar duas ou trs montanhas umas sobre outras para se tornarem senhores do cu e
do castelo do Olimpo. Neve foret terris securior arduus aether, affectasse ferunt regnum coeleste gigantes, altaque congestos struxisse ad sidera montes.

Essa fsica de crianas e de velhos era antiqussima. Contudo  muito provvel tivessem os caldeus idias to ss quanto ns do que se chama o cu. Colocavam eles 
o Sol no centro do nosso mundo planetrio, em distncia da Terra aproximadamente a mesma reconhecida hoje. Em torno do Sol faziam girar a Terra e todos os planetas, 
ensina-nos Aristarco de Samos.  o verdadeiro sistema do universo, posteriormente reeditado por Coprnico. Os filsofos, porm, guardavam o segredo para si, a fim 
de serem mais respeitados pelos reis e pelo povo, ou antes, para no serem perseguidos.

 to familiar aos homens a linguagem do erro que ainda chamamos cu aos vapores e ao espao entre a Terra e a Lua. Dizemos subir ao cu, como dizemos que o Sol 
gira, conquanto saibamos que no  assim. Possivelmente, para habitantes da Lua, ns  que somos o cu. Cada planeta coloca o seu cu no planeta vizinho.

Se se perguntasse a Homero para que cu tinha ido a alma de Sarpdon, onde estava a de Hrcules, pr-se-ia o grande poeta em calas pardas. Certamente responderia 
com versos harmoniosos.

Como saber se a alma area de Hrcules se acharia mais a vontade em Vnus ou Saturno que na Terra? Ou estaria no Sol?  de crer que no estivesse muito a vontade 
nessa fornalha. Finalmente, que entenderiam os antigos por o cu? Ignoravam o que fosse. Sempre disseram o cu e a terra.  como se dissessem o infinito e um tomo. 
Propriamente falando no existe cu. O que h  uma quantidade prodigiosa de globos girando no vazio do espao, um dos quais  a Terra.

Criam os antigos que ir aos cus era subir. A verdade, porm,  que no se sobe de um astro a outro. Esto os corpos celestes tanto abaixo como acima do nosso horizonte. 
Assim, supondo que, tendo vindo a Pafos, Vnus regressasse a seu planeta quando este se houvesse posto, no subiria em relao ao nosso horizonte: pelo contrrio, 
desceria, e nesse caso deveria dizer-se descer ao cu. Porm os antigos no alcanavam tais sutilezas. Tinham noes vagas, incertas, contraditrias sobre tudo que 
concernia , fsica. Escreveram-se volumes de lgua e meia a fim de saber o que pensavam acerca de um sem nmero de questes que tais. Bastariam duas palavras: no 
pensavam.

Sempre  bom excetuar alguns sbios Mas vieram mais tarde. Poucos manifestaram seus pensamentos, e foi o quanto bastou para que os charlates os mandassem para o 
cu pelo caminho mais curto

Pretendeu um escritor, chamado, creio; Pluche, promover Moiss a grande fsico. J antes outro o conciliara com Descartes e dera  estampa o Cartesius Mosaizans. 
A dar-lhe ouvidos foi Moiss quem primeiro concebeu os turbilhes e a matria sutil.  no entanto por de mais sabido que Deus, fazendo Moiss um grande legislador, 
um grande profeta, nem sequer lhe passou pela veneta faz-lo professor de fsica. Moiss ensinou aos judeus qual era seu dever, mas no lhes disse palavra de filosofia. 
Calmet, que compilou s pazadas e sem nunca raciocinar, fala de sistema dos hebreus. Porm esse povo grosseiro
nunca teve sistema algum. Nem sequer possuam escola de geometria. O termo era grego para eles. Sua cincia era o ofcio de corretor e a usura.

Deparam-se em seus livros algumas idias obscuras, incoerentes, dignas em tudo por tudo de um povo brbaro, sobre a estrutura do cu. Seu primeiro cu era o ar. 
O firmamento, slido e de gelo, sustinha as guas superiores, que ao tempo do dilvio vazaram desse reservatrio por portas, esclusas e cataratas.

Acima do firmamento ou das guas superiores estava o terceiro cu ou empreo, para onde foi arrebatado S. Paulo. Formava o firmamento uma espcie de meia abbada 
continente da Terra. O Sol no girava em torno da Terra porque sequer concebiam que a terra fosse redonda. Chegando ao ocidente, voltava ao oriente por caminho desconhecido. 
E se no se via era em virtude de que, como disse o baro de Foeneste, desandava de noite.

Todas essas fantasias, adotaram-nas os hebreus dos outros povos. Considerava o cu a maioria das naes, tirante a escola dos caldeus, como um slido. A Terra, fixa 
e imvel, era mais longa um grande tero de oriente a ocidente que de meio dia a norte. Da as expresses longitude e latitude, por ns perfilhadas. Claro que, desta 
forma, era impossvel haver antpodas. Sto. Agostinho trata a idia de antpodas de absurdo, e diz expressamente Lactncio: "Haver indivduos to estpidos a ponto 
de crerem que possa haver homens de cabea para baixo?"

Pergunta S. Crisstomo em sua dcima quarta homilia: "Onde esto os que pretendem que os cus sejam imveis e de forma circular ?"

Diz ainda Lactncio no livro terceiro das Instituies: "Poderia demonstrar-vos com uma enfiada de argumentos que  impossvel que o cu circunde a Terra"

Que diga quanto quiser o autor do Espetculo da Natureza terem sido Lactncio e S. Crisstomo grandes filsofos. Responder-lhe-eis terem sido grandes santos e que 
para tanto no  indispensvel ser bom astrnomo. Acredit-los-eis no cu: mas fora  confessardes que ignorais em que ponto precisamente.

CHINA (DA)

Vamos  China a procura de terra, como se nos faltasse. Tecidos, como se de tecidos carecssemos. Certa erva para infundir n'gua, como se nossos climas no produzissem 
smplices. Em paga timbramos em querer converter os chineses. Zelo plausibilssimo. Mas nem por isso precisamos contestar sua antigidade e lanar-lhes a tacha de 
idlatras. Que direis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos Montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que so nobres feitos 
da noite para o dia, como os secretrios do rei, e os acusasse de idlatras por encontrar no castelo duas ou trs esttuas de condestveis a quem os Montmorency 
votassem profundo respeito?

Proferiu certa vez o famoso Wolf, catedrtico de matemticas na universidade de Halle, um magnfico discurso em louvor da filosofia, chinesa. Elogiou a essa milenria. 
estirpe de homens - diferentes de ns
pela barba, pelos olhos, pelo nariz, pelas orelhas e pelo raciocnio - o adorarem um Deus supremo e amarem a virtude Rendia essa justia aos imperadores da China, 
aos colao, aos tribunais, s letras. A justia que se rende aos bonzos  um pouco diferente.

Wolf atraa a Halle um milheiro de estudantes de todas as naes. Havia na mesma universidade um professor de teologia - atendia ao nome de Lange - que no atraa 
ningum. Este homem, desesperado por gelar de frio sozinho no locutrio, resolveu perder o professor de matemticas. Macaqueando os de sua igualha, acusou-o de no 
crer em Deus.

Pretendiam alguns escritores europeus que nunca haviam estado na China que o governo de Pequim era ateu. Wolf elogiara Pequim. Logo, Wolf era ateu. Melhores silogismos 
nunca souberam forjar a inveja e o dio. Corroborado por uma cabala e um protetor, achou o rei de Inglaterra conclusivo o argumento de Lange e props ao matemtico 
um dilema formal: deixar Halle em vinte e quatro horas ou ser pendurado - Como tinha e quisesse conservar a cabea no lugar, Wolf escolheu o primeiro alvitre. Sua 
retirada subtraiu ao rei duzentos ou trezentos mil escudos anuais, que era quanto fazia entrar no reino esse filsofo pela afluncia de discpulos.

Serve este exemplo para mostrar aos soberanos que nem sempre  conveniente dar ouvidos  calnia e sacrificar um grande homem  inveja de um imbecil.

Voltemos  China. Como  que nos atrevemos, ns, c do fim do Ocidente, a disputar encarniadamente e com torrentes de injrias por deslindar se houve ou no catorze 
prncipes na China antes do imperador Fo-hi, e se Fo-hi viveu a trs mil ou dois mil e novecentos anos antes da era vulgar? Engraadssimo que dois irlandeses se 
pusessem a brigar em Dublin por saber quem foi, no sculo XII, o possessor das terras que hoje me pertencem. No  evidente que deveriam deix-lo a mim, que tenho 
os arquivos em mos?

O mesmo, penso eu,  o caso dos primeiros imperadores da China: cumpre recorrer aos tribunais do pas

Agatanhai-vos quanto vos aprouver por amor dos catorze primeiros prncipes que reinaram antes de Fo-hi. No conseguiro provar vossos bate-bocas mais que j ento 
era a China densamente povoada e vivia sob o imprio da lei. Agora pergunto-vos: no supe prodigiosa antigidade uma nao sedimentada, com leis e prncipes? Pensai 
em quanto tempo  necessrio para que singular concurso de circunstncias leve a descobrir o ferro nas minas, se empregue na agricultura e se inventem as artes.

Os que fazem filhos a penadas imaginaram um clculo interessantssimo. Por uma suputao do arco da velha, d o jesuta Ptau  terra, duzentos e oitenta e cinco 
anos aps o dilvio, populao cem vezes maior do que no ousamos atribuir-lhe hoje. Menos cmicos no so os clculos dos Cumberland e Whiston. No tinham esses 
ingnuos seno que consultar os registros das nossas colnias na Amrica para se desencantarem. Ficariam sabendo quo pouco se multiplica o gnero humano, e que 
no raro diminui em vez de aumentar.

Deixemos, pois, ns que somos de ontem, ns descendentes dos celtas, ns que mal acabamos de surribar as florestas de nosso selvagem habitculo, deixemos os chineses 
e hindus desfrutarem em paz de
seu maravilhoso clima e de sua antigidade. Sobretudo demos de mo a essa histria de xingar de idlatras o imperador da China e o subabe do Dec.

No  preciso, todavia, ser fantico do mrito chins  verdade ser a constituio desse imprio a melhor do mundo, a nica fundada no poder paternal (o que no 
obsta que os mandarins no vivam a espancar os filhos), a nica na qual  punido o governador de provncia que ao deixar o cargo no seja aclamado pelo povo. A nica 
que instituiu prmios  virtude, de passo que em todas as outras naes as leis se limitam a castigar o crime. A nica que imps suas leis aos prprios vencedores, 
enquanto ns ainda vivemos sujeitos aos costumes dos borgndios, francos e godos que nos avassalaram. Deve-se reconhecer, todavia, ser o vulgacho governado por bonzos 
to canalha quanto o nosso. Que, como ns, no perdem ocasio de escorchar o estrangeiro Que nas cincias nos caranguejam a reboque com dois sculos de atraso. Que 
como a ns gafa-os sem conto de preconceitos ridculos. Que acreditam, como por muito tempo cremos, em talisms e na astrologia judiciria.

Confessemos ainda que ficaram queixicados ante o nosso termmetro, ante o costume de gelarmos licores com salitre e ante todas as experincias de Torricelli e Otto 
de Guericke, exatamente como o ficamos, quando presenciamos pela primeira vez a esses brincos da fsica. Que seus mdicos no curam melhor que os nossos as doenas 
mortais e que, tal qual como aqui, na China as molstias triviais so relegadas aos cuidados exclusivos da natureza. Nada disso impede, porm, que h quatro mil 
anos, quando sequer sabamos ler, j estivessem os chins de posse de todas as coisas essencialmente teis de que hoje fazemos alarde

CIRCUNCISO

Ao narrar o que lhe disseram os brbaros cujos pases viajou, Herdoto, como a maioria dos nossos viajores, no nos diz mais que tolices. No devemos dar-lhe crdito, 
igualmente, quando fala da aventura de Giges e Candolo, de rion montado num delfim, do orculo consultado para saber o que fazia Creso, o qual respondeu que ele 
estava cozendo uma tartaruga numa panela tampada, do cavalo de Dario que, tendo sido o primeiro em nitrir, proclamou seu dono rei, e de cem outras fbulas prprias 
para divertir crianas e ser compiladas por retricos. Quando, porm, fala do que viu, dos costumes dos povos que estudou, das, antigidades que submeteu a exame, 
a sim dirige-se a gente grande.

" Quero crer" - diz no livro Euterpe - "que os habitantes da Clchida sejam originrios do Egito. Julgo-o mais por mim mesmo que de outiva, porque verifiquei ser 
mais viva a recordao dos antigos egpcios na Clchida que no Egito a lembrana dos velhos costumes de Colchos.

" Pretendia esse povo praieiro do Ponto Euxino ser uma colnia fundada por Sesostris. Quanto a mim, j o conjeturava, no somente por serem adustos e terem os cabelos 
frisados, mas porque os povos da Clchida, Egito e Etipia so os nicos na terra que sempre praticaram a circunciso. Quanto aos fencios e aos habitantes da Palestina, 
confessam ter copiado tal prtica aos egpcios. Da mesma forma os srios, que hoje estanciam s abas do Termdon e da Partnia, e seus vizinhos mcrons reconhecem 
no haver muito tempo que se conformaram a esse costume egpcio.  esse at um dos principais atestados de sua ascendncia. egipcaca.
" Quanto  Etipia e ao Egito, como a circunciso  antiqussima tanto num como noutro, no sei qual dos dois tenha importado essa cerimnia. O mais provvel, contudo, 
 terem-na recebido os etopes dos egpcios. Assim como, contrariamente, desterraram os fencios o uso de circuncidar as crianas recm nascidas desde que se intensificou 
seu comrcio com os gregos."

 evidente, de acordo com esse passo de Herdoto, que muitos foram os povos que receberam a circunciso do Egito. Nenhum, porm, jamais pretendeu t-la importado 
dos judeus. A quem atribuir ento a origem desta prtica: a uma nao de que confessam hav-la perfilhado cinco ou seis outras, ou a uma nao muito menos poderosa, 
menos comerciante, menos guerreira, encafurnada num canto da Arbia Ptrea, que nunca comunicou a povo nenhum o mais insignificante de seus costumes?

Dizem os judeus ter sido outrora caritativamente acolhidos pelos egpcios. No  muito verossmil haver o povo nfimo imitado um uso do grande povo? No  natural 
terem os judeus adotado um ou outro costume de seus senhores?

Conta Clemente de Alexandria que, viajando o Egito, Pitgoras foi obrigado a deixar circuncidar-se para ser admitido em seus mistrios. Quer dizer que era absolutamente 
imprescindvel ser circunciso para ingressar no sacerdcio egpcio. Tal sacerdcio j existia quando Jos foi dar com os costados no pas das pirmides. Antiqussimo 
era o governo, e as cerimnias se observavam com a mais escrupulosa exatido.

Confessam os judeus ter permanecido duzentos e cinco anos no Egito. E dizem no haver praticado a circunciso nesse espao de tempo. Claro  por conseguinte que 
os egpcios no poderiam ter-lhes copiado essa prtica enquanto os tiveram como hspedes. Te-lo-iam feito posteriormente, depois de os judeus lhes haverem roubado 
todos os vasos que lhes tinham sido emprestados e se rasparem a sete ps para o deserto levando consigo o fruto do roubo, segundo seu prprio testemunho? Adotar 
um senhor o selo da religio de um escravo que o roubou e fincou p no mundo? No o admite a natureza humana.

Diz-se no livro de Josu que os judeus foram circuncidados nos desertos: "Eu vos livrei do que constitua o vosso oprbrio entre os egpcios". Ora, qual podia ser 
esse oprbrio para uma nao encravada entre a Fencia, Arbia e Egito, seno o que os tornava desprezveis aos olhos destes trs povos? Como livr-los desse oprbrio? 
Livrando-os de um pouco de prepcio. No  o sentido natural do trecho a cima citado?

Diz o Gnesis que Abrao foi circunciso. Mas Abrao esteve no Egito, que era havia muito reino florescente, governado por poderoso rei. Nada impede que nesse reino 
to antigo fosse a circunciso praticada desde muito tempo antes que se formasse a nao judaica. Demais a circunciso de Abrao foi um caso insulado. S depois 
de Josu foi que se vulgou entre seus psteros esse sacramento.

Ora, antes de Josu os israelitas aprenderam, como eles mesmos confessam, muitos costumes dos egpcios. Imitaram-nos em no poucos sacrifcios, cerimnias, como 
os jejuns s vsperas das festas de Isis, as ablues, o costume de rapar a cabea dos padres, o incenso, o candelabro, o sacrifcio da vaca rua, a purificao 
com hissopo, a abstinncia da carne de porco, a averso aos utenslios de cozinha dos estrangeiros, tudo atestando que o diminuto povo hebreu, mau grado sua antipatia 
 grande nao egpcia, retivera infinidade de usos de seus ex- senhores. O bode Hazazel, que enviavam ao deserto
carregado dos pecados do povo, era visvel imitao de uma prtica egpcia. Os prprios rabinos convm em que a palavra Hazazel no  hebraica. Nada obsta portanto 
que os hebreu hajam imitado os egpcios na circunciso, como o fizeram seus vizinhos rabes.

Nada de extraordinrio h em que Deus, que santificou o batismo, to antigo entre os asiticos, santificasse tambm a circunciso, no menos antiga entre os africanos. 
J dissemos ser senhor de conferir suas graas aos sinais que se dignar eleger.

Demais de tudo, desde que, sob Josu, os judeus foram circuncisos, mantiveram essa prtica at nossos dias. O mesmo fizeram os rabes. Os egpcios, porm, que a 
princpio circuncidavam os jovens de ambos os sexos, com o tempo deixaram de submeter as moas a tal operao, terminando por restringi-la aos sacerdotes, astrlogos 
e profetas.  o que nos ensinam Clemente de Alexandria e Orgenes. Efetivamente, nunca se ouviu dizer que os Tolemeus tivessem sido circuncidados.

Os autores latinos, que tratam os judeus com to profundo desprezo que lhes chamam curtas Apella, por deriso, credat Judaeus Appella, curti Judaei, no do eptetos 
tais aos egpcios. Hoje a circunciso  de regra no Egito, mas por outra razo: porque o mafomismo adotou a antiga circunciso da Arbia.

Foi essa circunciso rabe que passou  Etipia, onde ainda se circuncidam os jovens de ambos os sexos.

No h negar ser  primeira vista bem estranha a cerimnia da circunciso. Mas note-se que em todos os tempos os sacerdotes do Oriente se consagraram a suas divindades 
por marcas particulares. Entre os padres de Baco o sinal era uma folha de hera gravada a buril. Diz Luciano que os devotos da deusa Tais imprimiam sinais no pulso 
e pescoo. Os sacerdotes de Cibele faziam-se eunucos.

 muito provvel que os egpcios, que veneravam o instrumento da gerao e carregavam-lhe a imagem em suas procisses, tivessem a idia de oferecer a Isis e Osiris, 
deuses que presidiam a todos os fenmenos de reproduo, uma partcula do membro por que quiseram essas divindades que o gnero humano se perpetuasse. So os antigos 
costumes orientais to diferentes dos nossos que nada parecer extraordinrio a quem quer que tenha um pouco de leitura. Um parisiense fica admirado ao saber que 
os hotentotes cortam aos filhos um dos testculos. Os hotentotes ficariam admiradssimos se soubessem que os parisienses conservam os dois.

CONVULSES

Danou-se pelo ano de 1724 no cemitrio de Saint- Mdard. Deram-se no local um sem nmero de milagres, de que nos d amostra uma cano da duquesa de Maine:

Um engraxate  real, do p esquerdo aleijado, teve por graa especial ser do direito privado
Como  sabido, as convulses miraculosas continuaram at que foi posto um guarda no cemitrio. Em nome do rei veda-se entrar doravante a Deus neste lugar.

Os jesutas, como se sabe, j no podendo fazer de tais milagres desde que seu Xavier esgotara as graas da Companhia ressuscitando nove mortos contados a dedo, 
lembraram-se, para balanar o crdito dos jansenistas, de estampar uma imagem de Jesus Cristo vestido de jesuta. Como ainda  sabido, escreveu um burlo do partido 
jansenista em baixo da estampa:

Que jesutas manhosos! De medo que vos amssemos, estes monges engenhosos vos vestiram  sua imagem.

Os jansenistas, a fim de melhor provar que jamais Cristo poderia tomar o hbito de jesuta, puseram Paris de pernas para o ar e carrearam o mundo para sua banda. 
O conselheiro parlamentar Carr de Montgerou apresentou ao rei um relatrio in- 4 de todos esses milagres, atestados por milhares de testemunhas. Foi metido, como 
de direito, sob grades, onde se tratou de restabelecer-lhe o crebro pelo regime. Mas a verdade sobrepaira a todas as perseguies: os milagres se perpetuaram durante 
trinta anos a fio, sem soluo de continuidade. Chamava-se sror Rosa, sror Iluminada, sror Prometida, sror Confita: aoitavam-nas at o sangue, e no dia seguinte 
estavam como se nada houvesse acontecido. Vergastavam-lhe o estmago bem encouraado, bem estofado, sem sequer sentirem. Punham-nas ao fogo, o rosto emplastado de 
pomadas, e nada de queimar. Enfim, como todas as artes se aperfeioam, terminou-se por fincar-lhes espadas nas carnes e por crucific-las. Chegou-se at a crucificar 
um telogo famoso( 24), tudo para convencer o mundo do ridculo de certa bula, o que se poderia ter feito sem tanto custo. Nesse em meio jesutas e jansenistas uniram-se 
contra o Esprito dos leis, e contra... e contra... e contra ... e contra... E temos o ousio, depois de tudo isso, de escarnicar dos lapes, dos samoiedas e dos 
negros!

CORPO

Assim como no sabemos o que seja esprito, ignoramos o que seja corpo. Percebemo-lhe apenas propriedades. Mas que  o ente em que residem tais propriedades? Tudo 
 corpo, dizia Demcrito e Epicuro. No existem corpos, contravinham os discpulos de Znon de Elia.

Berkeley, bispo de Cloyne, foi o ltimo que, por cem sofismas capciosos, pretendeu provar que os corpos no existem. Eles no tm, disse, nem cor, nem odor, nem 
calor. Tudo isso est em vossas sensaes e no nos objetos. O Sr. Berkeley podia ter-se poupado ao trabalho de demonstrar semelhante verdade: conhecemo-la de sobejo. 
Mas da passa  extenso,  solidez, que so essncias do corpo, e
julga provar no haver extenso num retalho de pano verde porque em verdade o pano no  verde. A sensao do verde acha-se to somente em vs: por conseguinte a 
impresso de extenso no est tambm seno em vs. Aps destruir a extenso, conclui que a solidez cai consequentemente por si mesma, e que portanto nada existe 
alm das nossas idias. De sorte que, segundo esse doutor, dez mil homens trucidados por dez mil balas de canho no passam em suma de dez mil apreenses da nossa 
alma.

S mesmo o sr. bispo de Cloyne seria capaz de cometer tamanho ridculo. Presume demonstrar que no existe extenso porque com lunetas um corpo lhe parece quatro 
vezes maior que a olho desarmado, e quatro vezes menor com auxlio de outro vidro. Da concluir que, no podendo um corpo ter quatro, dezesseis e um s p de extenso 
ao mesmo tempo, tal extenso no existe. Logo nada existe. Bastava-lhe medi-lo e dizer: no importa o tamanho que me parea ter, este corpo tem tantos centmetros.

Muito fcil lhe seria ver que o caso da extenso e da solidez no  o mesmo dos sons, das cores, dos sabores e dos odores. Claro que estes so impresses subjetivas 
em ns excitadas pela configurao das partes. A extenso, porm, no  sensao. Se se consumir este lenho, deixarei de sentir calor. No sendo ferido o ar, no 
ouvirei. Estiole-se esta rosa e j no lhe sentirei o perfume. Independentemente de mim, entretanto, este lenho, este ar, esta rosa tm extenso.

Nem merece refutao o paradoxo de Berkeley. Cai a talho saber o que o levara a semelhante paradoxo. H muito tempo tive com ele algumas palestras. Disse-me que 
a origem de sua opinio era o no se poder conceber o que seja o sujeito da extenso. Efetivamente ele triunfa em seu livro quando pergunta a Hilas o que  esse 
sujeito, esse substrato, essa substncia. " o corpo estendido" - responde Hilas. Ento o bispo, sob o nome de Filonous, pe-se a escarnec-lo. E o pobre Filonous, 
percebendo ter dito que a extenso  sujeito da extenso, e que cometeu uma rata, fica atalhado e confessa nada compreender, que no existe corpo nem to pouco mundo 
material, que s existe o mundo intelectual. Bastava Hilas dizer a Filonous: Ns nada sabemos sobre a essncia desse sujeito, dessa substncia estendida, slida, 
divisvel, mvel, figurada, etc. No a conheo mais que o sujeito que pensa, que sente e que quer. Mas sua existncia  to inegvel como a deste, pois tem propriedades 
essenciais de que no h despoj-lo.

Somos como a maior parte das damas de Paris, que se regalam em rgios banquetes sem saber o que entra nos acepipes. Semelhantemente, desfrutamos dos.. corpos sem 
saber de que se compem. De que  feito o corpo? De partes, que por sua vez se resolvem em outras partes. Que so as ltimas partculas? Sempre corpos. Dividireis 
eternamente e jamais passareis disso.

Afinal um sutil filsofo, notando que um painel se compe de ingredientes de natureza diversa, e uma casa de materiais dos quais nenhum  casa, imaginou (de maneira 
um pouco outra) serem os corpos constitudos de infinidade de seres infinitamente pequenos que no so corpos - as mnadas. Tal sistema no deixa de possuir certa 
exeqibilidade, e se fosse revelado eu o creria at muito possvel. Todos esses entes nfimos seriam pontos matemticos, espcies de almas que no esperariam mais 
que uma capa para se vestirem: seria uma metempsicose contnua. Uma mnada estaria ora numa baleia, ora numa rvore, ora no corpo de um pelotiqueiro.  um sistema 
e tanto. Tenho-o no mesmo conceito que a declinao dos tomos, as formas substanciais, a graa verstil e os vampiros de dom Calmet.

CRISTIANISMO

Pesquisas histricas. - No poucos eruditos manifestaram sua surpresa em no se lhes deparar no historiador Jos o menor trao a respeito de Jesus Cristo. Porque 
todos so acordes hoje em que o breve trecho que lhe dedica o historiador fariseu em sua Histria foi interpolado. No entanto o pai de Jos devia ter sido testemunha 
de todos os milagres de Jesus. Jos era da casta sacerdotal, parente da rainha Mariana, esposa de Herodes. Esparrama-se nas mais ociosas minudncias sobre os mais 
corriqueiros atos desse prncipe, e contudo no diz palavra sobre a vida ou morte de Jesus. Demais esse historiador, que no encapa nenhuma das crueldades de Herodes, 
cala o morticnio de todas as crianas por ele ordenado atento  nova de que nascera um rei judeu. Conta o calendrio grego catorze mil crianas degoladas nessa 
ocasio.  o mais abominvel dos crimes de todos os soberanos. No tem smile na histria da civilizao. A acontecimento to singular quanto execrvel, entretanto, 
no faz a mais leve referncia o melhor escritor que em todos os tempos possuram os judeus, o nico prezado por gregos e romanos. To pouco regista ele o aparecimento 
da nova estrela que teria acendido no cu aps o nascimento do Redentor, fenmeno ruidoso que no devia escapar a um historiador esclarecido como Jos. Mantm silncio 
ainda sobre as trevas que,  morte do Salvador, com o sol a pino cobriram toda a terra por espao de trs horas, e sobre a grande quantidade de tmulos que ento 
se abriram e a multido dos justos ressurretos.

No cessam os eruditos de manifestar sua surpresa de ver que nenhum historiador romano regista semelhantes prodgios, consumados sob o reinado de Tibrio, aos olhos 
de uma guarnio e de um governador romano, que devia ter enviado ao imperador e ao senado relatrio circunstanciado do mais miraculoso evento que ouvidos humanos 
ouviram contar. A prpria Roma devia ter-se imerso durante trs horas em espessas trevas. Deviam assinalar tamanho prodgio os fastos de Roma e de todas as naes. 
Deus no quis fossem tais coisas divinas escritas por mos profanas.

Outras dificuldades empacham os eruditos na histria dos Evangelhos. Observam eles que em S. Mateus Jesus diz aos escribas e aos fariseus que sobre eles recairia 
todo o sangue inocente derramado na terra, desde Abel at Zacarias, filho de Baraque, por eles assassinado no templo. Ora, a histria dos hebreus no menciona, afirmam 
os eruditos, nenhum Zacarias morto no templo, nem antes nem depois do advento do Messias. O nico historiador a registar o fato  Jos, livro 4, captulo 19, ao 
falar do stio de Jerusalm. Da suspeitaram eles ter o Evangelho segundo S. Mateus sido escrito depois da tomada de Jerusalm por Tito. Mas todas as dvidas e objees 
dessa espcie se dirimem desde que se considere a infinita diverso que forosamente h de haver entre os livros divinamente inspirados e os livros dos homens. Aprouve 
a Deus envolver numa nuvem to respeitvel quanto obscura o seu nascimento, sua vida e sua morte. Em tudo diferem seus mtodos dos nossos.

Outro ponto que tem quebrado a cabea aos literatos  a diferena das duas genealogias de Cristo. S. Mateus d por pai a Jos, Jac, a Jac, Mat, a Mat, Eleazar. 
S. Lucas, ao contrrio, diz que Jos era filho de Heli, Heli de Matate, Matate de Lev, Lev de Jana, etc.

Engasga-os ainda a suposio de Jesus no ser filho de Jos, mas de Maria. Atalham-nos tambm certas dvidas quanto aos milagres do nosso Redentor, atentos os escritos 
de Sto. Agostinho, Sto. Hilrio e outros, que atriburam ao relato de tais milagres sentido mstico, alegrico. Exemplos: a figueira
amaldioada e secada para no dar frutos, quando no era tempo de figo. Os demnios enviados no corpo de porcos, num pas onde no havia porcos. A gua transformada 
em vinho ao fim de um repasto, quando os comensais j se achavam excitados. Todas essas crticas dos doutos, porm, confunde-as a f, que com isso no faz seno 
aviventar-se. Outro no  o escopo deste artigo seno rastear o fio histrico e dar uma idia tanto quanto possvel exata dos fatos sobre que ningum discute.

Primeiramente, Jesus nasceu sob a lei mosaica, segundo esta lei foi circuncidado, dela cumpriu todos os preceitos e celebrou todas as festas. S pregou moral. No 
revelou o mistrio da prpria encarnao nem disse aos judeus haver nascido de uma virgem. Recebeu a bno de Joo nas guas do rio Jordo, cerimnia a que muitos 
judeus se submetiam, conquanto ele prprio jamais tenha batizado ningum. No falou dos sete sacramentos - Humanamente no se colocou em nenhuma hierarquia eclesistica. 
Ocultou a seus contemporneos ser filho de Deus, eternamente gerado, consubstancial a Deus, e que o Esprito Santo procedia do Pai e do Filho. No disse que sua 
pessoa se compunha de duas naturezas e de duas vontades. Quis que esses grandes mistrios fossem revelados aos homens no decorrer dos tempos por aqueles que haviam 
de ser esclarecidos pelas luzes do Esprito Santo. Vivo, em nada se arredou da lei de seus pais. No mostrou aos homens mais que um justo grato a Deus, perseguido 
pelos invejosos e condenado  morte por magistrados prevenidos. Quis que sua Santa Igreja, por ele fundada, fizesse o resto.

Fala Jos no captulo 12 de sua Histria de uma seita de judeus rigoristas, recentemente fundada por um tal Judas galileu - "Eles desprezam" - diz - "os males terrenos, 
triunfando dos tormentos pela constncia. Preferem, pela glria, a morte  vida. Optaram sofrer ferro e fogo, deixar que lhes quebrassem os ossos a pronunciar a 
menor palavra contra seu legislador ou comer carnes vedadas".

O retrato parece quadrar aos judastas e no aos essnios. Palavras de Jos: "Judas foi autor de uma nova seita, de todo ponto diversa das trs outras - de saduceus, 
fariseus e essnios". A breve trecho: "So judeus de nacionalidade. Vivem unidos entre si, e consideram vcio a volpia". Denota o sentido natural da frase ser dos 
judastas que fala o autor.

Seja como for, conheceram-se esses judastas antes que os discpulos de Cristo constitussem partido considervel no mundo.

Os terapeutas eram uma sociedade diferente de essnios e judastas. Tiravam aos ginossofistas da ndia e aos bramas. "Anima-os" - atesta Flon - "um mpeto de amor 
celeste que os transporta ao entusiasmo dos bacantes e coribantes e guinda-os ao estado de contemplao a que aspiram. Esta seita nasceu em Alexandria, ento inada 
de judeus, e alastrou ferazmente pelo Egito".

Os discpulos de Joo Batista tambm proliferaram um pouco no Egito, mas principalmente na Sria e Arbia. Medraram outrossim na sia Menor. Dizem os Atos dos Apstolos 
(captulo 19) haver Paulo encontrado muitos deles em feso, aos quais indagou:

"- Recebestes o Esprito Santo - Nem sequer ouvimos falar que houvesse um Esprito Santo. - Que batismo recebestes?
- O batismo de Joo." Existiam, nos primeiros anos que se seguiram  morte de Cristo, sete sociedades ou seitas distintas entre os judeus: fariseus, saduceus, essnios, 
judastas, terapeutas, discpulos de Joo e discpulos de Cristo, cujo diminuto rebanho Deus conduzia a sendas desconhecidas da sabedoria humana.

Foram os fiis apelidados cristos em Antiquia, por beira do ano 60 da era vulgar. No imprio romano, como adiante veremos, foram conhecidos por outros nomes De 
primeiro no se distinguiam seno pela denominao de irmos, santos ou fiis. Deus, que baixara  terra a fim de ser exemplo de humildade e pobreza, dera assim 
toscos alicerces  sua igreja e guiara-a no mesmo estado de humilhao em que lhe aprouvera nascer. Foram os primeiros cristos homens obscuros, trabalhadores manuais. 
Diz o apstolo Paulo que ganhava a vida construindo tendas. S. Pedro ressuscitou a costureira Dorcas, que fazia os hbitos dos irmos. Os fiis reuniam-se em Jope, 
em casa de um curtidor de nome Simo, reza o captulo 9 dos Atos dos Apstolos.

Secretamente os fiis se infiltraram na Grcia, e de l alguns conseguiram transladar-se a Roma de contrabando com os judeus, a quem os romanos permitiam o funcionamento 
de uma sinagoga. No se lhes separaram logo. Observavam a circunciso e, como alhures j se advertiu, os quinze primeiros bispos de Jerusalm foram todos circuncidados.

Ao tomar consigo Timteo, que era filho de pai gentio, o apstolo Paulo circuncidou-o com as prprias mos no lugarejo de Listra. Tito, porm, outro discpulo seu, 
no se deixou circuncidar. Mantiveram-se os irmos discpulos de Cristo em unio com os judeus at que Paulo foi perseguido em Jerusalm por levar estrangeiros ao 
templo. Acusavam-no os judeus de querer substituir a lei mosaica por Jesus Cristo. Foi para expungir-se dessa acusao que o apstolo Jaques props ao apstolo Paulo 
fazer-se rapar a cabea e purificar-se no templo com quatro judeus. que haviam feito voto de se barbearem. "Tomai-os convosco" - disse-lhe Jaques (captulo 21, Atos 
dos Apstolos). - "Purificai-vos com eles, e que todos saibam ser falso o que de vs se diz e que continuais a observar a lei de Moiss".

Paulo foi criminado tambm de impiedade e heresia, e seu processo durou longo tempo. Evidencia-se porm das prprias acusaes contra ele assacadas que ele viera 
a Jerusalm para observar os ritos judaicos.

So palavras textuais de Paulo a Festo (captulo 25 dos Atos): "No pequei nem contra a lei judaica nem contra o templo".

Os apstolos anunciavam Cristo como judeu, observador da lei judaica, enviado de Deus para faz-la observar.

" A circunciso  til" - diz o apstolo Paulo (captulo 2, Epstolas aos Romanos) - "se observais a lei. Mas se a violais vossa circunciso torna-se em prepcio. 
Se o incircunciso observa a lei,  como se fosse circunciso. Verdadeiro judeu  o que o  interiormente".

Ao falar de Jesus em suas Epstolas, no revela esse apstolo o mistrio inefvel da consubstancialidade do Crucificado com Deus. "Por ele fomos salvos" - diz (captulo 
5, Epstolas aos
Romanos) "da clera de Deus - Pela graa concedida a um s homem - Jesus Cristo - derramou-se sobre ns o dom divino. Pelo pecado de um s homem, reinou a morte. 
Por um s homem - Jesus - os justos reinaro." E no captulo 8: "Ns, os herdeiros de Deus e os co-herdeiros de Cristo." No captulo 16: "A Deus, que  o sbio nico, 
honra e glria por Jesus Cristo. -. - Vs estais em Jesus, e Jesus est em Deus" (1a. Aos Corntios, cap. 3). E (ibd., cap. 15, v. 27): "A ele tudo est sujeito, 
que a ele Deus tudo sujeitou".

Teve-se certa dificuldade em explicar este lano da Epstola aos Filipinos: "Nada faais por glria v. Crede mutuamente pela humildade que os outros vos so superiores. 
Abrigai os mesmos sentimentos que Jesus, que, achando-se em misso de Deus, nem por isso cogitou usurp-lo a ele se igualando". Penetra-o e esclarece-lhe o verdadeiro 
sentido uma carta que nos legaram as igrejas de Viena e Lio, escrita no ano 117, precioso monumento da antigidade. Louva-se nela a modstia de alguns fiis: "Eles 
no quiseram" reza - "aureolar-se do ttulo de mrtires (por algumas tribulaes) a exemplo de Jesus, que, em representao divina, no cogitou usurpar a qualidade 
de par de Deus". Assim tambm diz Orgenes em seu Comentrio sobre Joo: "Mais irradiante foi a grandeza de Jesus humilhando-se "do que se tivesse usurpado a paridade 
com Deus". Efetivamente, seria visvel contra senso a interpretao contrria. Que significaria: "Crede os outros superiores a vs. Imitai Jesus, que no cogitou 
ser usurpao igualar-se a Deus"? Seria contradizer-se grosseiramente, seria dar um exemplo de grandeza por um exemplo de modstia. Seria pecar contra o senso comum.

Assim fundava a sabedoria dos apstolos a igreja nascente. Sabedoria que a disputa sobrevinda entre os apstolos Pedro, Jaques e Joo de um lado e Paulo de outro 
no conseguiu turbar. Essa disputa sobreveio em Antiquia. O apstolo Pedro, tambm chamado Cefas, ou ainda Simo Barjone, comia com os gentios conversos e com eles 
no observava as cerimnias da lei nem a distino das carnes. Comiam, ele, Barnab e outros discpulos, indiferentemente carne de porco, carnes afogadas de animais 
que tinham o p fendido e que no ruminavam. Havendo chegado, entretanto, numerosos judeus cristos, com eles S. Pedro retornou  abstinncia das carnes proibidas 
e s cerimnias da lei mosaica.

A medida era prudente. Ele no queria escandalizar os judeus cristos seus companheiros. Porm Paulo levantou-se contra ele com um pouco de dureza. "Eu lhe resistia" 
- disse-lhe no rosto - "porque era condenvel". (Epstola aos Glatas, cap. 2).

Essa querela parece tanto mais extraordinria da parte de S. Paulo quanto a princpio ele fora perseguidor, o que o devia tornar mais modesto, fizera sacrifcios 
no templo de Jerusalm, circuncidara seu discpulo Timteo e cumprira os ritos judeus que agora censurava em Cefas. Pretende S. Jernimo que essa disputa entre Paulo 
e Cefas era de encomenda. Diz em sua primeira Homilia, tomo 2, que eles fizeram como dois advogados que, para ter mais autoridade sobre os clientes, se escandecem 
e se aferrotoam no tribunal. E sugere que, pretendendo Pedro Cefas pregar aos judeus e Paulo aos gentios; simularam querelar, Paulo para carear os gentios, Pedro 
para conquistar os judeus. Sto. Agostinho, porm, no est pelos autos: "Amofina-me" - escreve na Epstola a Jernimo - "que um to grande homem se torne patrono 
do embuste, patronum mendacii".

De mais a mais, se Pedro ia pregar aos judeus judaizantes e Paulo aos estrangeiros,  muito provvel que Pedro no haja vindo a Roma. Nenhuma meno fazem dessa 
viagem os Atos dos Apstolos.

Seja como for, foi por volta do ano 60 da nossa era que os cristos comearam a desquitar-se da
comunho judaica, o que tantas encrencas e perseguies lhes custou de parte das sinagogas de Roma, Grcia, Egito e sia. Acusaram-nos seus irmos judeus de irreligiosidade, 
atesmo e excomungavam-nos trs vezes nos dias de sabate. Mas Deus protegeu-os em meio ao alude das perseguies.

Pouco a pouco proliferaram igrejas, e antes do fim do primeiro sculo ultimou-se o divrcio entre judeus e cristos. O governo romano ignorava essa separao. Nem 
o senado nem os imperadores tinham olhos para as brigas de um partido insignificante que at ento Deus conduzira na obscuridade e s insensivelmente trazia  luz 
diurna.

Balancemos o estado em que a esse tempo se achava a religio do imprio romano. Em quase toda a terra gozavam de crdito os mistrios e as expiaes. Imperadores, 
grandes e filsofos,  verdade, no tinham a menor f em tais mistrios. Mas o povo, que em matria de religio dita a lei aos grandes, impunha-lhes a necessidade 
de se conformarem aparentemente com seu culto. Cumpre, para encade-lo, arrastar as mesmas cadeias que ele. O prprio Ccero iniciou-se nos mistrios de Eleusina. 
A concepo monoteica era o principal dogma que se anunciava nessas festas misteriosas e magnficas. No h negar serem as oraes e os hinos que desses mistrios 
nos restam o que de mais piedoso e admirvel possui o paganismo.

O serem os cristos tambm monotestas muito lhes facilitou a converso dos gentios. Alguns filsofos da seita de Plato bandearam para o cristianismo. A est por 
que foram platnicos todos os padres da igreja dos trs primeiros sculos.

O zelo inconsiderado de alguns no conseguiu opor empeos s verdades fundamentais. Reprovou-se a S. Justino, um dos primeiros padres, o haver dito em seu Comentrio 
sobre Isaas que, em reinado de mil anos sobre a terra, os santos gozariam de todos os bens sensuais. Reputou-se-lhe crime o dizer na Apologia do Cristianismo que, 
tendo Deus criado a terra, deixou-a aos cuidados dos anjos, que, enamorando-se das mulheres, lhes fizeram filhos, que so os demnios.

Condenou-se a Lactncio e outros padres o terem dado crdito aos orculos das sibilas. Pretendia ele haver a sibila Eritria composto estes quatro versos gregos, 
que traduzo  cortia da letra: - Com cinco pes e dois peixes - ele alimentar cinco mil homens no deserto. - E, juntando os sobejos, - doze cestos encher.

Acoimou-se outrossim aos primeiros cristos a falsa alegao de certos versos acrsticos de uma antiga sibila, os quais comeavam todos pelas letras iniciais do 
nome de Jesus Cristo dispostas na mesma ordem.

Esses escrpulos anticientficos de alguns cristos no impediram a igreja de realizar os progressos que lhe reservava Deus. Primitivamente os cristos celebravam 
seus mistrios em casas retiradas, em subterrneos, de noite. Da, atesta Mintio Flix, lhes veio o apelido de lucifugaces. Flon chamava-os gesseanos. Nos quatro 
primeiros sculos foram mais comumente conhecidos por galileus e nazarenos. Sobre todas essas denominaes, todavia, prevaleceu a de cristos.

Nem a hierarquia nem as prticas foram estabelecidas de uma vez. Os tempos apostlicos foram diferentes dos que se lhes seguiram. Ensina-nos S. Paulo (1a. Aos Corntios) 
que estando os irmos retinidos - circuncisos ou no - s podiam falar dois ou trs profetas, e se entrementes algum tivesse
uma revelao, o profeta que tomara a palavra era obrigado a calar-se. Sobre esse uso da igreja primitiva ainda hoje se fundam muitas comunhes crists, em cujas 
reunies no h hierarquia. Inicialmente qualquer pessoa tinha o direito de falar na igreja, tirante as mulheres. A santa missa de hoje, que se celebra de manh, 
primitivamente celebrava-se  tarde e era a ceia. Esses costumes mudaram  proporo que a igreja se fortaleceu. Sociedade mais extensa exigia evidentemente maior 
nmero de regulamentos, e a prudncia dos pastores soube conformar-se s diferenas de tempo e lugar.

Abonam S. Jernimo e Eusbio que, constitudas as igrejas, paulatinamente foram se distinguindo cinco ordens eclesisticas: os vigilantes. - episcopoi - de onde 
provem os bispos; os antigos da sociedade - presbyteroi - padres; os serventes ou diconos - diaconoi; pistoi - crentes, iniciados, isto , os batizados, que participavam 
das ceias dos gapes; finalmente os catecmenos e energmenos, candidatos ao batismo. O hbito era o mesmo para as cinco ordens. Todas deviam manter o celibato, 
testemunham o livro de Tertuliano dedicado a sua mulher e o exemplo dos apstolos. Nos trs primeiros sculos nenhuma representao, pintada ou esculpida, presidia 
a suas reunies. Os cristos escondiam cuidadosamente seus livros aos gentios, no os confiando seno aos iniciados. Nem aos catecmenos era permitido recitar a 
orao dominical.

O que mais caracteristicamente distinguia os cristos, e que veio at nossos dias, era o poder de espantar os diabos com o sinal da cruz. Conta Orgenes no Tratado 
contra Celso, nmero 133, que Antinous, divinizado pelo imperador Adriano, fazia milagres no Egito por fora de encantamentos e prestgios. Acrescenta, entretanto, 
bastar a simples pronunciao do nome de Jesus para os diabos deixarem o corpo dos possessos. Tertuliano vai mais longe e dos fundos da frica proclama: "Se vossos 
deuses no confessarem ser diabos na presena de um vero cristo, de bom grado vos veria derramar o sangue desse cristo". (Apologtica, captulo 23). Haver coisa 
mais evidente?

Efetivamente, Jesus Cristo enviou seus apstolos a fim de correr os demnios. Dom de expuls-los tiveram tambm os judeus, porque, quando Jesus livrou possessos 
e espaventou os diabos no corpo de uma vara de porcos e operou outras curas que tais, disseram os fariseus: expulsa os demnios pelo poder de Belzebu. - Se  por 
Belzebu que eu os expulso - retrucou Jesus - por quem os expulsam vossos filhos!"  incontestvel que os judeus se gabavam desse poder. Tinham exorcistas e exorcismos. 
Invocavam o nome do deus de Jac e de Abrao. Introduziam ervas consagradas no nariz dos demonacos. (Jos relata parte dessas cerimnias). Esse poder sobre os diabos, 
que os judeus perderam, transmitiu-se aos cristos, que tambm parecem t-lo perdido desde algum tempo.

Compreendia o poder de expulsar os demnios tambm o de desfazer as operaes da magia. Porque a magia esteve em voga em todos os tempos e em todas as naes. Todos 
os padres da igreja a ela se referem. Observa S. Justino (Apologtica, livro 3) ser muito comum invocar-se a alma dos mortos, tirando da um argumento em favor da 
imortalidade da alma. Lactncio (Instituies Divinas, livro 7) diz que "Se oussseis negar a subsistncia da alma ao corpo, o mago vos convenceria do contrrio 
fazendo-a aparecer". Ireneu, Clemente Alexandrino, Tertuliano, o bispo Cipriano, todos afirmam a mesma coisa Verdade  que hoje tudo mudou e que j no existem magos 
nem endemoninhados. Mas certamente voltaro  cena quando for da vontade de Deus.

Quando as sociedades crists se tornaram mais ou menos numerosas e muitas se levantaram contra o
culto do imprio romano, contra elas agiram rigorosamente os magistrados e sobretudo as perseguiu o povo. No se perseguia aos judeus, que gozavam de privilgios 
particulares e se encaramujavam em suas sinagogas. Permitia-se-lhes o exerccio de sua religio, como ainda o permite a Roma de hoje. Todos os cultos do imprio 
eram tolerados, embora no os adotasse o senado.

Tendo porm os cristos se declarado inimigos de todos esses cultos, e sobretudo da religio do imprio, expuseram-se muitas vezes a cruis provaes.

Um dos primeiros e mais clebres mrtires foi Incio, bispo de Antiquia, condenado pelo prprio imperador Trajano, ento na sia, e por ordens suas transportado 
a Roma a fim de ser exposto s feras. Isso num tempo em que ainda no era costume trucidar cristos em Roma. Ignora-se de que tenha sido acusado junto desse imperador, 
afamado pela demncia. Necessrio era que Incio tivesse inimigos figadais. De qualquer forma, conta a histria de seu martrio haver-se encontrado em seu corao, 
gravado em letras de ouro, o nome de Jesus Cristo. Da apelidarem-se os cristos em alguns lugares teforos, como a si prprio se chamava Incio.

Conserva-se uma carta sua em que pede aos bispos e aos cristos no se oporem a seu martrio, fosse porque j ento eram os fiis em nmero suficiente para impedi-lo, 
fosse porque os houvesse bastante acreditados para obter-lhe a graa. Notvel  ter-se consentido que, ao ser trazido a Roma, os cristos desta cidade fossem receb-lo. 
O que prova que se punia nele a pessoa e no a seita.

No foram continuadas as perseguies. Escreve Orgenes (Tratado contra Celso, livro 3): "Poucos foram os cristos que morreram por sua religio. S muito raramente 
se verificavam execues dessa natureza".

Tantos carinhos dispensou Deus a sua igreja que, a despeito de seus desafetos, fez que tivesse cinco conclios (congressos tolerados) no primeiro sculo, dezesseis 
no segundo e trinta no terceiro. Por vezes tais congressos foram proibidos, quando a falsa prudncia dos magistrados temia que degenerassem em tumultos. Poucos so 
os processos verbais que nos restam de procnsules e pretores que condenaram cristos  morte. S  vista desses documentos poderamos julgar das acusaes contra 
eles assacadas e de seus suplcios.

Temos um fragmento de Dins de Alexandria, no qual se relata o extrato da chancelaria de um procnsul do Egito sob o imperador Valeriano. Ei-lo:

Introduzidos na sala de audincia Dins, Fausto, Mximo, Marcelo e Queremo, disse-lhes o prefeito Emiliano: "Tomastes conhecimento, pelas palestras que convosco 
tive e por tudo que a respeito tenho escrito, quo bondosos tm sido nossos prncipes em relao a vs. Repito-o: a vs mesmos entregaram vossa conservao e vossa 
sade. Vosso destino est em vossas mos. Uma nica coisa vos pedem, coisa que a razo exige a toda pessoa razovel: que adoreis os deuses protetores de seu imprio 
e renegueis a esse culto contrrio  natureza e ao bom senso".

Respondeu Dins: "Nem todos os homens tm os mesmos deuses. Cada um adora os que julga verdadeiramente serem-no."

Replicou o prefeito Emiliano: "Vejo que sois ingratos e que abusais da bondade dos imperadores. Pois
bem: no continuareis nesta cidade. Mand-los-ei para Cefro, nos confins da Lbia, conforme ordem que receb dos nossos imperadores. No penseis reeditar l vossas 
reunies nem orar nesses lugares a que chamais cemitrios: tal vos  terminantemente vedado, e no o permitirei a ningum".

Nada mais possivelmente verdadeiro que esse processo verbal. Evidencia-se que houve tempo em que eram proibidas as reunies dos cristos, assim como entre ns se 
interdiz aos calvinistas congregarem-se em Languedoc. Chegamos at, uma vez ou outra, a fazer enforcar e rodar ministros e pregadores que promoveram congressos a 
despeito da lei. Na Inglaterra e Irlanda, igualmente, probem-se as reunies de catlicos romanos, e ocasies houve em que os delinqentes foram condenados  morte.

Mau grado essas interdies das leis romanas, Deus inspirou a muitos imperadores a indulgncia para com os cristos. O prprio Diocleciano, que os ignorantes tm 
como perseguidor, Diocleciano, cujo primeiro ano de reinado ainda se enevoa na idade dos mrtires, foi durante muitos anos protetor declarado do cristianismo, a 
ponto de numerosos cristos deterem dos principais cargos ao p de sua pessoa. Chegou a tolerar que em Nicomedia, sua residncia, se elevasse uma igreja defronte 
a seu palcio.

Infelizmente prevenido contra os cristos, de quem temia viesse algum dia a se lamentar, o csar Galrio fez Diocleciano destruir a catedral de Nicomdia. Um cristo
mais piedoso que reportado fez em pedaos o dito do imperador, acendendo a famosa perseguio que condenou  morte mais de duzentas pessoas em toda a extenso do 
imprio romano, sem contar as que, contra as formas jurdicas, sacrificou a fria do populacho, sempre fantico e sempre brbaro.

To copioso  o rol dos mrtires que seria conveniente cuidar de no baralhar a histria dos verdadeiros confessores da nossa santa religio com o perigoso emaranhado 
de fbulas e falsos mrtires.

O beneditino dom Ruinart, por exemplo, homem alis de tanta instruo quanto respeitvel e zeloso, devia ter escalrachado com mais discrio seus Atos Sinceros. 
No  s escabichar um manuscrito em meio  papelada do abade de Saint- Benot- sur-Loire ou de um convento de celestinos de Paris, conforme a um manuscrito dos 
fuldenses, e decret-lo autntico.  necessrio que seja antigo, escrito por contemporneos e, sobretudo, que estampe o selo da verdade.

Exemplo: o caso do jovem Romano, que a histria situa no ano 303. Romano obtivera, em Antiquia, o perdo de Diocleciano. Sentencia o sr. Ruinart, no entanto, ter 
sido ele condenado ao fogo pelo juiz Asclepades. Judeus presentes ao espetculo haveriam mofado do jovem S. Romano, acoimando aos cristos o abandon-los seu Deus 
 tortura do fogo, ele que salvara ao forno Sidraque, Misaque e Abdenago. Presto se levantaria, no mais sereno do tempo, uma tempestade que apagaria o fogo. Ento 
o juiz teria ordenado que se cortasse a lngua ao jovem Romano. Encontrando-se ali o primeiro mdico do imperador, oficiosamente desempenharia a funo de algoz, 
cortando-lhe cerce a lngua. De improviso o jovem, que era tartamudo, comearia a parolar muito a prazer. Assombrando-se o imperador de que se falasse to bem sem 
lngua, o mdico, para reiterar a experincia, cortaria a lngua ao primeiro passante que visse, o qual morreria instantaneamente.

Eusbio, de quem o beneditino Ruinart extraiu esse conto, devia respeitar um pouco mais os verdadeiros milagres operados no Velho e Novo Testamento (que ningum 
ter o desplante de pr em dvida) e no enxertar-lhes histrias to suspeitas, que podem escandalizar os simples.
Essa ltima perseguio no se estendeu a todo o imprio. Havia ento na Inglaterra uns brotos de cristianismo, os quais se eclipsaram incontinenti para logo pr 
a cabecinha de fora sob os reis saxes. Inadas de cristos estavam as Glias meridionais e a Espanha. Muito os protegeu em todas essas provncias o csar Constncio 
Cloro. Teve at uma concubina crist: a me de Constantino, conhecida por Sta. Helena. Porque o fato  que nunca se provou que fossem casados, e efetivamente, ao 
esposar a filha de Maximiano Hrcules, em 292, Constncio recambiou-a. Helena, contudo, conservara sobre ele grande ascendncia, inspirando-lhe profunda afeio 
a nossa santa religio.

Preparou a divina Providncia, por vias que mais parecem humanas que divinas, o triunfo de sua igreja. Constncio Cloro morreu no ano 306, em York, Inglaterra, quando 
os rebentos que tivera da filha de um csar mal se haviam emancipado dos cueiros, no podendo portanto candidatar-se ao trono. Fez-se Constantino eleger em York 
por cinco ou seis mil soldados, alemes, gauleses e ingleses na maior parte. Nada augurava que semelhante eleio, realizada sem consentimento de Roma, do senado 
e dos exrcitos, pudesse prevalecer. Deus, no obstante, deu-lhe a vitria sobre Maxncio, eleito em Roma, e por fim desembaraou-o de todos os rivais. De tudo isso 
depreende-se que no o tornara indigno dos favores do cu o haver assassinado todos aqueles que dele se aproximaram, a prpria mulher e o prprio filho.

Impossvel duvidar do que a respeito relata Zsimo. Diz que, mordido de remorsos depois de tantos crimes, Constantino perguntou aos pontfices do imprio se ainda 
havia expiao possvel para ele, ao que lhe responderam no conhecer. Verdade  que tambm no a houvera para Nero, que no ousara assistir aos sacros mistrios 
na Grcia. Estavam em voga, entretanto, os tauroblios, e seria difcil crer que um imperador que tudo podia no encontrasse um padre que lhe concedesse sacrifcios 
expiatrios. Menos crvel ainda ser que, absorvido pela guerra, sua ambio, seus projetos e rodeado de bajuladores, tivesse Constantino tempo para sentir remorsos. 
Acrescenta Zsimo que um padre egpcio vindo da Espanha, que tinha acesso a sua porta, prometeu-lhe a expiao de todos os seus crimes dentro da religio crist. 
Desconfia-se tratar-se de zio, bispo de Crdova.

Seja como for, Constantino comungou com os cristos, se bem nunca tivesse sido catecmeno, e reservou o batismo para a hora da morte. Mandou construir a cidade de 
Constantinopla, que se tornou centro do imprio e da religio crist. Ento a igreja tomou uma forma augusta.

Note-se que desde o ano 314, antes de Constantino fixar residncia em sua nova cidade, os que haviam perseguido os cristos foram por estes punidos de suas crueldades. 
Os cristos lanaram a mulher de Maximiano ao Oronte, degolaram todos os seus parentes e trucidaram no Egito e Palestina os magistrados que mais abertamente tinham 
se declarado contra o cristianismo. Identificadas a viva e a filha de Diocleciano, que se haviam refugiado em Tessalnica, atiraram-nas ao mar. Seria de desejar 
dessem os cristos menos ouvidos ao esprito de vingana. Mas quis Deus, que castiga segundo a sua justia, que as mos dos cristos se tingissem do sangue de seus 
perseguidores apenas as tivessem desvencilhadas.

Convocou, reuniu Constantino em Nicia, em frente a Constantinopla, o primeiro conclio ecumnico, presidido por zio. L se decidiu a magna questo que agitava 
a igreja, referente  divindade de Jesus Cristo.
Uns esposavam a opinio de Orgenes, que diz no sexto captulo contra Celso: "Endereamos as nossas preces a Deus por Jesus, que est entre as naturezas criadas 
e a natureza incriada, que nos transmite a graa de seu pai e, na qualidade de pontfice nosso, depe a Deus as nossas oraes". Estribavam-se outrossim em diversos 
passos de S. Paulo, alguns dos quais transcrevemos pginas atrs. Sobretudo arrimavam-se a estas palavras de Cristo: "Meu pai  maior que eu". Viam em Jesus o primognito 
da criao, a mais pura emanao do Ser Supremo, mas no Deus precisamente.

Outros, ortodoxos, traziam  luz argumentos mais conformes  divindade eterna de Jesus, como este: "Meu pai e eu somos a mesma coisa" Palavras que seus adversrios 
interpretavam como significando: "Meu pai e eu temos o mesmo desgnio, a mesma vontade. No tenho outros desejos seno os de meu pai". Capitaneavam os ortodoxos 
primeiro Alexandre, bispo de Alexandria, e depois Atansio. No partido contrrio alinhavam-se Eusbio, bispo de Nicomedia, o padre Ario e mais dezessete bispos e 
numerosos padres. Logo de sada azedou-se a disputa por haver Alexandre tratado de anticristos seus adversrios.

Enfim, ao cabo de muita discusso assim se pronunciou o Esprito Santo no conclio pela boca de duzentos e noventa e nove bispos contra dezoito: "Jesus  o filho 
nico de Deus, gerado do Pai, isto , da substncia do Pai, Deus de Deus, luz da luz, vero Deus de vero Deus, consubstancial ao Pai. Cremos igualmente no Esprito 
Santo, etc." Foi esta a frmula do conclio. V-se pelo exemplo o quanto prevaleciam os bispos sobre os simples padres. Dois mil membros da segunda ordem perfilhavam 
o parecer de Ario, segundo relao de dois patriarcas de Alexandria que escreveram a crnica dessa cidade em rabe. Ano foi exilado por Constantino. Logo o foi tambm 
Atansio, e Ario de novo chamado a Constantinopla. Porm to fervorosamente pediu Macrio a Deus que o fizesse morrer antes de entrar na catedral que foi atendido. 
Faleceu Ario a caminho da igreja, no ano 330. Em 337 finou-se Constantino. Entregou seu testamento a um padre ariano e morreu nos braos do chefe dos arianos, Eusbio, 
bispo de Nicomedia, s se batizando  hora da morte. Deixou a igreja triunfante, embora dividida.

Tremenda guerra estalou entre os partidrios de Atansio e os de Eusbio, e o chamado arianismo vigorou longo tempo em todas as provncias do imprio.

Juliano o filsofo, cognominado o Apstata, tentou pr cobro a tais divises, porm em vo. O segundo conclio geral reuniu-se em Constantinopla, em 381. Esclareceu-se 
ento o que o conclio de Nicia no julgara a propsito dizer sobre o Esprito Santo, e acrescentou-se  frmula niceana que "O Esprito Santo  senhor vivificante 
procedente do Pai, e adorado e glorificado como o Pai e o Filho".

S no sculo IX estatuiu gradativamente a igreja latina proceder o Esprito Santo do Pai e do Filho. Em 431 o terceiro conclio geral realizado em feso resolveu 
que Maria foi de fato me de Deus, e que Jesus tinha duas naturezas e uma pessoa. Querendo Nestrio, bispo de Constantinopla, que a Santa Virgem fosse chamada me 
de Cristo, declarou-o judas o conclio.

Confirmou a dualidade de naturezas de Cristo o conclio de Calcednia. Refiro-me a lume de palha aos sculos subsequentes por sobejamente conhecidos. Infelizmente 
todas essas disputas eram pomo de guerras, de forma que volta e meia a igreja se via obrigada a combater.
Aprouve a Deus, a fim de provar a pacincia dos fiis, que no sculo IX gregos e latinos rompessem definitivamente. Aprouve-lhe ainda que se formassem no Ocidente 
vinte e nove cismas sangrentos para o plpito de Roma.

Entretanto quase toda a igreja grega e toda a igreja da frica foram avassaladas pelos rabes, em seguida pelos turcos, os quais erigiram a igreja de Mafoma por 
sobre as runas da de Cristo. A igreja romana subsistiu, porm, manchada de sangue por mais de seiscentos anos de discrdia entre o imprio do Oriente e o sacerdcio. 
Tornaram-na at mais poderosa essas dissenses. Bispos e abades na Alemanha transformaram-se em prncipes, e paulatinamente os papas investiram-se de domnio absoluto 
em Roma e numa regio de cem lguas. Assim experimentou Deus sua igreja por humilhaes, tumultos e esplendor.

Ao descambar do sculo XVI a igreja latina perdeu metade da Alemanha, a Dinamarca, Sucia, Inglaterra, Esccia, Irlanda, Sua e Holanda. Territorialmente essas 
perdas foram vantajosamente compensadas pelas conquistas espanholas na Amrica. No, porm, quanto ao nmero de sditos.

Para compensar o desmembramento da sia Menor, Sria, Grcia, Egito, frica, Rssia e as outras naes de que falamos, parece que a Divina Providncia lhe reservava 
o Japo, Siam, ndia e China. S. Francisco Xavier, que levou o Santo Evangelho s ndias Orientais e ao Japo, quando l foram em busca de mercadorias os portugueses, 
fez inmeros milagres, atestados todos pelos RR. PP. jesutas. Dizem at que ressuscitou nove mortos. Na Flor dos Santos abate o R. P. Ribadeneira esse nmero para 
quatro, o que alis j  bastante. Quis a Providncia que em menos de cem anos milhares de catlicos romanos enxameassem as ilhas do Japo. Porm o diabo semeou 
seu joio em meio da boa semente. Tramaram os cristos uma conjurao acompanhada de uma guerra civil, em que foram totalmente exterminados (1638). Os japoneses fecharam 
as portas do pas a todos os estrangeiros, salvo aos holandeses, em quem viam mercadores e no cristos, mas que ainda assim foram obrigados a espezinhar a cruz 
para obter permisso de vender suas mercancias na priso onde os trancafiaram logo que puseram p em Nagasaqui.

Recentemente a China proscreveu a religio catlica, apostlica e romana, bem que com menos crueldade. Em verdade os jesutas no ressuscitaram mortos na corte de 
Pequim. Contentaram-se em ensinar astronomia, fundir canhes e ser mandarins. Suas intempestivas contendas com dominicanos e outros de tal forma escandalizaram o 
grande imperador Iong- tching que este prncipe, que era a justia e a bondade em pessoa, teve a cegueira de proibir em seu estado o ensino da nossa santa religio, 
no seio da qual nem os prprios missionrios viviam em paz. Expulsou-os paternalmente, fornecendo-lhes meios de subsistncia e veculos at os confins de seu imprio.

Toda a sia, toda a frica, metade da Europa, todas as colnias inglesas e holandesas da Amrica, todas as tribos americanas no domadas, todas as terras austrais, 
que constituem um quinto do globo, permanecem presa do demnio, para provar esta santa sentena: "Muitos so os chamados, mas poucos os eleitos". Se h na terra 
um bilho e seiscentos milhes de homens, como pretendem os entendidos, cerca de sessenta milhes pertencero  santa igreja romana catlica universal: ou seja, 
mais da vigsima sexta parte da populao do mundo conhecido.

CRTICA

No pretendo falar dessa crtica de escoliastas, que se limita a substituir por outra pior uma frase de um escritor antigo que antes se entendia muito bem. No me 
refiro s crticas de lei que, na medida das foras humanas, devassaram os mais recnditos escaninhos da histria e da filosofia antigas. Viso s criticas que descambam 
para a stira.

Um amador de letras lia certa vez Tasso comigo. Antolhou-se-lhe esta estncia: Chiama gli abitator dell'ombre eterne il rauco suon della tartarea tromba. Treman 
le spaziose atre caverne; e l'aer cieco a quel rumor rimbomba: n s stridendo mai dalle superne regioni dei cielo il folgor piomba; n s scossa giammai trema la 
terra, quando i vapori in sen gravida serra (25).

Leu em seguida ao acaso vrias estncias dessa fora e harmonia. - Ora! - exclamou - ento  isso o que o seu Boileau chama farfalhice? Ento  assim que pretende 
rebaixar um grande homem que viveu cem anos antes dele para melhor entronar outro grande homem que viveu dezesseis sculos antes, e que teria ele prprio rendido 
justia a Tasso? Console-se. Vejamos as peras de Quinault.

Logo  abertura do livro deparou-se-nos com que nos abespinharmos com a crtica. Dando com os olhos na traduo do admirvel poema Armida, lemos:

Sidonie

La haine est affreuse et barbare, l'amour contraint les cours dont il s'empare  souffrir des maux rigoureux. Si votre sort est en votre puissance, faltes choix 
de l'indiffrence: elie assure un repos heureux.

Armide

Non, non, il ne m'est pas possible de passer de mon trouble en un tat paisible; mon coeur ne se peut plus calmer; Renaud m'offense trop, il n'est que trop aimable; 
c'est pour moi dsormais un choix indispensable de le har ou de l'aimer.

Lemos de fio a pavio a pea Armida, na qual o gnio de Tasso recebe novos encantos das mos de Quinault.

- Veja s, - observo a meu amigo - no entanto  este Quinault que Boileau sempre se esforou por fazer ver como o mais reles escrevinhador. Chegou a meter na cabea 
de Lus XIV que esse escritor gracioso, comovente, pattico, elegante, outro mrito no tinha alm do que tomava de emprstimo ao msico Lulli.

- Compreende-se. Boileau no invejava o msico, porm invejava o poeta. Que pensar de um homem que, para rimar um verso em aut, denigre ora Boursault, ora Hnault, 
ora Quinault, conforme esteja bem ou mal com esses senhores?

" Mas, para que no se arrefece a sua repugnncia da injustia, ponha a cabea  janela, veja aquela bela fachada do Louvre, por que se imortalizou Perrault. Este 
homem de invulgar habilidade era irmo de um acadmico sapientssimo, com quem Boileau tivera uma disputa eis o quanto bastou para levar a tacha de arquiteto ignorante."

Depois de breve sisma, prossegue meu amigo com um Suspiro: - Assim  a natureza humana - Em suas Mmoires, acha o duque de Sully de inquinar de maus ministros o 
cardeal de Ossat e o secretrio de estado Villeroi Tudo fez Louvois para deslustrar o grande Colbert.

- No se agatanhavam pessoalmente - reparo. - Trata-se de uma estupidez restrita quase exclusivamente  literatura,  cavilao e  teologia.

" Tivemos um homem de mrito: Lamotte, que comps estncias belssimas: Quelque fois au feu qui la charme rsiste une jeune beaut, et contre elle-mme elle s'arme 
d'une pnible fermet. Hlas! cette contrainte extrme la prive du vice qu'elle aime, pour fuir la honte qu'elle hait. La svrit n'est que faste, et l'honneur 
de passer pour chaste la rsout  l'tre en effet.
En vain ce svre stoque, sous mille dfauts abattu, se vante d'une me hroque toute voue  la vertu: ce n'est point la vertu qu'il aime; mais son coeur, ivre 
de lui-mme, voudrait usurper les autels, et par sa sagesse frivole il ne veut que parer l'idole qu'il offre an culte des mortels.

Les champs de Pharsale et d'Arbelle ont vu triompher deux vainqueurs, l'un et l'autre digne modle que se proposent les grands coeurs. Mais le succs a fait leur 
gloire; et, si te sceau de la victoire n'et consacr ces demi-dieux, Alexandre, aux yeux du vulgaire, n'aurasit t qu'un tmraire, et Csar qu'un seditieux.

" Este autor" - continuo - "foi um sbio que por mais de uma vez emprestou o encanto dos versos  filosofia. Escrevesse sempre estncias desse quilate e teria sido 
o maior dos poetas lricos. Sem embargo, foi justamente quando produzia desses primores que dele disse um contemporneo:

Um certo pato, caa de galinheiro. " Em outro lugar: De seus versos a enfadonha - beleza. " Em outro:

... S vejo um seno: falta a essas odes descavalgar o verso a Quinault para atingir a perfeio.

" E, nesse ciscar de imperfeies, em tudo encontra secura e quebra de harmonia. " Quer ver as odes que anos depois escreveu esse mesmo censor que julgava Lamotte 
de ctedra e o difamava como inimigo? Leia:

Cette influence souveraine
n'est pour lui qu'une ilustre chane qui l'attache au bonheur d'autrui; tous les brillants qui l'embellisent, tons les talents qui l'ennoblissent, sont en lui, mais 
non pas  lui.

Il n'est rien que te temps n'absorbe, ne dvore, et les faits qu'on ignore sont bien peu diffrents des faits non avenus.

La bont qui brille en elle de ses charmes les plus doux est une image de celle qu'elle voit briller en vous. Et, par vous seule enrichie, sa politesse, affranchie 
des moindres obscurits est la lueur rflchie de vos sublimes clarts.

Ils ont vu par la bonne foi de leurs peuples troubls d'effroi la crainte heureusement due, et dracine  jamais la haine si souvent reue en survivance de la 
paix.

Dvoile  ma vue empresse ces dits d'adoption, synonymes de la pense, symboles de l'abstraction.

N'est. ce pas une fortune, quand d'une charge commune deux moities portent le faix, que la moindre le rclame, et que du bonheur de l'me le corps seul fasse les 
frais?

- No era preciso - convm meu judicioso amante das letras - dar coisas to detestveis para modelo queles a quem to azedamente criticava. Antes deixasse em paz 
seu adversrio com seu mrito e ficasse ele com o que tivesse. Mas, que quer voc? O genus irritabile vatum  doena da mesma bilis que o atormentava outrora. O 
pblico perdoa essas tacanhezas s pessoas de talento porque no quer seno se divertir. Ele v, numa alegoria intitulada Pluto, juizes condenados a ser esfolados 
e a sentar-se nos infernos em um banco coberto com as prprias peles em vez de flores de lis. Pouco importa ao leitor que
os juizes o meream ou no, que tenha ou no razo o autor que os cita perante Pluto. L esses versos unicamente por prazer. Se lhe agradam, no quer mais. Se lhe 
desagradam, pe de lado a alegoria e no daria um passo para fazer confirmar ou cassar a sentena.

" As inimitveis tragdias de Racine foram todas criticadas, e pessimamente: porque as criticaram rivais. Certo, os artistas so juizes de arte competentes, porm 
quase sempre lhes falta integridade.

" Excelente crtico seria o artista senhor de bom cabedal de cincia e de bom gosto, isento de prejuzos e inveja. O que  difcil encontrar."

DESTINO

De todos os livros que at ns chegaram, o mais antigo  Homero.  em Homero que se nos deparam os costumes da antigidade profana, os heris e deuses toscamente 
talhados  imagem do homem. Em Homero tambm encontramos os embries da filosofia e sobretudo a idia do destino, que  senhor dos deuses como so os deuses senhores 
dos homens.

Debalde quer Jpiter salvar Heitor. Consulta os destinos, pesando numa balana os destinos de Heitor e Aquiles: diz a sorte que o troiano ser irrevogavelmente morto 
pelo grego, e nada pode opor-lhe o soberano dos deuses. Apolo, o gnio guardio de Heitor,  ento obrigado a abandon-lo( 26). No que Homero no seja prdigo de 
idias opostas, consoante o privilgio da antigidade. Mas enfim  o primeiro em que aparece a noo do destino. Devia estar, pois, muito em voga em seu tempo.

Os fariseus, na pequena nao judaica, s conceberam o destino muitos sculos depois, porquanto, embora tenham sido os primeiros judeus letrados, eram muito novos 
em relao aos gregos. Mesclaram em Alexandria parte dos dogmas dos esticos s antigas idias judaicas. Chega a pretender S. Jernimo no ser sua seita muito anterior 
 nossa era. Os filsofos sempre prescindiram de Homero e dos fariseus para se persuadirem de que tudo est sujeito a leis imutveis, tudo est determinado, tudo 
 efeito necessrio.

Ou o mundo subsiste pela prpria natureza, pelas leis fsicas, ou formou-o um Ser Supremo conforme supremas leis. Num caso como noutro as leis so imutveis e tudo 
 necessrio. Os corpos graves tendem para o centro da terra, no podendo tender a repousar no ar. Pereiras nunca poderiam dar ananases. O instinto de um espanhol 
no pode ser o instinto de um austraco Tudo se acha ordenado, engranzado e limitado.

No pode o homem ter mais que certo nmero de dentes, cabelos e idias. Tempo vem em que inevitavelmente perde os dentes, os cabelos e as idias

Contraditrio seria que ontem no fosse ontem e hoje no fosse hoje. To contraditrio como se o que h de ser pudesse deixar de s-lo.

Se pudesses torcer o destino de uma mosca, nada te impediria de traar o destino de todas as outras
moscas, de todos os outros animais, de todos os homens, de toda a natureza. Enfim, serias mais poderoso que Deus.

Dizem os cretinos: O mdico arrancou minha tia aos braos da morte, f-la viver dez anos mais do que deveria viver. Outra modalidade de imbecis - os capazes, - sentenciam: 
O homem prudente forja o prprio destino.

Nullum numen abest, si sit prudentia, sed te nos facimus, fortuna, deam, coeloque locamus.

Asseveram profundos polticos que se oito dias antes que se decapitasse Carlos I se tivessem assassinado Cromwell, Ludlow, Ireton e uma dzia de outros parlamentares, 
esse rei ainda podia ter vivido e morrer no leito. Tm razo. E poderiam acrescentar que se o mar houvesse tragado toda a Inglaterra esse monarca no teria morrido 
em um patbulo junto a Whitehall, ou sala, branca. Porm as coisas estavam dispostas de maneira que Carlos teria irrevogavelmente o pescoo cortado.

No resta dvida que o cardeal de Ossat era mais prudente que um louco das Petites-Maisons. Mas no  evidente que os rgos do sbio de Ossat no eram os mesmos 
que os de um desmiolado, da mesma forma como os de uma raposa diferem dos de um grou ou uma calhandra.

O mdico salvou tua tia. Mas no contradisse a natureza: obedeceu-lhe. Claro que tua tia no podia deixar de nascer seno na cidade em que nasceu, em ocasio certa 
ter certa molstia, que o mdico no podia estar alhures seno na cidade em que estava, que tua tia forosamente o chamaria a ele, o qual necessariamente lhe prescreveria 
os remdios que a curaram.

Cr um campons haver geado em seu campo por acaso. Mas um filsofo sabe que no existe acaso e que era impossvel, na constituio deste mundo, que precisamente 
naquele dia no geasse precisamente naquele lugar.

H pessoas que, aterrorizadas ante essa verdade, s concordam pela metade, como devedores que oferecem metade aos credores e pedem mora para a outra metade. Existem, 
dizem elas, acontecimentos necessrios e acontecimentos no necessrios. Engraado um mundo metade em ordem metade em desordem. Que parte do que acontece precisava 
acontecer, outra no. Basta chegar-se-lhe um pouco mais o nariz para ver ser absurda semelhante teoria. Mas h muitos indivduos que nasceram para raciocinar mal, 
outros para no raciocinar e outros para perseguir os que raciocinam.

Perguntareis: - E a liberdade? No vos entendo. No sei o que seja essa liberdade de que falais. H tanto tempo discutis acerca de sua natureza que seguramente no 
a conheceis. Se quiserdes, ou melhor, se puderdes examinar calmamente comigo o que se deve entender por essa palavra, saltai  letra L.

DEUS

Imperante Arcdio, Logmacos, teologal de Constantinopla, empreendeu uma viagem  Ctia, e deteve-se ao p do Cucaso, nos frteis plainos de Zefirim, nos trminos 
da Clchida. Estava o bom velho Dondindaque em sua ampla sala baixa, entre seu grande aprisco e a vasta granja. Estava ajoelhado em companhia da mulher, dos cinco 
filhos e cinco filhas, seus pais e seus criados, e cantavam os louvores a Deus aps ligeiro repasto.

- Que fazes, idlatra? - perguntou-lhe Logmacos. - No sou idlatra - retorquiu Dondindaque. - Claro que o s, pois s cita e no grego. Que cantavas em tua brbara 
geringona da Ctia I - Todas as lnguas soam da mesma forma aos ouvidos de Deus. Cantvamo-lhe os louvores. - Eis uma coisa extraordinria! Uma famlia cita que 
ora a Deus sem ter sido instruda por ns! Seguiu-se um dilogo entre o grego Logmacos e o cita Dondindaque, pois o teologal sabia um pouco de cita e o outro um 
pouco de grego. Encontrou-se esse dilogo num manuscrito conservado na biblioteca de Constantinopla

Logmacos

Vejamos se sabes teu catecismo. Por que oras a Deus?

Dondindaque

Justo  que adoremos o Ser Supremo que tudo nos deu.

Logmacos

Oh! Para um brbaro no est mal. E que lhe pedes?

Dondindaque

Agradeo-lhe os bens de que gozo e os males com que lhe apraz provar-me. Abstenho-me porm de pedir-lhe seja o que for. Melhor que ns sabe ele o que nos falta. 
Demais poderia dar-se que quando eu pedisse bom tempo meu vizinho pedisse chuva.

Logmacos

Ah! Logo vi que ia dizer alguma asneira. Passemos a plano mais elevado. Brbaro, quem te disse que Deus existe?

Dondindaque

Toda a natureza.

Logmacos

No basta. Que idia tens do Ser Supremo?

Dondindaque

Que  o meu criador, meu soberano, que me recompensar quando praticar o bem e me castigar quando cometer o mal.

Logmacos

Que frioleiras! Vamos ao essencial - Deus  infinito secundum quid ou segundo a essncia?

Dondindaque

No vos entendo.

Logmacos

Sujeito tapado! Deus est algures ou ao mesmo tempo em tudo e fora de tudo?

Dondindaque

No sei... Como quiserdes.

Logmacos

Ignorante! Pode Deus demover o acontecido? Pode fazer que um basto no tenha duas pontes? Como ver o futuro: como futuro ou como presente? Como faz para tirar 
o ser do nada e para aniquilar o ser?

Dondindaque

Tais coisas nunca me passaram pela cabea.

Logmacos

Que sujeito bronco! Bem, vejo que preciso baixar a trave. Dize-me, meu amigo, achas que a matria possa ser eterna?

Dondindaque

Que me importa que seja eterna ou no? Eu, posso afirmar que no o sou. De qualquer forma, Deus  o meu senhor. Deu-me a noo de justia, devo segui-la. No quero 
ser filsofo, quero ser homem.

Logmacos

So o diabo, essas cabeas duras! Vamos aos poucos: Que  Deus?

Dondindaque

Meu soberano, meu juiz, meu pai.

Logmacos

No  isso o que pergunto. Qual  sua natureza?

Dondindaque

Ser poderoso e bom.

Logmacos

Mas  corporal ou espiritual?

Dondindaque

Como quereis que o saiba?

Logmacos

Arre! No sabes o que  um esprito?

Dondindaque

Nem imagino: de que me serviria isso? Tornar-me-ia acaso mais justo? Seria melhor marido, melhor pai, melhor amo, melhor cidado?

Logmacos

 absolutamente necessrio ensinar-te o que seja esprito. Escuta: , , ... Bem, fica para outra ocasio.

Dondindaque

Muito receio que me fsseis dizer o que ele no . Permiti-me fazer-vos a meu turno uma pergunta. Vi h muito um de vossos templos: por que motivo pintais Deus com 
uma longa barba?

Logmacos

 questo muito complexa, que requer instrues preliminares.

Dondindaque

Antes de receber vossas instrues, vou contar-vos o que me aconteceu certo dia. Eu acabava de fazer construir uma privada no fim de meu jardim, quando ouvi uma 
toupeira conversando com um besouro:

- Eis uma bela fbrica! - dizia a toupeira. - Deve ser uma toupeira bem poderosa o autor dessa obra. - Gracejais - respondeu o besouro. - Bem sabeis que foi um besouro, 
um besouro genial o arquiteto desse edifcio.

Desde ento resolvi nunca discutir.
ESCALA DOS SERES

A primeira vez em que li Plato e observei essa gradao de seres desde o mais nfimo tomo at o Ser Supremo, essa escala impressionou-me fundamente. Considerando-a 
porm atentamente, esvaeceu-se o grande fantasma, como outrora fugiam as aparies ao canto do galo.

De princpio compraz-se a imaginao em ver a transio imperceptvel da matria bruta  matria organizada, das plantas aos zofitos, dos zofitos aos animais, 
dos animais ao homem, do homem aos gnios, dos gnios revestidos de corpo areo a substncias imateriais, e enfim mil ordens diferentes dessas substncias que, de 
belezas a perfeies, se escadeiam at Deus. Essa hierarquia  muito do gosto dos ingnuos, que vem o papa e seus cardeais seguidos dos arcebispos e bispos, aps 
quem vm os curas, os vigrios, os simples padres, os diconos, os subdiconos, os frades e finalmente, fechando a coluna, os capuchinhos.

Porm h um pouco mais de distncia entre Deus e suas mais perfeitas criaturas que entre o santo padre e o decano do sacro colgio. O decano pode vir a ser papa, 
enquanto o mais perfeito dos gnios criados pelo Ser Supremo jamais poder vir a ser Deus. Entre Deus e ele h o infinito.

To pouco entre os animais e vegetais se verifica essa pretensa escala ou gradao. Prova est em existirem plantas e animais extintos. J no temos mrices. Era 
proibido entre os judeus comer o grifo e o ixio, espcies hoje desaparecidas, diga o que disser o Sr. Bochart. Onde ento escala?

Ainda que no se houvessem extinto algumas espcies, patente  que isso pode acontecer. Os lees, os rinocerontes comeam a rarear.

Muito provavelmente existiram raas humanas hoje desaparecidas. Quero crer contudo que todas hajam subsistido, da mesma forma como os brancos, negros, cafres, a 
quem a natureza deu um avental da prpria pele, caindo do ventre ao meio das coxas; os samoiedas, cujas mulheres tm um mamilo de belo bano, etc.

No h visivelmente um vazio entre o macaco e o homem? No  fcil imaginar um bpede implume que seria inteligente sem usar da palavra nem ter o nosso aspecto, 
que poderamos domesticar, que correspondesse aos nossos macacos e nos servisse? E entre essa nova espcie e o homem no poderamos conceber outras?

Acima do homem colocais no cu, vs, divino Plato, uma srie de substncias celestes. Cremos ns outros em algumas dessas substncias porque no-lo ensina a f. 
Mas vs, que razo tendes para cr-las? At parece que no falastes ao gnio de Scrates, e que o simplrio Heres, expressamente ressurreto para vos pr ao corrente 
dos segredos do outro mundo, nada vos tenha ensinado acerca de tais substncias.

A pretensa escala no  menos descontnua no mundo sensvel. Que gradao - pergunto - h entre os vossos planetas? A Lua  quarenta vezes menor que o nosso
globo. Vnus  quase do tamanho da Terra. Mercrio descreve uma elipse muito diferente da circunferncia percorrida por Vnus e  vinte e sete vezes menor que ns. 
O Sol  um milho de vezes maior que o planeta em que vivemos, Marte cinco vezes menor. Marte completa seu giro em dois anos, Jpiter, seu vizinho, em doze, Saturno, 
o mais afastado de todos, conquanto menor que Jpiter, em trinta. Onde a tal gradao?

Depois, como quereis que em imensos espaos vazios haja uma cadeia que tudo ligue? Se alguma cadeia existe,  certamente a descoberta por Newton.  ela que faz todos 
os globos do mundo planetrio gravitarem uns em torno dos outros no vcuo infinito.

Admirado Plato, vs no contastes mais que fbulas! Na ilha de Cassitrides, onde em vosso tempo os homens viviam completamente nus, nasceu um filsofo que ensinou 
aos homens verdades to grandes quanto pueris eram vossos devaneios.

ESTADOS, GOVERNOS

Qual o melhor? - At o presente no conheci quem no tenha governado algum estado. No falo dos ministros que governam efetivamente, uns dois ou trs anos, outros 
seis meses, outros seis semanas. Falo de todos esses senhores que,  hora das refeies ou em seus gabinetes, expem seu sistema de governo, reformando os exrcitos, 
a igreja, a magistratura e as finanas.

O abade de Bourzeis meteu-se a governar a Frana pelo ano de 1645, sob o nome do cardeal de Richelieu, e escreveu seu Testamento Poltico, no qual procurou arrolar 
a nobreza na cavalaria por trs anos, fazer pagar a talha aos tribunais de contas e aos parlamentos e privar o rei do produto dos seus impostos sobre o consumo. 
Afirma ele que, para entrar em campanha com cinqenta mil homens, por economia  preciso levar cem mil. Assevera que s a Provena tem mais belos portas de mar que 
a Espanha e Itlia juntas

O abade de Bourzeis no tinha viajado. Alis sua viagem acha-se repleta de anacronismos e erros. Faz o cardeal de Richelieu assinar como nunca assinou e falar como 
nunca falou. E gasta um captulo inteiro para dizer que a razo deve ser a pauta do estado, e a se esforar por provar essa descoberta. Essa obra das trevas, esse 
bastardo do abade de Bourzeis passou muito tempo por filho legtimo do cardeal de Richelieu. E todos os acadmicos, em seus discursos de recepo, no deixavam de 
louvar desmedidamente essa obra prima de poltica.

O senhor Gatien de Courtilz, vendo o extraordinrio sucesso do Testamento Poltico de Richelieu, fez imprimir em Haia o Testamento de Colbert, com uma pomposa carta 
do senhor Colbert ao rei. Est claro que se esse ministro tivesse feito semelhante testamento, seria preciso interdiz-lo; entretanto, esse livro foi citado por 
alguns autores.

Outro velhaco cujo nome se ignora partejou o Testamento de Louvois, pior ainda, se possvel, que o de Colbert. E um abade de Chevremont tambm fez testar Carlos, 
duque de Lorena( 27).
O senhor de Bois Guillebert, autor do Dtail de la France, impresso em 1695, apresenta o projeto inexeqvel do dzimo real sob o nome do marechal de Vauban( 28).

Um louco sem eira nem beira chamado La Jonchre escreveu em 1720 um projeto de finana em 4 volumes. E alguns parvos citaram essa produo como obra de La Jonchre, 
o tesoureiro geral, imaginando que um tesoureiro no pode escrever um mau livro de finanas.

Mas  preciso convir em que homens avisados, dignos sem dvida de governar, tm escrito sobre a administrao dos estados, seja na Frana, na Espanha ou na Inglaterra. 
Seus livros tm feito muito bem: no porque hajam corrigido os ministros ento no governo, j que um ministro no se corrige de modo algum nem pode ser corrigido: 
 rvore j muito crescida; basta de instrues, basta de conselhos; escasseia-lhe tempo para os ouvir, arrasta-o a corrente dos negcios. Mas esses bons livros 
formam a juventude destinada aos cargos. Formam os prncipes, e a segunda gerao  instruda.

Ultimamente tem sido examinado de perto o forte e o fraco dos governos. Dizei-me, vs que haveis viajado, vivestes e vistes, sob que espcie de governo desejareis 
ter nascido? Compreendo que um grande proprietrio de terra, na Frana, no desgostaria de haver nascido na Alemanha: seria soberano em vez de vassalo. A um par 
de Frana muito agradariam os privilgios do pariato ingls: seria legislador.

O magistrado e o financeiro achar-se-iam melhor em Frana que alhures. Mas que ptria escolheria um homem sbio, livre, um homem de fortuna medocre e sem preconceitos?

Um membro do conselho de Pondichry, senhor de slida cultura, voltou  Europa por terra em companhia de um brmane mais instrudo do que o comum dos brmanes.

- Que tal achais o governo do gro mogol? - perguntou o conselheiro. - Abominvel - respondeu o brmane. - Como quereis que um estado seja bem governado pelos trtaros? 
Nossos rajas, nossos omrs, nossos nababos esto muito contentes; mas os cidados muito ao contrrio, e milhes de cidados so alguma coisa.

O conselheiro e o brmane percorreram, conversando, toda a alta sia. - Cheguei a uma concluso - disse o brmane: - que no existe sequer uma repblica em toda 
esta vasta parte do mundo.

- Houve outrora a de Tiro, - retrucou o conselheiro - mas no durou muito. Houve ainda outra, perto da Arbia Ptrea, num recanto denominado Palestina, se  que 
se pode honrar com o nome de repblica uma horda de ladres e de onzeneiros governados ora por juizes, ora por espcies de reis, ora por grandes pontfices, escravizados 
sete ou oito vezes e enfim expulsos do pas que usurparam.

- Julgo, - disse o brmane - que no deve haver sobre a terra seno pouqussimas repblicas.
Raramente so os homens dignos de se governar por si mesmos. Tal felicidade no deve pertencer seno a povos pequenos, que se insulem em ilhas ou entre montanhas, 
como coelhos a se esconderem dos carnvoros. Mas sempre acabam sendo descobertos e devorados.

Quando os dois viajantes chegaram  sia Menor, perguntou o conselheiro ao brmane: - Acreditareis ter existido uma repblica formada num canto da Itlia, que durou 
mais de quinhentos anos e possuiu esta sia Menor, sia, frica, Grcia, Glias, Espanha e toda a Itlia?

- Ento, cedo se transformou em monarquia? - perguntou o brmane. - Adivinhastes - respondeu o outro; - porm essa monarquia caiu e vivemos a fazer empoladas dissertaes 
para encontrar a causa de sua decadncia.

- Perdeis vosso tempo inutilmente, - disse o hindu: - esse imprio caiu porque existia. Tudo cai. Espero que assim acontea tambm ao imprio da Monglia.

- A propsito - disse o europeu. Julgais ser necessrio mais honra num estado desptico e mais virtude numa repblica? - Tendo feito com que se lhe explicasse o 
que se entende por honra, respondeu o hindu ser de opinio que ela era mais necessria numa repblica, e a virtude a mais precisa num estado monrquico.

- Porque - explicou - um homem que pretenda ser eleito pelo povo no o ser se no for honrado. Ao passo que na corte poder obter facilmente um cargo, segundo a 
mxima de um grande prncipe, que disse que para o conseguir no deve o corteso ter honra nem humor. Com respeito  virtude,  preciso te-la muita numa corte para 
ousar dizer a verdade. O homem virtuoso est bem mais  vontade na repblica, por no precisar bajular ningum.

- Acreditais - interrogou o europeu - que as leis e religies sejam feitas para os climas assim como os agasalhos forrados para Moscou e os tecidos de gaza para 
Del?

- Sim, sem dvida - disse o brmane. Todas as leis que concernem o fsico so calculadas pelo meridiano em que se habita; para um alemo basta uma mulher, um persa 
precisa de trs ou quatro. Da mesma natureza so os ritos da religio. Como desejareis que eu, se fosse cristo, dissesse a missa em minha provncia, onde no h 
po nem vinho? Quanto aos dogmas, o caso  outro: o clima nada faz. Vossa religio no nasceu na sia, de onde foi expulsa? No subsiste no Mar Bltico, onde era 
desconhecida?

- Em que estado, sob que domnio preferireis viver? - perguntou o conselheiro. - Em qualquer parte que no a minha terra, - respondeu o companheiro - e encontrei 
muitos siameses, tonquineses, persas e turcos que diziam outro tanto.

-. Mas, - ainda uma vez disse o europeu - que estado escolhereis? - Respondeu o brmane: - Aquele onde apenas se obedecesse s leis.
-  uma velha resposta, - argiu o conselheiro. - E no  m - disse o brmane. - Onde fica esse pas? - perguntou o conselheiro. -  de mister procur-lo - respondeu 
o brmane.

EZEQUIEL (DE)

De alguns passos singulares desse profeta e de alguns hbitos antigos Sabe-se hoje muito bem que no se devem julgar os costumes antigos pelos modernos. Quem desejasse 
reformar a corte de Alcinos, na Odissia, tomando como modelo a do gro turco ou a de Lus XIV, no seria bem recebido pelos sbios. Quem reprovasse a Virglio o 
haver representado o rei Evandro coberto com uma pele de urso e acompanhado de dois ces para receber os embaixadores, seria um mau crtico.

Os costumes dos judeus de antanho so ainda mais diferentes dos nossos que aqueles do rei Alcinos, de Nausica, de sua filha e do bonacheiro Evandro.

Ezequiel, escravo dos caldeus, teve uma viso perto do ribeiro de Cobar, que se perde no Eufrates. No nos devemos admirar de que ele tenha visto animais de quatro 
faces e quatro asas, com ps de bezerro, nem das rodas que caminhavam por si mesmas e continham o esprito da vida: esses smbolos at agradam  imaginao. Mas 
vrios crticos se revoltaram contra a ordem que lhe deu o Senhor de comer durante trezentos e noventa dias, po de cevada, de frumento e de milho, coberto de excremento.

- Irra! - exclamou o profeta. - Minh'alma at hoje no tinha sido poluda. Respondeu-lhe o Senhor: - Pois bem, eu te darei estrume de boi em lugar de excrementos 
humanos, e tu comers teu po com esse estrume.

Visto no ser absolutamente de uso comer tais confeitos com o po, a maioria dos homens acha essas ordens indignas da majestade divina. Entretanto, deve-se lembrar 
que o estrume de vaca e os diamantes do gro mogol so perfeitamente iguais, no s ante os olhos de um ser divino mas tambm aos do verdadeiro filsofo. Com respeito 
s razes que Deus poderia ter para impor ao profeta um tal almoo, no nos cabe procur-las. Basta fazer ver que essas ordens, que nos parecem estranhas, no se 
afiguraram tais aos judeus.
 verdade que a sinagoga no permitia, no tempo de S. Jernimo, a leitura de Ezequiel antes da idade de trinta anos. Mas isso porque no captulo 18 ele diz que os 
filhos no arcaro com a iniqidade dos pais e que j no se dir: os pais comeram razes verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados.

Nesse ponto ele se achava em contradio com Moiss, que no captulo 28 dos Nmeros afirma que os filhos sofrem a iniqidade dos pais at terceira e quarta gerao.

Ezequiel, no captulo 20, faz ainda dizer ao Senhor ter ele dado aos judeus preceitos que no so bons. Eis por que a sinagoga interdisse aos jovens uma leitura 
que poderia pr em dvida a irrefragabilidade das leis de Moiss.

Aos censores de nossos dias, ainda mais os surpreende o captulo 26 de Ezequiel: eis como o profeta se arranja para fazer conhecer os crimes de Jerusalm. Ele apresenta 
o Senhor dizendo a uma moa:

" Quando nascestes, ainda no vos tinham cortado o cordo umbilical, ainda no reis batizada, estveis completamente nua, eu me apiedei de vs; depois crescestes, 
vosso seio se formou, vossas axilas cobriram-se de veios; eu passei, eu vos vi, eu compreendi que era o tempo dos amantes; eu cobri vossa ignomnia; estendi por 
sobre vs o meu manto; viestes a mim; eu vos lavei, perfumei, vesti bem e bem aqueci; dei-vos um chale de l, braceletes, um colar; eu vos pus jias no nariz, brincos 
nas orelhas e uma coroa na fronte, etc.

" Ento, confiando em vossa beleza, fornicastes por vossa conta com todos os passantes... E trilhastes um mau caminho... e vos prostitustes at nas praas pblicas 
e abristes as pernas a todos os passantes... e vos deitastes com os egpcios... e enfim pagastes amantes e lhes fizestes presentes a fim de que se deleitassem com 
outras moas. O provrbio : Tal me, tal filha; e  isso que se diz de vs, etc."

Ainda com maior indignao se insurgem contra o captulo 28. Uma me tinha duas filhas que perderam muito cedo a virgindade; a maior chamava-se Oola e a menor Ooliba. 
"... Oola era louca pelos jovens senhores, magistrados, cavaleiros; deitou-se com egpcios desde a mais tenra mocidade... Ooliba, sua irm, fornicou mais ainda com 
oficiais, magistrados e cavaleiros bem parecidos; descobriu sua vergonha e multiplicou suas fornicaes. Procurou com arrebatamento os abraos daqueles cujo membro 
se parece com o de um asno e que expandem a sua semente como cavalos..."

Essas descries que escandalizam tantos espritos fracos no significam, entretanto, seno as iniqidades de Jerusalm e de Samaria; as expresses que nos parecem 
livres no o eram ento. A mesma franqueza aparece sem receio em mais de um ponto das Escrituras. Fala-se freqentemente em abrir a vulva. Os termos de que elas 
se servem para explicar o contato de Booz com Rute, de Judas com sua nora, no so desonestos em hebreu, mas se-lo-iam em nossa lngua.

No se usa vu quando no se tem vergonha de sua nudez. Como  possvel que se ruborizasse uma pessoa nos tempos passados ao ouvir falar dos rgos genitais, quando 
era costume toc-los queles a quem se fazia alguma promessa? Era um sinal de respeito, um smbolo de fidelidade, como outrora entre ns punham os senhores feudais 
suas mos entre as dos seus senhores soberanos.

Traduzimos os testculos por coxa. Eliezer pousa a mo sobre a, coxa de Abrao; Jos pousa a mo sobre a coxa de Jac. Esse costume era antiqssimo no Egito. Os 
egpcios estavam to longe de ligar 
ignomnia coisas que ns no ousamos nem descobrir nem nomear, que conduziam em procisso uma grande figura do membro viril chamada phallum, para agradecer aos deuses 
a bondade demonstrada em fazer servir esse membro  propagao do gnero humano.

Todos esses fatos provam bem que nossos decoros no so os mesmos dos outros povos. Em que tempo houve entre os romanos maior polidez do que no sculo de Augusto? 
Entretanto, Horcio no tergiversou em dizer numa pea moral:

Nec vereor ne, dum futuo, vir rure recurrat( 29). Um homem que entre ns pronunciasse a palavra correspondente a futuo seria considerado um bbado indecente; essa 
e vrias outras palavras de que se servem Horcio e outros autores nos parecem ainda mais indecorosas do que as expresses de Ezequiel. Desfaamo-nos de nossos preconceitos 
quando lermos autores antigos ou quando viajarmos por naes longnquas. A natureza  a mesma em toda parte e os costumes em toda parte diferentes.

FBULAS

No so as mais antigas fbulas visivelmente alegricas? A primeira que conhecemos dentro de nossa maneira de calcular o tempo no  aquela que vem no nono captulo 
do livro dos Juizes? Tratava-se de escolher um rei entre as rvores; a oliveira no queria abandonar o cuidado do seu azeite, nem a figueira o de seus figos, nem 
a vinha o de seu vinho, nem as outras rvores o de seus frutos; o espinheiro, que nada tinha de bom, tornou-se rei, porque tinha espinhos e podia praticar o mal

A antiga fbula de Vnus, tal como a relata Hesodo, no  uma alegoria de toda a natureza? As partes da gerao caram do ter s costas do mar; Vnus nasce dessa 
escuma preciosa; seu primeiro nome  o de amante da gerao: existir imagem mais sensvel Vnus  a deusa da beleza; a beleza deixa de ser amada se caminhar sem 
as graas; a beleza faz nascer o amor; o amor tem qualidades que trespassam os coraes; leva uma venda que esconde os defeitos do objeto amado.

A sabedoria  concebida no crebro do senhor dos deuses sob o nome de Minerva; a alma do homem  um fogo divino que Minerva mostra a Prometeu, que se serve desse 
fogo divino para animar o homem.

 impossvel deixar de reconhecer nessas fbulas uma pintura viva de toda a natureza. A maioria das outras fbulas so ou corrupes de histrias antigas ou caprichos 
da imaginao. Sucede com as antigas fbulas o mesmo que com os nossos contos modernos: h as morais que so encantadoras; outras so inspidas.

FALSIDADE DAS VIRTUDES HUMANAS
Quando o duque de La Rochefoucaud escreveu os seus pensamentos sobre o amor prprio, pondo a descoberto esse impulso do homem, um senhor Esprito, do Oratrio, escreveu 
um livro capcioso intitulado: Da falsidade das virtudes humanas. Diz esse Esprito que a virtude no existe; mas, por graa termina cada captulo reconsiderando 
a caridade crist. Assim, segundo o senhor Esprito, nem Cato, nem Aristides, nem Marco Aurlio, nem Epicteto foram pessoas de bem; estas apenas podem ser encontradas 
entre os cristos. Entre os cristos, apenas os catlicos so virtuosos ; entre os catlicos seria ainda necessrio excetuar os jesutas, inimigos dos oratorianos; 
portanto a virtude no se acha seno entre os inimigos dos jesutas.

Esse senhor Esprito comea por dizer que a prudncia no  uma virtude, e a razo  o ser freqentemente enganada.  como se se dissesse que Csar no foi um grande 
capito por ter sido derrotado em Dirrquio.

Se o senhor Esprito fosse um filsofo, no teria examinado a prudncia como uma virtude e sim como um talento, como uma qualidade til, feliz: pois um celerado 
pode ser prudente e eu conheci gente dessa espcie. Que infmia pretender que ningum pode ter virtude seno ns e nossos amigos! ( 30).

Que  a virtude, meu amigo?  praticar o bem: pratiquemo-lo e ser o suficiente. Ento, ns te explicaremos o motivo. Como! Segundo teu modo de ver no existiria 
nenhuma diferena entre o presidente de Thou e Ravaillac, entre Ccero e esse Poplio ao qual ele salvou a vida e que lhe cortou a cabea por dinheiro? E considerars 
Epicteto e Porfrio libertinos por terem seguido os nossos dogmas? Tamanha insolncia revolta. E no vou adiante para no perder as estribeiras.

FANATISMO

Fanatismo  para a superstio o que o delrio  para a febre, o que  a raiva para a clera. Aquele que tem xtases, vises, que considera os sonhos como realidades 
e as imaginaes como profecias  um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte  um fantico. Joo Diaz, retirado em Nuremberg, firmemente convicto 
de que o papa  o Anticristo do Apocalipse e que tem o signo da besta, no era mais que um entusiasta; Bartolomeu Diaz, que partiu de Roma para ir assassinar santamente 
o seu irmo e que efetivamente o matou pelo amor de Deus, foi um dos mais abominveis fanticos que em todos os tempos pde produzir a superstio.

Polieuto, que vai ao templo num dia de solenidade derrubar a destruir as esttuas e os ornamentos,  um fantico menos horrvel do que Diaz, mas no menos tolo. 
Os assassinos do duque Francisco de Guise, de Guilherme, prncipe de Orange, do rei Henrique III, do rei Henrique IV e de tantos outros foram energmenos enfermos 
da mesma raiva de Diaz

O mais detestvel exemplo de fanatismo  aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despedaar, na noite de So Bartolomeu, 
seus concidados que no iam  missa. H fanticos de sangue frio: so os juizes que condenam  morte aqueles cujo nico crime  no pensar como eles; e esses juizes 
so tanto mais culpados, tanto mais merecedores da execrao do gnero humano, quanto, no estando tomados de um acesso de furor como os Clment, os Chatl, os
Ravaillac, os Grard, os Damien, parece que poderiam ouvir a razo. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um crebro a doena  quase incurvel. Eu vi convulsionrios 
que, falando dos milagres de S. Pris, sem querer se acaloravam cada vez mais; seus olhos encarniavam-se, seus membros tremiam, o furor desfigurava seus rostos 
e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.

No h outro remdio contra essa doena epidmica seno o esprito filosfico que, progressivamente difundido, adoa enfim a ndole dos homens, prevenindo os acessos 
do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos,  preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religio no bastam contra a peste das almas; 
a religio, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos crebros infeccionados. Esses miserveis tm incessantemente presente no esprito 
o exemplo de Aode, que assassina o rei Eglo; de Judite, que corta a cabea de Holoferne quando deitada com ele; de Samuel, que corta em pedaos o rei Agague. Eles 
no vem que esses exemplos respeitveis para a antigidade so abominveis na poca atual; eles haurem seus furores da mesma religio que os condena.

As leis so ainda muito impotentes contra tais acessos de raiva;  como se lsseis um aresto do Conselho a um frentico. Essa gente est persuadida de que o esprito 
santo que os penetra est acima das leis e que o seu entusiasmo  a nica lei a que devem obedecer.

Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que, consequentemente, est certo de merecer o cu se vos degolar?

De ordinrio, so os velhacos que conduzem os fanticos e que lhes pem o punhal nas mos: assemelham-se a esse Velho da Montanha que fazia - segundo se diz - imbecis 
gozarem as alegrias do paraso e que lhes prometia uma eternidade desses prazeres que lhes havia feito provar com a condio de assassinarem todos aqueles que ele 
lhes apontasse. S houve uma religio no mundo que no foi abalada pelo fanatismo,  a dos letrados da China. As seitas dos filsofos estavam no somente isentas 
dessa peste como constituam o remdio para ela: pois o efeito da filosofia  tornar a alma tranqila e o fanatismo  incompatvel com a tranqilidade. Se a nossa 
santa religio tem sido freqentemente corrompida por esse furor infernal,   loucura humana que se deve culpar.

Assim, das asas que teve, caro perverteu o uso; teve-as para seu bem e as empregou em seu dano. (Bertaud, bispo de Sez).

FIM, CAUSAS FINAIS

Parece que seria preciso estar fora de si para negar que os estmagos sejam feitos para digerir, os olhos para ver e os ouvidos para ouvir. De outro lado,  preciso 
ter um estranho amor s causas finais para afirmar que a pedra foi feita para construir casas e que os bichos da seda nasceram na China para
que tenhamos cetim na Europa. Mas, objeta-se, se Deus fez visivelmente uma coisa preconcebida, fez portanto todas as outras com um desgnio.  ridculo admitir a 
Providncia num caso e neg-la em outros. Tudo o que est feito foi previsto, coordenado. Nenhuma coordenao h sem objeto, nenhum efeito sem causa; portanto tudo 
 igualmente o resultado, o produto de uma causa final; portanto  to verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para levar lunetas e os dedos para ser ornados 
de diamantes quanto  verdade que os ouvidos foram feitos para ouvir os sons e os olhos para receber a luz.

Creio ser muito fcil esclarecer essa dificuldade. Quando os efeitos so invariveis em todo lugar e em todos os tempos, quando esses efeitos uniformes so independentes 
dos seres a que pertencem, ento existe uma causa final visvel.

Todos os animais tm olhos, e enxergam; todos tm uma boca com a qual comem; um estmago ou coisa semelhante, pelo qual digerem; todos, um orifcio que expele os 
excrementos, todos um rgo gerador: e esses dons da natureza operam neles sem auxlio de meios artificiais. Eis ai causas finais claramente estabelecidas, e seria 
perverter nossa faculdade de pensar pretender negar uma verdade to universal. Porm as pedras, em toda parte e em todos os tempos, no fazem construes. Nem todos 
os narizes levam lunetas. Nem todos os dedos tm anel; nem todas as pernas so cobertas por uma meia de seda. Um bicho de seda, portanto, no foi criado para cobrir 
as pernas assim como a vossa boca foi feita para comer e vosso posterior para ir  secreta. Existem, pois, efeitos produzidos por causas finais e grande nmero de 
outros que no o so.

Porm tanto uns como outros figuram igualmente no plano da providncia geral: nada sem dvida pode ser feito mau grado seu, nem mesmo sem ela. Tudo que pertence 
 natureza  uniforme, imutvel,  obra imediata do Senhor; foi ele quem criou leis pelas quais a Lua entra em trs quartos nas causas do fluxo e do refluxo do oceano 
e o Sol no quarto; foi ele que deu movimento de rotao ao Sol, mediante o qual esse astro envia, em cinco minutos e meio, raios de luz aos olhos dos homens, dos 
crocodilos e dos gatos.

Mas se depois de tantos sculos ns nos lembramos de inventar tesouras e espetos, de tosquiar com umas a l dos carneiros e de os cozer com os outros para com-los, 
que outra coisa se pode inferir seno. que Deus nos fez de modo que um dia nos tornssemos necessariamente industriosos e carniceiros?

Naturalmente os cordeiros no foram feitos de forma alguma para ser cozidos e comidos, porquanto grande nmero de naes se abstm dessa coisa horrorosa; os homens 
no foram criados essencialmente para se chacinarem, pois os brmanes e os quakers no matam ningum; mas a massa de que somos feitos produz morticnios freqentes, 
assim como produz calnias, vaidades, persecues e impertinncias. No que a formao do homem seja precisamente a causa final de nossos furores e de nossas tolices: 
porque uma causa final  invarivel em todos os tempos e lugares; porm os horrores e os absurdos da espcie humana no figuram menos na ordem eterna das coisas. 
Quando batemos o trigo, o batedor  a causa final da separao do gro. Mas se esse batedor, batendo o gro, esmaga tambm milhares de insetos, no  por nossa vontade 
determinada, nem to pouco por acaso:  que esses insetos se encontraram nessa ocasio sob o nosso cacete e a deviam estar.

 em virtude da natureza das coisas que um homem  ambicioso, que esse homem arregimenta
algumas vezes outros homens, que seja vencedor ou que seja batido; mas jamais se poder dizer: o homem foi criado por Deus para ser morto na guerra.

Os instrumentos que a natureza nos deu no podem ser sempre causas finais em movimento, que tenham efeito infalvel. Os olhos, dados para ver, no esto sempre abertos; 
cada sentido tem seus momentos de repouso. Existem at sentidos que nunca usamos. Por exemplo, uma pobre imbecil, encerrada num convento aos catorze anos, fecha 
para si a porta de onde deveria sair uma nova gerao, para sempre; mas a causa final no deixa de subsistir, ela agir logo que seja livre.

FRAUDE

Se  preciso usar de fraudes piedosas com o povo. O faquir Bambabefe encontrou um dia um dos discpulos de Cong- fu-tseu, que chamamos Confcio, e esse discpulo 
chamava-se Uang; e Bambabefe sustinha que o povo tem necessidade de ser enganado, e Uang pretendia que jamais se deve enganar quem quer que seja; e eis em resumo 
a sua disputa.

Bambabefe

 preciso imitar o Ente Supremo, que no nos mostra as coisas tais como so; ele nos faz ver o Sol sob um dimetro de dois ou trs ps, no obstante esse astro ser 
um milho de vezes maior do que a Terra; ele nos faz ver a Lua e as estrelas deitadas sobre um mesmo fundo azul, enquanto na realidade esto a distncias diferentes; 
quer que uma torre quadrada nos parea redonda de longe; quer que o fogo nos parea quente, apesar de no ser nem frio nem quente; enfim ele nos cerca de erros convenientes 
a nossa natureza.

Uang

Isso a que chamais erro no o  absolutamente. O Sol, tal como est colocado a milhes de milhes de lguas alm do nosso globo, no  o que vemos. Realmente, ns 
no percebemos, nem podia deixar de s-lo, seno o Sol que se grava em nossa retina, sob um ngulo determinado. Nossos olhos no nos foram dados para conhecermos 
as grandezas e as distncias; so precisos outros recursos e operaes para conhec-las.

Bambabefe ficou muito admirado dessas proposies. Uang, que era muito paciente, explicou-lhe a teoria da tica; e Bambabefe, que tinha um certo tino, rendeu-se 
 evidncia das demonstraes do discpulo de Cong- fu-tseu; em seguida reencetou a disputa nestes termos:

Bambabefe

Se Deus no nos engana quanto aos nossos sentidos, como eu pensava, deveis convir ao menos em que os mdicos enganam sempre as crianas para o seu prprio bem: dizem-lhes 
que lhes esto dando acar, e na realidade trata-se de ruibarbo. Portanto, meu caro faquir, posso muito bem enganar o povo, que  to ignorante como as crianas.

Uang

Tenho dois filhos e jamais os enganei; disse-lhes quando estiveram doentes: "Eis um remdio muito amargo,  preciso ter coragem para tom-lo; se fosse doce vos faria 
mal". Nunca admiti que suas amas e seus preceptores lhes metessem medo contando-lhes histrias de feitiarias;  assim que os criei, como cidados corajosos e sbios.

Bambabefe

O povo no nasceu to feliz como vossa famlia.

Uang

Todos os homens se parecem; nasceram com as mesmas disposies. Os faquires  que corrompem a natureza dos homens

Bambabefe

Ensinamos-lhes muitos erros, reconheo-o; mas  para o seu prprio bem. Fazemo-lhes crer que se no comprarem nossos cravos bentos, se no expiarem seus pecados 
dando-nos dinheiro, tornar-se-o, na outra vida, cavalos de posta, ces ou lagartos: isto os intimida, e ento eles se tornam pessoas de bem.

Uang

Mas no percebeis que dessa forma perverteis essa pobre gente? Existem entre o povo, mais do que se pensa, pessoas que raciocinam, que zombam de vossos cravos, de 
vossos milagres, de vossas supersties, que vem muito bem que no se iro transformar nem em lagartos nem em cavalos de posta. Que acontece? Elas tm bastante 
bom senso para ver que vs lhes pregais uma religio impertinente, e no o tm, entretanto, suficiente para se elevar numa religio pura e isenta de supersties 
como  a nossa. Suas paixes lhes fazem pensar que no existe religio, uma vez que a nica que lhes ensinam  ridcula; tornai-vos pois culpado de todos os vcios 
aos quais elas se atiram.

Bambabefe

De forma alguma, porquanto ns apenas lhes ensinamos uma boa moral.

Uang

Sereis lapidado pelo povo se lhe ensinsseis uma moral impura. Os homens so feitos de forma tal que querem cometer o mal mas no admitem que lho preguemos. Seria 
simplesmente necessrio no imiscuir uma sbia moral com fbulas absurdas, pois enfraqueceis com vossas imposturas, de que podereis vos abster, essa moral que sois 
forados a ensinar.

Bambabefe

Como! Julgais que se pode ensinar a verdade ao povo sem a sustentar pelas fbulas?

Uang

Creio-o firmemente. Nossos letrados so da mesma massa que nossos alfaiates, tintureiros e camponeses. Adoram um Deus criador, remunerador e vingador Eles no contaminam 
o seu culto com sistemas absurdos nem cerimnias extravagantes; e h muito menos crimes entre os letrados que entre o povo. Por que no nos dignarmos instruir nossos 
operrios como instrumos nossos letrados?

Bambabefe

Cometereis uma grande tolice;  como se pretendsseis que eles tivessem a mesma polidez, que fossem jurisconsultos: isso no  possvel nem conveniente.  preciso 
que exista po branco para os amos e po negro para os domsticos.

Uang

Reconheo que nem todos os homens devam ter os mesmos conhecimentos; mas h coisas necessrias a todos.  necessrio que cada um seja justo, e a maneira mais segura 
de inspirar a justia a todos os homens  inspirar-lhes a religio sem superstio.

Bambabefe

 um belo projeto, mas impraticvel. Julgais que seja suficiente aos homens acreditar num Deus que puna e recompense? Vs me dissestes acontecer freqentemente que 
os mais avisados entre o povo se revoltam contra minhas fbulas; da mesma forma se revoltaro contra vossa verdade. Diro: Quem me pode assegurar que um Deus pune 
a recompensa? Onde est a prova? Que misso tendes? Que milagre fizestes para que eu vos creia? Eles zombaro de vs muito mais do que de mim

Uang

Eis o vosso erro. Imaginais que ho de sacudir o jugo de uma idia honesta, verossmil, til a toda gente, uma idia que est em perfeito acordo com a razo humana, 
por que se rejeitam as coisas indecorosas, absurdas, inteis, nocivas, que fazem fremir o bom senso.

O povo est sempre muito disposto a crer nos magistrados: quando seus magistrados no lhe propem seno uma crena razovel, aceita-a de boa vontade; essa idia 
 muito natural para ser combatida. No  necessrio dizer precisamente como  que Deus punir e recompensar; basta que se creia em sua justia. Asseguro vos que 
vi cidades inteiras que no tinham outro dogma, e so tambm aquelas onde mais encontrei a virtude.

Bambabefe

Tomai tento; encontrareis nessas cidades filsofos que vos negaro tanto as penas como as recompenses.

Uang

Devereis dizer que tais filsofos negariam ainda com maior vigor vossas invenes; assim nada lucrais nesse ponto. Quando mesmo existissem filsofos que no estivessem 
em acordo com meus princpios, no deixariam de ser pessoas de bem; no deixariam de cultivar a virtude, que dever ser abraada por amor, e no por medo. Mas afirmo-vos 
que filsofo algum jamais estar plenamente certo de que a Providncia no reserve castigos aos maus e recompensas aos bons; porque se eles me perguntarem quem me 
disse que Deus pune, eu lhes perguntarei quem lhes disse que Deus no pune. Enfim, asseguro-vos que os filsofos me auxiliaro, longe de me contradizerem. Quereis 
ser filsofo?

Bambabefe

Com todo gesto; no o digais porm aos faquires.

FRONTEIRAS DO ESPRITO HUMANO

Esto em toda parte, meu pobre doutor. Queres saber por que teus ps obedecem a tua vontade e teu fgado no? Desejas saber como se forma o pensamento em teu miservel 
entendimento e esta criana no tero desta mulher? Dou-te tempo para me responderes. Que  a matria? Dez mil tratados escreveram teus colegas em torno do assunto. 
Encontraram algumas qualidades dessa substncia: as crianas conhecem-nas tanto como tu. Mas afinal que  essa substncia? E que vem a ser isso que batizaste de 
esprito, do vocbulo latino que quer dizer sopro, no lhe dando nome melhor por no teres a menor idia do que seja?

Olha este gro de trigo que lano  terra e dize-me como cresce para produzir uma haste apendoada de uma espiga. Explica-me como a mesma terra produz uma ma no 
alto daquela arvore e naqueloutra uma castanha. Poderia desfiar-te um inflio de

perguntas a que no deverias responder seno por estas palavras: Nada sei. No entanto tu colaste grau, arreias chapu alto e envergas nasculos, e te chamam mestre.

E aquele outro impertinente, por ter comprado um cargo, presume haver comprado o direito de julgar e condenar o que no entendei A divisa de Montaigne era: Que sei 
eu? A tua : Que no sei eu?
GLRIA

Ben al Betif, digno chefe dos dervs, disse-lhes um dia: "Meus irmos, muito conveniente  que useis com toda freqncia esta frmula sagrada do nosso Alcoro: Em 
nome de Deus mui misericordioso, pois Deus usa de misericrdia e vs aprendereis a pratic-la com repetir freqentemente os termos que recomendam uma virtude sem 
a qual poucos homens restariam sobre a terra. Mas, meus irmos, abstende-vos de imitar esses temerrios que a todo transe se jactam de trabalhar pela glria de Deus. 
Se um jovem imbecil sustenta uma tese sobre as categorias, tese presidida por um ignorante encasacado, no deixa de escrever em grossos caracteres no cabealho de 
sua tese: Ek Allah abron doxa: ad majorem Dei gloriam. Um bom muulmano fez pintar o seu salo gravando em sua porta essa tolice; um saca carrega gua para maior 
glria de Deus.  um costume mpio, piedosamente posto em uso. Que direis de um pequeno tchauch que ao limpar a privada do nosso ilustre sulto gritasse: "Para 
maior glria do nosso invencvel monarca"? H certamente maior distncia do sulto a Deus que do sulto ao pequeno tchauch.

" Que tendes de comum, vermes miserveis da terra chamados homens, com a glria do Ser Infinito? Pode ele amar a glria? Pode receb-la de vs? Pode sabore-la? 
At quando, bpedes implumes, fareis Deus.  vossa imagem? Como!. Por serdes vos, porque amais a glria, pretendeis que Deus a ame tambm Se existissem vrios deuses, 
cada um deles,  possvel, poderia desejar obter o sufrgio dos seus semelhantes. Seria essa a glria de Deus. Se se pudesse comparar a grandeza infinita com a extrema 
baixeza, esse Deus seria como o rei Alexandre ou Scander, que no desejava entrar em lide seno com reis. Mas vs, pobres diabos, que glria podereis dar a Deus? 
Cessai de profanar o seu nome sagrado. Um imperador chamado Otvio Augusto proibiu que o louvassem nas escolas de Roma por temer que seu nome fosse envilecido. Mas 
vs no podeis nem envilecer o ente supremo nem honr-lo. Humilhai-vos, adorai e calai-vos".

Assim falou Ben al Betif; e os dervis exclamaram: "Glria a Deus! Ben al Betif bem falou".

GRAA

Consultores sagrados da Roma moderna, ilustres e infalveis telogos, ningum mais do que eu respeita vossas divinas decises; mas se Paulo Emlio, Cpio, Cato, 
Ccero, Csar, Tito, Trajano, Marco Aurlio tornassem a essa Roma a que dedicavam outrora certo crdito, haveis de dizer-me que ficariam um tanto admirados de vossas 
decises sobre as graas. Que diriam eles se ouvissem falar da graa de sade segundo Sto. Toms e da graa medicinal segundo Cajetan; da graa exterior e interior, 
da graa gratuita, da santificante, da atual, da habitual, da cooperante; da eficaz, que algumas vezes no surte efeito; da suficiente, que s vezes no basta; da 
verstil e da cngrua? Em boa f, compreenderiam eles mais do que eu e vs?

Que necessidade teriam esses pobres homens de vossas instrues sublimes? Parece-me ouvi-los dizer:
Meus reverendos padres, sois uns gnios terrveis; pensvamos tolamente que o Ser Eterno no se guia jamais pelas leis particulares como os vs humanos, mas sim 
por suas leis gerais, eternas como eles. Nenhum de ns jamais imaginou que Deus se assemelhasse a um suserano insensato que concede um peclio a um escravo e recusa 
alimentao a outro; que ordena ao maneta amassar-lhe a farinha, a um mudo que lhe leia o jornal, a um perneta que lhe sirva de mensageiro.

Tudo  graa da parte de Deus. Fez, ao globo que habitamos, a graa de form-lo; s rvores, a graa de faz-las crescer; aos animais a de os nutrir. Mas, - dir-se- 
- no caso de um lobo encontrar no seu caminho um cordeiro para seu almoo, enquanto outro lobo morre de fome, ter feito Deus a esse primeiro lobo uma graa particular? 
Ter-se- ocupado, por uma graa obsequiosa, em fazer nascer um carvalho de preferncia a outro carvalho ao qual faltou seiva? Se em toda a natureza todos os seres 
esto sujeitos s leis gerais, por que motivo uma nica espcie constituiria exceo? Por que deveria o senhor absoluto de tudo ocupar-se mais em dirigir o interior 
de um nico homem do que conduzir o resto da natureza inteira? Por que extravagncia mudaria ele alguma coisa no corao de um curlands ou biscainho, enquanto nada 
modifica das leis que imps a todos os astros?

Que misria o supor que ele faz, desfaz, refaz continuamente nossos sentimentos! E que audcia o nos julgarmos  parte de todos os seres! Ainda no  seno para 
aqueles que confessam serem todas essas mudanas imaginadas. Um savoiano, um bergamsio, ter na segunda feira a graa de mandar dizer uma missa por doze soldos; 
na tera ir  tasca, e a graa lhe faltar; na quarta ter uma graa cooperante que o conduzir  confisso, mas no ter a graa eficaz da contrio perfeita; 
na quinta feira haver uma graa suficiente que no lhe bastar, como j dissemos. Deus trabalhar continuamente no crebro desse bergamsio, ora com energia, ora 
debilmente, e o resto da terra nada ser para ele! No se dignar imiscuir-se no interior dos hindus e dos chineses! Se ainda vos sobrar uma partcula de razo, 
meus reverendos padres, no achais esse sistema prodigiosamente ridculo?

Desgraados, vede esse carvalho que alevanta a fronde s nuvens e esse canio que rasteja a seus ps! No direis que a graa eficaz foi dada ao carvalho e faltou 
ao canio. Elevai os olhos ao cu, vede o eterno demiurgo criando milhes de mundos que gravitam todos entre si merc de leis gerais e eternas. Vede a mesma luz 
refletir-se do Sol a Saturno e de Saturno a ns; e, nesse acordo de tantos astros arrastados por uma rpida corrente, nessa obedincia geral de toda a natureza, 
ousai crer, se o puderdes, que Deus se ocupa em conceder uma graa verstil a sror Teresa e uma graa concomitante a sror Ins.

tomo, a quem um tolo tomo disse que o Eterno tem leis particulares para alguns tomos de tua vizinhana; que ele concede sua graa quele e nega-a a este; que 
aquele que no possua graa ontem te-la- amanh, - no repitas essa tolice. Deus fez o universo e no criar ventos novos para remover alguns gravetos de palha 
num canto desse universo. Os telogos so como os combatentes de Homero, que acreditavam que seus deuses ora se armavam contra eles, ora a seu favor. Se Homero no 
fosse considerado como poeta, se-lo-ia como blasfemador.

 Marco Aurlio quem fala e no eu: porque Deus, que vos inspira, me concede a graa de acreditar em tudo o que dizeis, tudo o que tendes dito, tudo o que disserdes.

GUERRA

A misria, a peste e a guerra so os trs ingredientes mais famosos deste mundo vil. Podem-se colocar na classe da misria todas as ms alimentaes a que a penria 
nos fora a recorrer para abreviar nossa vida na esperana de a suster.

Compreendem-se na peste todas as doenas contagiosas, que so em nmero de, dois ou trs mil. Esses dois presentes nos vm da Providncia, A guerra, porm, que rene 
todos esses dons, nos vem da imaginao de trezentas ou quatrocentas pessoas disseminadas pela superfcie do globo sob o nome de prncipes ou ministros;  provavelmente 
por essa razo que em vrias dedicatrias se chamam imagens vivas da Divindade( 31).

O mais determinado adulador convir sem esforo em que a guerra acarreta sempre a peste e a misria, por pouco que tenha visto os hospitais dos exrcitos da Alemanha, 
( 32) ou que tenha passado em aldeias onde se fez algum grande movimento militar.

 sem dvida uma bela arte a de desolar os campos, destruir as casas e fazer morrer, anualmente, quarenta mil homens sobre cem mil. A principio essa inveno foi 
cultivada por naes reunidas para o bem comum; por exemplo, a dieta dos gregos declarou  dieta da Frgia e dos povos vizinhos que ia partir num milheiro de barcos 
de pesca a fim de os exterminar, se o pudesse.

O povo romano reunido julgou ser de seu interesse ir combater antes da colheita contra o povo dos vios ou contra os volscos. E, alguns anos antes, todos os romanos, 
estando encolerizados contra todos os cartagineses, bateram-se longo tempo em mar e em terra. No sucede o mesmo hoje em dia.

Um genealogista prova a um prncipe que este descende em linha reta de um conde cujos pais tinham feito um pacto de famlia, h trezentos ou quatrocentos anos, com 
uma casa de que nem sequer existe memria. Essa casa tinha vastas pretenses sobre uma provncia cujo ltimo possessor morreu de apoplexia: o prncipe e seu conselho 
concluem sem dificuldade que essa provncia lhe pertence por direito divino. Essa provncia, que est situada a algumas centenas de lguas, perde seu tempo em protestar 
que no o conhece, que no tem nenhum desejo de vir a ser governada por ele; que, para dar leis  gente,  preciso ao menos ter o seu consentimento: tais discursos 
chegam aos ouvidos do prncipe, cujo direito  incontestvel. Este encontra imediatamente um grande nmero de homens que nada tm que fazer nem que perder; veste-os 
com um grosso pano azul a cento e dez soldos cada um, borda seus chapus com fio branco ordinrio, f-los manobrar um pouco e marcha para a glria.

Os outros prncipes que ouvem falar desse exrcito tomam parte nele, cada um segundo seu poder, e cobrem uma pequena plancie do pas de tantos matadores mercenrio 
como Gengis C, Tamerlo, Bajazs jamais tiveram em seu squito.

Povos bastante afastados ouvem dizer que vai haver guerra e que h cinco ou seis soldos dirios a ganhar se quiserem participar da coisa: dividem-se dentro em pouco 
em dois bandos, como ceifeiros, e vo vender seus servios a quem os queira empregar.

Ento essas multides se atiram umas contra outras, no s sem ter interesse algum no processo, mas
sem mesmo saber do que se trata. So seis potncias beligerantes ao mesmo tempo, ora trs contra trs, ora duas contra quatro, ora uma contra cinco, detestando-se 
todas igualmente entre si, unindo-se e atacando turno a turno; todas de acordo num nico ponto, o de fazer todo o mal possvel.

O maravilhoso dessa empresa infernal  que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o prximo.

Se um chefe no teve a felicidade de fazer degolar seno dois ou trs mil homens, no agradece a Deus; mas assim alcance um ativo de uns dez mil exterminados pelo 
fogo e pelo ferro, e por cmulo de graa alguma cidade seja totalmente destruda, ento canta-se aos quatro ventos uma longa cano, composta numa lngua desconhecida 
de todos os que combateram e repleta de barbarismos. A mesma cano serve tanto para os casamentos ou nascimentos como para as mortes: o que  imperdovel, sobretudo 
na nao mais famosa por suas novas canes.

Paga-se por toda parte um certo nmero de arengadores a fim de celebrar essas jornadas mortferas; uns vestem-se com longos gibes pretos, encimados por uma capa 
curta; outros usam uma camisa por cima da roupa; outros levam um tirante matizado por cima da camisa. Todos falam muito; citam o que se fez outrora na Palestina, 
a propsito de um combate em Vetervia.

O resto do ano esses indivduos declamam contra os vcios. Provam em trs pontos e por antteses que as damas que espalham ligeiramente um pouco de carmim nas bochechas 
sero objeto de eternas vinganas do Eterno; que Polieuto e Atlia so obras demonacas; que um homem que manda pr sobre sua mesa duzentos escudos de peixe fresco 
num dia de quaresma beneficia sua sade, e que um pobre homem que come dois soldos de carneiro ir para sempre a todos os diabos.

De cinco ou seis mil declamaes dessa espcie, apenas existem trs ou quatro, compostas por um gauls chamado Massilo, que um homem honesto pode ler sem desgosto; 
mas em todos esses discursos no h um s orador que ouse insurgir-se contra esse flagelo e esse crime da guerra, que contm todos os flagelos e todos os crimes. 
Os desgraados arengadores falam sem cessar contra o amor, que  a nica consolao do gnero humano e a nica maneira de o reparar; nada dizem dos esforos abominveis 
que fazemos para destru-lo.

Fizestes um pssimo sermo sobre a impureza,  Bourdaloue! mas nenhum sobre essas mortes variadas em tantos lugares, sobre essas rapinas, sobre esses banditismos, 
sobre essa raiva universal que desola o mundo. Todos os vcios reunidos de todas as idades e de todos os lugares jamais igualaro os males produzidos por uma nica 
campanha.

Miservel mdico de almas, gritais durante cinco quartos de hora por causa de algumas picadas de espinho e nada dizeis sobre a enfermidade que nos estraalha em 
mil pedaos! Filsofos moralistas, queimai todos os vossos livros, Enquanto o capricho de alguns homens fizer lealmente degolar milhares de nossos confrades, a parte 
do gnero humano consagrada ao herosmo ser o que de mais afrontoso existe em toda a natureza.

Que so, que me importam a humanidade, a beneficncia, a modstia, a temperana, a doura, a sabedoria, a piedade, quando meia libra de chumbo atirada de seiscentos 
passos me inutiliza o corpo e morro aos vinte anos entre padecimentos inexprimveis, no meio de cinco ou seis mil agonizantes,
enquanto meus olhos que se abrem pela ltima vez vem a cidade em que nasci destruda pelo fogo e pelas chamas, e os derradeiros sons que meu ouvido percebe so 
gritos de mulheres e de crianas que expiram sob as runas, tudo pelos pretensos interesses de um homem que no conhecemos?

E o que  pior, a guerra  um flagelo inevitvel, Se observarmos bem, todos os homens adoraram o deus Marte. Sabaote, entre os judeus, significa o deus das armas; 
mas Minerva, em Homero, considera Marte um deus furioso, insensato e infernal.

HISTRIA DOS REIS JUDEUS E PARALIPMENOS

Todos os povos escreveram sua histria, desde que o puderam fazer. Os judeus tambm escreveram a sua. Antes que tivessem reis viviam sob o regime teocrtico; eram 
julgados e governados pelo prprio Deus.

Quando os judeus desejaram um rei como os povos seus vizinhos, o profeta Samuel declarou-lhes da parte de Deus que eles rejeitavam o prprio Deus: assim findou a 
teocracia entre os judeus quando teve princpio a monarquia.

Poder-se-ia, pois, dizer sem blasfemar que a histria dos reis judeus foi escrita como a dos outros povos, e que Deus no se deu ao trabalho de contar, ele mesmo, 
a histria de um povo que j no governava.

 com extrema desconfiana que se aventa essa opinio. O que a poderia confirmar  que os Paralipmenos contradizem freqentemente o Livro dos Reis na cronologia 
e nos fatos, assim como os nossos historiadores profanos se contradizem algumas vezes. Demais, se Deus sempre escreveu a histria dos judeus, ser preciso crer, 
portanto, que continua a escrev-la, porque os judeus continuam a ser o seu povo querido. Eles dever-se-o converter um dia e parece que ento estaro tambm no 
direito de considerar a histria de sua disperso como sagrada, assim como tm direito de dizer que Deus escreveu a histria dos seus reis.

Pode-se ainda fazer uma reflexo:  que, tendo sido Deus o seu ico rei durante longo tempo e em seguida seu historiador, deveremos ter para com todos os judeus 
o mais profundo respeito. No h algibebe judeu que no esteja infinitamente acima de Csar e Alexandre. Como evitar prosternar-se diante de um adelo que vos prova 
que sua histria foi escrita peia prpria Divindade, enquanto as histrias gregas e romanas no nos foram transmitidas seno por profanos?

Se o estilo da Histria dos Reis e dos Paralipmenos  divino, as aes relatadas nessas histrias nada tm de divino. Davi assassina Urias; Isbosete e Mifibosete 
so assassinados; Absalo assassina Amo; Joabe assassina Absalo; Salomo assassina Adonias, seu irmo; Baasa assassina Nadabe; Zambri assassina Ela; Amri assassina 
Zambri; Acabe assassina Nabote; Je assassina Acabe e Jorm; os habitantes de Jerusalm assassinam Amazias, filho de Joas; Selum, filho de Jabes, assassina Zacarias, 
filho de Jeroboo; Manam assassina Selum, filho de Jabes; Faceu, filho de Romlio, assassina Facia, filho de Manam; Ozeu, filho de Ela, assassina Faceu, filho 
de Romlio. Silenciamos outros cardpios de
assassnios.  preciso compreender que se o Esprito Santo escreveu essa histria, no escolheu um assunto muito edificante.

DOLO, IDLATRA, IDOLATRIA

Idolo vem do grego , figura; , representao de uma figura; , servir, reverenciar, adorar, O termo adorar  latino, existindo vrias acepes diferentes: significa 
levar a mo  boca falando com respeito, curvar-se, ajoelhar-se, saudar e, enfim, comumente, render um culto supremo.

 til assinalar aqui que o Dictionnaire de Trvoux comea esse artigo por dizer que todos os pagos eram idlatras e que os hindus ainda o so. Primeiramente, no 
se chamava pago a ningum antes de Teodsio o Jovem; esse nome foi dado ento aos habitantes dos burgos da Itlia, pagorum incolae, pagani, que conservavam sua 
antiga religio. Em segundo lugar, o Indosto  maometano e os maometanos so inimigos implacveis das imagens e da idolatria. Terceiro, no se deve chamar idlatras 
a muitos povos da ndia que pertencem  antiga religio dos parsis, nem a certas castas que no adoram dolos.

Exame

Se houve alguma vez um governo idlatra Parece no ter existido jamais nenhum povo sobre a terra que tenha tomado esse nome de idlatra. Esse termo  uma injria, 
uma palavra ultrajante, tal como a de gavachos( 33), que os espanhis davam outrora aos franceses, e o de maranes( 34) que os franceses davam aos espanhis. Se se 
tivesse perguntado ao senado de Roma, ao Arepago de Atenas,  corte dos reis da Prsia: "Sois idlatras!" - mal entenderiam a pergunta. Ningum teria respondido: 
"Adoramos imagens e dolos". No se encontra o termo idlatra, idolatria nem em Homero, nem em Esodo, nem em Herdoto, nem em qualquer outro autor da religio dos 
gentios. Jamais existiu dito, lei alguma que ordenasse a adorao de dolos, que fossem usados como deuses, que se considerassem como deuses.

Quando os capites romanos e cartagineses concluam um tratado, invocavam todos os seus deuses. " na sua presena" - diziam eles - "que juramos a paz". Ora, as 
esttuas de todos esses deuses, cuja enumerao seria muito longa, no participavam da tenda dos generais. Consideravam os deuses como presentes s aes dos homens, 
como testemunhas, como juizes e com certeza no era o simulacro que constitua a divindade.

Com que olhos viam, pois, as esttuas das suas falsas divindades nos templos? Com os mesmos olhos, se se permitir esta expresso, com que vemos as imagens dos objetos 
de nossa venerao. O erro no era adorar pedaos de mrmore ou de madeira, mas adorar uma falsa divindade, representada por essa
madeira e por esse mrmore. A diferena entre eles e ns no  que eles tivessem imagens e ns no. A diferena  que suas imagens representavam seres fantsticos 
de uma religio falsa e as nossas representam seres reais duma religio verdadeira. Os gregos tinham a esttua de Hrcules e ns a de S. Cristvo; tinham Esculpio 
e sua cabra e ns S. Roque e seu co; tinham Jpiter armado com um feixe de raios e ns Sto. Antnio de Pdua e So Jaques de Compostela.

Quando o cnsul Plnio enderea suas preces aos deuses imortais, no exrdio do Panegrico de Trajano, no  s imagens que se dirige. Essas imagens no eram imortais.

Nem os ltimos tempos do paganismo nem os mais remotos oferecem um nico fato que possa fazer concluir que se adorassem dolos. Homero fala apenas de deuses que 
habitavam o alto Olimpo. O palladium, ainda que cado do cu, era apenas um penhor sagrado da proteo de Palas; era a ela que se venerava no palladium.

Porm os romanos e os gregos ajoelhavam-se diante das esttuas, davam-lhes coroas, incenso, flores, conduziam-nas em triunfo nas praas pblicas. Ns santificamos 
esses costumes, e no somos idlatras.

As mulheres, em tempos de seca, carregavam as esttuas dos deuses depois de haver jejuado. Caminhavam descalas, descabeladas, e em breve chovia a cntaros, como 
dizia Petrnio, et estatim urceatim pluebat( 35). No consagramos esse uso, ilegtimo entre os gentios e legtimo sem dvida alguma entre ns? Em quantas cidades 
no se levam a ps nus os altares dos santos para obter as bnos do cu por seu intermdio? Se um turco, um letrado chins presenciasse essas cerimnias, poderia, 
por ignorncia, acusar-nos desde logo de pr nossa confiana em imagens que assim transportamos em procisso; bastaria, porm, uma palavra para os desmentir.

Surpreendemo-nos do nmero prodigioso de declamaes debitadas em todos os tempos contra a idolatria dos romanos e dos gregos; e mais ainda, nos surpreendemos ao 
saber que no foram idlatras.

Existiam templos mais privilegiados que outros. A grande Diana de feso tinha mais reputao do que uma Diana de aldeia. Operavam-se mais milagres no templo de Esculpio 
em Epidauro que em outro qualquer dos seus templos. A esttua de Jpiter Olmpico atraa mais oferendas que a de Jpiter Paflagnio. Mas, desde que  preciso sempre 
opor aos costumes de uma religio verdadeira os de uma religio falsa, no tivemos ns, durante vrios sculos, mais devoo a certos altares do que a outros? No 
levamos mais ofertrios a Nossa Senhora de Loreto que a Nossa Senhora das Neves?  a ns que compete saber se esse pretexto serve para nos acusar de idolatria.

No se imaginara seno uma s Diana, um s Apolo, um nico Esculpio, e no tantos Apolos, Dianas e Esculpios, com seus respectivos templos e esttuas. Est pois 
provado, tanto quanto o pode ser um ponto histrico, que os antigos no criam em que uma esttua fosse uma divindade, que o culto no podia ser relacionado a essa 
esttua, a esse dolo e que, consequentemente, os antigos nada tinham de idlatras.

Um populacho grosseiro, supersticioso, que no raciocinava, que no sabia duvidar nem negar nem crer, que acorria aos templos por ociosidade e porque a os pequenos 
so iguais aos grandes, que levava sua oferenda por costume, que falava continuamente de milagres sem nunca haver examinado um deles,
e que no estava acima das vtimas que causava; esse populacho, digo, bem podia,  vista da grande Diana e de Jpiter Tonante, ser ferido de um terror religioso 
e adorar, sem o saber, a prpria esttua.  o que em nossos templos aconteceu algumas vezes a nossos grosseiros concidados. Entretanto, no cessamos de lhes dizer 
que  aos bem-aventurados, aos imortais, recebidos no cu, que eles devem solicitar, e no a figuras de madeira e de pedra, e que apenas devem adorar a Deus.

Os gregos e romanos aumentaram por apoteoses o nmero de seus deuses. Os gregos divinizavam os conquistadores, como Baco, Hrcules e Perseu. Roma erigiu altares 
aos seus imperadores. Nossas apoteoses so de gnero diferente; temos santos em substituio a seus semideuses, seus deuses secundrios; mas no os consideramos 
merc de seus postos ou conquistas. Elevamos templos a homens simplesmente virtuosos que seriam, na maioria, completamente ignorados sobre a terra se no tivessem 
sido colocados no cu. As apoteoses dos antigos inspiravam-se na lisonja, as nossas no respeito  virtude, mas essas antigas apoteoses constituem ainda uma prova 
convincente de que os gregos e romanos nada tinham propriamente de idlatras. Est claro que no admitiam mais uma virtude divina na esttua de Augusto e Cludio 
do que em suas medalhas.

Ccero, em suas obras filosficas, no deixa sequer supor que nos possamos enganar quanto s esttuas dos deuses, confundindo-as com os prprios deuses. Seus interlocutores 
fulminavam a religio estabelecida; mas nenhum deles sonha em acusar os romanos de empregar o mrmore e o bronze para as esttuas de suas divindades. Lucrcio no 
reprova essa tolice a ningum, ele que tudo reprova aos supersticiosos. Portanto, ainda uma vez, essa opinio no existia, no se fazia dela idia alguma; no existiam 
idlatras.

Horcio faz falar a uma esttua de Prapo, fazendo-lhe dizer: "Eu fui outrora um tronco de figueira; um carpinteiro, no sabendo se faria de mim um Deus ou um banco, 
determinou enfim tornar-me um deus, etc."( 36). Que concluir desse gracejo? Prapo era dessas pequenas divindades subalternas abandonadas ao gracejo; esse prprio 
gracejo  a prova mais evidente de que essa figura de Prapo, que se colocava nas hortas para espantar os pssaros, no era muito venerada.

Dacier, entregando-se ao esprito comentador, no deixou de observar que Baruch predissera essa aventura dizendo: "Eles sero apenas o que quiserem os artfices 
;" porm ele deveria observar tambm que se pode dizer outro tanto de todas as divindades.

Pode-se, de um bloco de mrmore, fazer to bem um fogo como uma figura de Alexandre ou de Jpiter, ou qualquer outra coisa mais respeitvel. A matria de que eram 
formados os querubins do Santo dos Santos teria podido servir igualmente s funes mais vis. Um trono, um altar, so menos venerados porque um operrio poderia 
ter feito com seu material uma mesa de cozinha?

Dacier, em lugar de concluir que os romanos adoravam a esttua de Prapo e que Baruch o predissera, deveria pois concluir que os romanos se riam dela. Consultai 
todos os autores que falam das esttuas dos seus deuses e no encontrareis nenhum que fale em idolatria: eles dizem expressamente o contrrio. Vedes em Marcial:

Qui finxit sacros auro vel marmore vultus non facit ille deos.... (37).
Em Ovdio: Colitur pro Jove forma Jovis( 38). Em Estcio: Nulla autem effigies, nulli commissa metallo forma Dei; mentes habitare et pectora gaudet( 39). Em Lucano: 
Estne Dei sedes, nisi terra et pontus et aer? ( 40). Far-se-ia um volume de todos os passos que afirmam que as imagens so somente imagens. Apenas o caso em que 
as esttuas concediam orculos pode fazer pensar que essas esttuas tinham alguma coisa de divino. Mas certamente a opinio reinante era a de que os deuses tinham 
escolhido determinados altares, determinadas imagens, para a descerem algumas vezes, para a dar audincias aos homens, para lhes responder. No vemos em Homero 
e nos coros das tragdias gregas seno preces a Apolo, que dava seus orculos nas montanhas, em tal templo, em tal cidade; no h, sem dvida, em toda a antigidade, 
o menor vestgio de preces dirigidas a uma esttua.

Os que professavam a magia, os que a julgavam uma cincia ou que fingiam cr-lo, pretendiam ter o segredo de fazer os deuses descerem s esttuas; no os grandes 
deuses, mas os deuses secundrios, os gnios.  o que Mercrio Trismegista chamava fazer deuses;  isso que Sto. Agostinho refuta em sua Cidade de Deus. Porm mesmo 
isso mostra evidentemente que as imagens nada tinham de divino, porquanto era preciso que um mago as animasse. Parece-me que era muito raro um mago ter habilidade 
suficiente para dar alma a uma esttua, para faz-la falar.

Numa palavra: as imagens dos deuses no eram deuses. Jpiter e no sua imagem lanava o trovo; e no era a esttua de Netuno que agitava os mares nem a de Apolo 
que fazia a luz. Os gregos e os romanos eram gentios, politestas e no idlatras.

Se os persas, os sabaenses, os egpcios, os trtaros, Os turcos foram idlatras e de que antigidade  a origem das imagens chamadas "dolos". Histria do seu culto.

 um grande erro chamar idlatras aos povos que renderam culto ao Sol e s estrelas. Essas naes no tiveram por muito tempo nem imagens nem templos. Se se enganaram, 
foi em atribuir aos astros o que deviam ao criador dos astros. O dogma de Zoroastro ou Zerdusto, recolhido no Sadder, apresenta tambm um ente supremo, vingador 
e remunerador; e isto est bem longe de ser idolatria. O governo da China no teve jamais nenhum dolo;, conservou sempre o culto simples do Senhor dos Cus, King- 
tien. Gengis C, entre os trtaros, no era idlatra nem possua imagem alguma. Os muulmanos, que inaram a Grcia, sia Menor, Sria, Prsia, ndia e frica, chamam 
aos cristos idlatras, infiis, pois acreditam que eles rendem culto s imagens. Quebraram vrias esttuas que encontraram em Constantinopla, em Santa Sofia, na 
igreja dos Santos Apstolos e em muitas outras que converteram em mesquitas. A aparncia os enganou como sempre engana os homens e lhes fez crer que templos dedicados 
aos santos
que tinham sido homens outrora, imagens desses santos veneradas de joelhos, milagres operados nesses templos eram provas irretorquveis da mais consumada idolatria. 
Contudo, no h nada disso. Os cristos no adoram, na verdade, seno um Deus nico e no veneram nos seus bem-aventurados seno a prpria virtude de Deus que age 
em seus santos. Os iconoclastas e os protestantes lanaram a mesma tacha de idolatria  igreja e a mesma resposta lhes foi dada.

Como muito raramente tiveram os homens idias precisas e menos ainda exprimiram suas idias por termos precisos e inequvocos, apelidamos idlatras os gentios e 
sobretudo os politestas. Escreveram-se volumes imensos, debitaram-se sentimentos diversos sobre a origem desse culto rendido a Deus ou a vrios deuses sob figuras 
sensveis: esta multitude de livros e de opinies no atesta seno ignorncia.

No se sabe quem inventou as vestes e os calados e quer-se saber quem primeiro inventou os dolos? Que importa um trecho de Sanconiton, que viveu antes da guerra 
de Tria? Que nos ensina ele quando diz que o caos, o esprito, isto , o sopro, enamorado de seus princpios, lanou-lhes os alicerces, que tornou o ar luminoso, 
que o vento Colpo e sua mulher Bau geraram on, que on gerou Genos, que Cronos, seu descendente, tinha dois olhos atrs como na frente, que se tornou Deus e que 
presenteou o Egito a seu filho Tot? A tendes um dos mais respeitveis monumentos da antigidade.

Orfeu, anterior a Sanconiton, nada nos poder dizer de novo em sua Teogonia, que Damcio nos transmitiu. Apresenta o princpio do mundo sob a figura de um drago 
de duas cabeas, uma de touro, outra de leo, um rosto  metade, a que chama rosto-deus, e asas douradas nas costas.

Podeis, porm, dessas estranhas idias, tirar duas grandes verdades: uma, que as imagens sensveis e os hierglifos so da mais alta antigidade; outra, que todos 
os filsofos antigos reconheceram um primeiro princpio.

Quanto ao politesmo, o bom senso vos dir que, desde que existiram homens, isto , frgeis animais capazes de razo e de loucura, sujeitos a todos os acidentes, 
 doena e  morte, esses homens sentiram sua fraqueza e sua dependncia; reconheceram facilmente a existncia de alguma coisa mais poderosa que eles; sentiram uma 
fora na terra que fornece seus alimentos, uma no ar que os destri com freqncia, uma no fogo que consome e na gua que submerge. Que mais natural, em homens ignorantes, 
que o imaginar seres que presidissem a esses elementos? Que mais natural que venerar a fora invisvel que fazia luzir diante dos olhos o Sol e as estrelas? E, desde 
que se desejou formar uma idia dessas foras superiores ao homem, que mais natural ainda que o figur-las de uma maneira sensvel? Poderia ser de outra forma? A 
religio judaica, que precedeu  nossa e que foi dada por Deus, estava repleta dessas imagens sob as quais se representa Deus. Ele se digna falar num espinheiro 
a linguagem humana; aparece sobre uma montanha; os espritos celestes que envia vem todos sob forma humana; enfim o santurio est repleto de querubins, que so 
corpos de homens com asas e cabeas de animais.  o que deu lugar ao erro de Plutarco, Tcito e tantos outros que reprovaram aos judeus o adorar uma cabea de asno. 
Deus, apesar de sua proibio de se pintarem e esculpir figuras, dignou-se pois proporcionar-se  fraqueza humana, que solicitava que se lhe falasse aos sentidos 
por meio de imagens.

Isaas, no cap. 6, v o Senhor sentado sobre um tronco e a cauda de seu vestido que enchia o templo. O Senhor estende sua mo e toca a boca de Jeremias, no captulo 
1 desse profeta. Ezequiel, no captulo 3, v um trono de safira, e Deus lhe aparece como um homem sentado em seu trono. Essas imagens no alteram em nada a pureza 
da religio, que jamais empregou quadros, esttuas, dolos, para representar
Deus aos olhos do povo. Os letrados chineses, os parsis, os antigos egpcios no tiveram dolos; mas em breve Isis e Osiris foram figurados; em breve Bel, em Babilnia, 
foi um grande colosso; Brama foi um estranho monstro na pennsula da ndia. Os gregos principalmente multiplicaram os nomes dos deuses, as esttuas e os templos, 
mas sempre atribuindo a suprema potncia a seu deus Zeus, chamado pelos latinos Jpiter, senhor dos deuses e dos homens. Os romanos imitaram os gregos. Esses povos 
colocaram sempre todos os deuses no cu, sem saber que  que entendiam pelo cu e pelo seu Olimpo; no havia o mnimo indcio de que esses deuses habitassem nas 
nuvens, que apenas so gua. Colocaram-se, primeiro, sete deuses em sete planetas; porm ao depois a morada de todos os deuses foi a amplido celeste.

Os romanos tiveram seus doze grandes deuses, seis vares e seis fmeas, a que chamaram Dii majorum gentium: Jpiter, Netuno, Apolo, Vulcano, Marte, Mercrio; Juno, 
Vesta, Minerva, Ceres, Vnus, Diana. Pluto foi ento esquecido; Vesta tomou seu lugar.

Em seguida vinham os deuses minorum gentium, os deuses indgetes, os hericos, como Baco, Hrcules, Esculpio; os deuses infernais, Pluto, Prosrpina; os do mar, 
como Tetis, Anfitrite, as Nereidas, Glauco; depois as Dradas, as Niadas; os deuses dos jardins, dos pastores. Havia-os para cada profisso, para cada ao da vida, 
para as crianas, para as jovens casadouras, para as casadas, para as amantes; houve o deus Pete. Divinizaram-se por fim os imperadores. Nem esses imperadores, nem 
o deus Pete, nem a deusa Pertunda, nem Prapo, nem Rumlia, a deusa das tetas, nem Esterctio, o deus do guarda-roupa, foram na verdade considerados como senhores 
do cu e da terra. Os imperadores tiveram templos algumas vezes, os pequenos deuses domsticos no os tiveram; mas todos tiveram sua figura, seu dolo.

Tratava-se de pequenos bonecos com os quais se ornavam os gabinetes; brinquedos para velhas e crianas, que no estavam autorizados por nenhum culto pblico. Deixava-se 
que cada particular tivesse as supersties que melhor lhe agradassem. Encontram-se ainda esses pequenos dolos nas runas das cidades antigas.

Se ningum sabe quando os dolos comearam a ser fabricados, sabe-se em compensao que remontam  mais alta antigidade. Tareu, pai de Abrao, construiu Ur, na 
Caldia. Raquel roubou e carregou os dolos de seu av Labo. No  possvel ir mais longe.

Mas que noo precisa tinham as naes antigas a respeito desses simulacros? Que virtude, que potncia lhes atribulam? Julgava-se que os deuses desciam do cu para 
se meterem nessas esttuas, ou que lhes comunicavam uma parte do esprito divino, ou que no lhes comunicavam coisa alguma?  este tambm um assunto sobre o qual 
se tem escrito inutilmente;  claro que cada homem julgava segundo a sua parcela de razo, ou de credulidade, ou de fanatismo.  evidente que os padres ligaram as 
divindades o mais que puderam s suas esttuas, a fim de conseguirem maior nmero de oferendas. Sabe-se que os filsofos reprovavam essas supersties, que os guerreiros 
as escarneciam, que os magistrados as toleravam e que o povo, sempre absurdo, no sabia que fazer com elas.  esta em poucas palavras a histria de todas as naes 
a quem Deus no se fez conhecer.

Pode-se fazer a mesma idia do culto que todo o Egito rendia a um boi e que vrias cidades renderam a um co, a um smio, a um gato, a cebolas. H muita aparncia 
de que de comeo tenham servido como
emblemas. Em seguida um certo boi Apis, um certo co chamado Anubis, foram adorados; comia-se diariamente carne de boi e cebolas;  porm muito difcil saber que 
pensavam as velhas do Egito a respeito dos bois e das cebolas sagradas.

Os dolos falavam com freqncia. Comemoravam-se em Roma, no dia da festa de Cibele, belas palavras que a esttua pronunciara ao ser transladada do palcio do rei 
Atlio.

Ipsa peti volui; ne sit mora, mitte volentem: dignus Roma locus quo deus omnis eat( 41).

Eu quis que me levassem, levai-me depressa; Roma  digna de que todos os deuses se estabeleam nela.

A esttua da Fortuna falara: os Cipies, os Cceros; os Csares, na: verdade, no acreditavam; mas a velha a quem Encolpo deu um escudo a fim de que comprasse gansos 
e deuses bem poderia acredit-lo.

Os dolos tambm concediam orculos, e os sacerdotes metidos no oco das esttuas falavam em nome da Divindade.

Como, no meio de tantos deuses e de tantas teogonias diferentes e de cultos particulares, jamais houve guerras de religio entre os povos chamados idlatras? Essa 
paz foi um bem que nasceu de um mal, do erro mesmo: porque, reconhecendo cada nao vrios deuses inferiores, achou bom que os seus vizinhos tivessem tambm os seus. 
Se excetuardes Cambises, a quem se reprova o haver matado o boi Apis, no encontramos na histria profana nenhum conquistador que tenha maltratado os deuses de um 
povo conhecido. Os gentios no tinham nenhuma religio exclusiva, e os sacerdotes pensavam apenas em multiplicar as oferendas e os sacrifcios.

As primeiras oferendas foram frutos. Em breve foram necessrios animais para a mesa dos sacerdotes; eles prprios os degolavam; tornaram-se carniceiros, e cruis; 
enfim introduziram o costume horrvel de sacrificar vitimas humanas e sobretudo crianas e mocinhas. Jamais os chineses nem os parsis nem os hindus foram culpados 
de tais abominaes; mas em Hierpolis, no Egito, Segundo Porfrio, se imolaram homens.

Na Turida sacrificavam-se os estrangeiros; felizmente os sacerdotes da Turida no deviam ter muitas prticas. Os primeiros gregos, os cipriotas, os fencios, os 
tirenses, os cartagineses tiveram essa superstio abominvel. Os prprios romanos incorreram nesse crime de religio, e informa Plutarco que eles imolaram dois 
gregos e dois gauleses para expiar os deslizes de trs vestais. Procpio, contemporneo do rei dos francos Teodoberto, diz que estes imolaram homens quando entraram 
na Itlia com esse prncipe. Os gauleses, os germanos, praticavam comumente esses sacrifcios afrontosos. No se pode ler a histria sem conceber grande horror ao 
gnero humano.

 verdade que, entre os judeus, Jeft sacrificou sua filha e Saul esteve prestes a imolar seu filho; e  verdade que aqueles que estivessem votados ao Senhor por 
antema no poderiam ser resgatados como se resgatavam os animais, sendo mister que perecessem. Samuel, sacerdote de Deus, cortou em pedaos com o auxlio de um 
santo cutelo o rei Agague, prisioneiro de guerra a quem Saul perdoara, e Saul foi
reprovado por ter observado o direito das gentes com esse rei. Mas Deus, senhor dos homens, pode tirar-lhes a vida quando quiser, como quiser e para o que quiser; 
e no compete aos homens colocar-se no posto de senhor da vida e da morte e usurpar os direitos do Ente Supremo.

A fim de consolar o gnero humano do quadro horrvel desses piedosos sacrilgios,  importante saber que, em quase todas as naes chamadas idlatras, existia a 
teologia sagrada e o erro popular, o culto secreto e as cerimnias pblicas, a religio dos sbios e a do vulgo. No se ensinava seno um Deus aos iniciados nos 
mistrios; basta um relance de olhos sobre o hino atribudo ao velho Orfeu, que se cantava nos mistrios de Ceres Eleusina, to clebre na Europa e na sia: "Contempla 
a natureza divina, ilumina teu esprito, governa teu corao, trilha o caminho da justia; que o Deus do cu e da terra esteja sempre presente aos teus olhos: ele 
 nico, existe por si mesmo; todos os seres devem-lhe a sua existncia; ele os sustenta a todos; ele jamais foi visto pelos mortais e v todas as coisas"

Que se leia ainda este passo do filsofo Mximo de Madauro, em sua Carta a Santo Agostinho: "Qual o homem suficientemente grosseiro e estpido para duvidar haver 
um Deus supremo, eterno, infinito, que nada engendrou de semelhante a si prprio e que  o pai comum de todas as coisas?".

H milhares de provas de que os sbios abominavam no s a idolatria mas tambm o politesmo. Epicteto, esse modelo de resignao e pacincia, esse homem to grande 
de uma condio to baixa, no fala seno de um nico Deus. Eis uma de suas mximas: "Deus me criou, Deus est ao redor de mim; levo-o comigo por toda parte. Poderia 
eu macul-lo com pensamentos obscenos, com aes injustas, com desejos infames? Meu dever  agradecer a Deus por tudo, louv-lo por tudo e no cessar de o bendizer 
seno quando cessar de viver". Todas as idias de Epicteto giram sobre esse princpio.

Marco Aurlio, to grande, qui, sobre o trono do imprio romano, como Epicteto na escravido, fala com freqncia, realmente, dos deuses, seja para se conformar 
 linguagem corrente, seja para exprimir seres intermedirios entre o Ser Supremo e os homens; mas em quantos pontos no faz ele transparecer que apenas reconhece 
um Deus eterno, infinito! "Nossa alma" - diz - " apenas uma emanao da Divindade. Meus filhos, meu corpo, meus espritos, vm-me de Deus."

Os esticos, os platnicos, admitiam uma natureza divina e universal; os epicuristas negavam-na. Os pontfices no citavam seno um nico Deus nos seus mistrios. 
Onde, pois, os idlatras?

Alis,  um dos grandes erros do Dictionnaire de Morri o dizer que no tempo de Teodsio o Jovem j no existiam idlatras seno nos remotos pases da sia e da 
frica. Havia na Itlia muitos povos gentios ainda, mesmo no stimo sculo. O norte da Alemanha, desde o Weser, no era cristo ao tempo de Carlos Magno. A Polnia 
e todo o setentrio ficaram longo tempo depois dele no que chamamos idolatria. A metade da frica, todos os remos de alm Ganges, o Japo, o populacho da China, 
cem hordas de trtaros conservaram seu antigo culto. Apenas h na Europa alguns lapes, alguns samoiedas, alguns trtaros que perseveraram na religio de seus avitos.

Terminemos por fazer notar que, nos tempos que chamamos entre ns idade mdia, chamvamos ao pas dos mafomistas Pagnia; tratvamos de idlatras, adoradores de 
imagens, um povo que as abomina. Confessemos ainda uma vez que os turcos so mais escusveis de nos julgar idlatras quando vem nossos altares carregados de imagens 
e de esttuas.

IGUALDADE

Que deve um co a um co, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende de seu semelhante. Tendo porm o homem recebido o raio da Divindade que se chama razo, 
qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra.

Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto , se em toda parte os homens encontrassem subsistncia fcil e certa e clima apropriado a sua natureza, impossvel 
teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o globo de frutos salutares. No fosse veculo de doenas e morte o ar que contribui para a existncia humana. 
Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito alm do dos gansos e capros monteses, no teriam os Gengis Cs e Tamerles vassalos seno os prprios filhos, 
os quais seriam bastante virtuosos para auxili-los na velhice.

No estado natural de que gozam os quadrpedes, aves e rpteis, to feliz como eles seria o homem, e a dominao, quimera, absurdo em que ningum pensaria: para que 
servidores se no tivsseis necessidade de nenhum servio?

Ainda que passasse pelo esprito de algum indivduo de bofes tirnicos e braos impacientes por submeter seu vizinho menos forte que ele, a coisa seria impossvel: 
antes que o opressor tivesse tomado suas medidas o oprimido estaria a cem lguas de distncia.

Todos os homens seriam necessariamente iguais, se no tivessem precises. A misria que avassala a nossa espcie subordina o homem ao homem - O verdadeiro mal no 
 a desigualdade:  a dependncia. Pouco importa chamar-se tal homem Sua Alteza, tal outro Sua Santidade. Duro porm  servir um ao outro.

Uma famlia numerosa cultivou um bom terreno. Duas famlias vizinhas tm campos ingratos e rebeldes: impe-se-lhes servir ou eliminar a famlia opulenta. Uma das 
duas famlias indigentes vai oferecer seus braos  rica para ter po. A outra vai atac-la e  derrotada. A famlia servente  fonte de criados e operrios. A famlia 
subjugada  fonte de escravos.

Impossvel, neste mundo miservel, que a sociedade humana no seja dividida em duas classes, uma de opressores, outra de oprimidos. Essas duas classes se subdividem 
em mil outras, essas outras em sem conto de cambiantes diferentes.

Nem todos os oprimidos so absolutamente desgraados. A maior parte nasce nesse estado, e o trabalho contnuo impede-os de sentir toda a misria da prpria situao. 
Quando a sentem, porm, so guerras, como a do partido popular contra o partido do senado em Roma, as dos camponeses na Alemanha, Inglaterra, Frana. Mais cedo ou 
mais tarde todas essas guerras desfecham com a submisso do povo, porque os poderosos tm dinheiro e o dinheiro tudo pode no estado. Digo no estado, porque o mesmo 
no se d de nao para nao. A nao que melhor se servir do ferro sempre subjugar a que, embora mais rica, tiver menos coragem.
Todo homem nasce com forte inclinao para o domnio, a riqueza, os prazeres e sobretudo para a indolncia. Todo homem portanto quereria estar de posse do dinheiro 
e das mulheres ou das filhas dos outros, ser-lhes senhor, sujeit-los a todos os seus caprichos e nada fazer ou pelo menos s fazer coisas muito agradveis. Vedes 
que com estas excelentes disposies  to difcil aos homens ser iguais quanto a dois pregadores ou professores de teologia no se invejarem.

Tal como , impossvel o gnero humano subsistir, a menos que haja infinidade de homens teis que nada possuam. Porque, claro  que um homem satisfeito no deixar 
sua terra para vir lavrar a vossa. E se tiverdes necessidade de um par de sapatos, no ser um referendrio que vo-lo far. Igualdade  pois a coisa mais natural 
e ao mesmo tempo a mais quimrica.

Como se excedem em tudo que deles dependa, os homens exageraram essa desigualdade. Pretendeu-se em muitos pases proibir aos cidados sair do lugar em que a ventura 
os fizera nascer. O sentido dessa lei  visivelmente: Este pais  to mau e to mal governado que vedamos a todo indivduo dele sair, por temor que todos o desertem. 
Fazei melhor: infundi em todos os vossos sditos o desejo de permanecer em vosso estado, e aos estrangeiros o desejo de para a vir.

Nos ntimos refolhos do corao todo homem tem direito de crer-se de todo ponto igual aos outros homens. Da no segue dever o cozinheiro de um cardeal ordenar a 
seu senhor que lhe faa o jantar; pode todavia dizer: "Sou to homem como meu amo; nasci como ele chorando; como eu ele morrer nas mesmas angstias e com as mesmas 
cerimnias. Temos ambos as mesmas funes animais. Se os turcos se apoderarem de Roma e eu virar cardeal e meu senhor cozinheiro, tom-lo-ei a meu servio". Tudo 
isso  razovel e justo. Mas, enquanto o gro turco no se assenhorear de Roma, o cozinheiro precisa cumprir suas obrigaes, ou toda a humanidade se perverteria.

Um homem que no seja cozinheiro de cardeal nem ocupe nenhum cargo no estado; um particular que nada tenha de seu mas a quem repugne o ser em toda parte recebido 
com ar de proteo ou desprezo; um homem que veja que muitos monsignori no tm mais cincia, nem mais esprito, nem mais virtude que ele, e que se enfade de esperar 
em suas antecmaras, que partido deve tomar? O da morte.

INFERNO

Desde que os homens comearam a viver em sociedade devem ter percebido que no poucos criminosos escapavam  severidade das leis. Puniam-se os crimes pblicos: restava 
estabelecer um freio para os crimes secretos. S a religio poderia ser esse freio. Persas, caldeus, egpcios, gregos, imaginaram castigos depois da morte. De todos 
os povos antigos que conhecemos foram os judeus os nicos que no admitiam seno castigos temporais. Ridculo  crer ou fingir crer, baseando-se em passos obscurssimos, 
que as antigas leis judaicas aceitavam a existncia do inferno, no Levtico como no Declogo, quando o autor de tais leis no diz uma nica palavra que possa ter 
a menor relao com os castigos da vida futura. Ter-se-ia direito de dizer ao redator do Pentateuco: "Sois um homem inconseqente, sem probidade e falto de senso, 
inteiramente indigno do nome de legislador que vos arrogais. Como conheceis um dogma to altamente refreador, to necessrio ao povo como  o do
inferno, e no o anunciastes expressamente? Enquanto o admitem todas as naes que vos cercam, contentai-vos em deixar adivinhar este dogma por comentaristas que 
viro quatro mil anos depois de vs e que torcero vossas palavras para encontrar o que no dissestes? Se, conhecendo esse dogma, dele no fizestes a base da vossa 
religio, ou sois um ignorante que no sabia ser essa crena universal no Egito, Caldia e Prsia, ou sois um homem pessimamente avisado".

Quando muito podiam ou autores das leis judaicas responder: "De fato somos muito ignorantes. De fato aprendemos a escrever demasiadamente tarde. De fato nosso povo 
era uma horda selvagem e brbara que, confessamos, errou perto de meio sculo por nvios desertos. De fato usurpamos um diminuto pas pelas mais odiosas rapinas 
e as mais nefandas crueldades que regista a histria. No tnhamos o menor comrcio com as naes policiadas: como quereis que inventssemos - ns, os mais terrestres 
dos homens - um sistema totalmente espiritual?.

" No nos servamos da palavra correspondente a alma seno para exprimir a vida. No conhecemos nosso Deus e seus ministros, seus anjos, seno como entes corporais: 
a distino de alma e corpo, a idia de uma vida aps a morte s podem ser fruto de longa meditao e filosofia muito fina. Perguntai aos hotentotes e aos negros, 
que habitam um pas cem vezes maior que o nosso, se conhecem a vida futura. Cremos haver feito muito persuadindo nosso povo de que Deus punia os malfeitores at 
a quarta gerao fosse pela lepra; fosse por mortes sbitas, fosse pela perda do pouco que possussem".

Replicar-se-ia a essa apologia: "Vs inventastes um sistema cujo ridculo entra pelos olhos: o malfeitor bem aboletado na vida e com a famlia a prosperar devia 
naturalmente rir-se de vs".

Responderia o apologista da lei judaica: "Enganai-vos: para um criminoso que raciocinasse bem haveria cem que nem raciocinariam. Aquele que, cometido um crime, no 
se sentisse punido na prpria pessoa nem na do filho, temeria pelo neto. Demais, se no tivesse hoje alguma lcera asquerosa, a que freqentemente estamos sujeitos, 
t-la-ia ao cabo de alguns anos. Em toda famlia sobrevm desgraas e fcil nos era faz-las crer enviadas pela mo divina, vingadora das faltas secretas".

Seria fcil retrucar a essa resposta, dizendo: "Vossa escusa  inconsistente, pois diariamente pessoas honestas perdem a sade e os bens. E se no h famlia a que 
no aconteam infortnios, e se tais infortnios so castigos de Deus, ento todas as vossas famlias eram famlias de estafadores".

O padre judeu ainda poderia retorquir. Diria existirem males prprios da natureza humana e males expressamente enviados por Deus. Mas far-se-ia ver a esse raciocinador 
o quanto  ridculo pensar ser a febre e o granizo ora punio divina, ora efeito natural.

Enfim, fariseus e essnios, entre os judeus, admitiram a crena de um inferno a sua moda. Esse dogma j passara de gregos a romanos, e foi perfilhado pelos cristos.

Muitos santos da igreja no acreditaram nas penas eternas. Parecia-lhes absurdo torrar eternamente um pobre diabo s por haver roubado uma cabra. Em vo clama Virglio 
no sexto canto da Eneida:

... Sedet aeternunque sedebit infelix Theseus( 42).
Em vo pretende achar-se Teseu para todo o sempre sentado numa cadeira, sendo tal postura o seu suplcio. Criam outros ser Teseu um heri que no se acha no inferno, 
mas nos Campos Elseos.

No h muito um piedoso e honrado huguenote( 43) pregou e escreveu que um dia os precitos teriam sua merc, que cumpria haver proporo entre pecado e suplcio e 
que a falta de um momento no podia merecer um castigo infinito. Os padres seus confrades depuseram esse juiz indulgente. Disse-lhe um deles: "Meu caro, no creio 
no inferno mais que voc. Mas  bom que o creiam a sua criada, o seu alfaiate e tambm o seu procurador".

INUNDAO

Ter existido um tempo em que o globo foi inteiramente inundado? Isso  fisicamente impossvel. Pode ser que, sucessivamente, o mar tenha coberto todas as terras, 
umas aps outras; e isto no pode ter acontecido seno gradativa e lentamente, numa prodigiosa srie de sculos. O mar, em quinhentos anos, retirou-se de guas Mortas, 
de Frejus, de Ravena, que eram grandes portos, e deixou cerca de duas lguas de terreno em seco. Mediante essa progresso  evidente que lhe teriam sido necessrios 
dois milhes e duzentos e cinqenta mil anos para dar volta ao nosso planeta. Fato bem notvel  que esse perodo se aproxima muito do que seria preciso ao eixo 
da terra para se levantar e coincidir com o equador: movimento muito verossmil que h cinqenta anos comeou a ventilar-se, e que requer para a sua efetuao um 
espao de mais de dois milhes e trezentos mil anos.

Os leitos, as camadas de conchas descobertas por todas as costas a sessenta, a oitenta, a cem lguas mesmo do mar, constituem prova incontestvel de que ele depositou 
pouco a pouco seus produtos marinhos sobre terrenos que eram outrora as margens do oceano; porm que a gua tenha coberto inteiramente todo o globo de uma vez,  
na fsica uma quimera absurda demonstrada como impossvel pelas leis da gravidade, pelas leis dos fluidos, pela insuficincia da quantidade de gua. No que se pretenda 
atacar de forma alguma a grande verdade do dilvio universal, relatada no Pentateuco: ao contrrio,  um milagre, portanto  preciso cr-lo;  um milagre, portanto 
no pde ter sido executado por leis fsicas.

Tudo  milagre na histria do dilvio: milagre que quarenta dias de chuva tenham inundado as quatro partes do mundo e que a gua tenha se elevado quinze cvados 
a cima de todas as mais altas montanhas; milagre que tenham existido cataratas, portas, aberturas no cu; milagre que todos os animais se tenham dirigido para a 
Arca, vindos de todas as partes do mundo; milagre que No tenha encontrado com que aliment-los durante seis meses; milagre que todos os animais tenham cabido na 
Arca, com todas suas provises; milagre que a maioria no tenha morrido; milagre que tenham encontrado com que se nutrir ao sair da Arca; milagre, ainda, mas de 
outra espcie, que um tal Le Pelletier( 44) tenha julgado explicar como todos os animais puderam caber e nutrir-se naturalmente na Arca de No.

Ora, sendo a histria do dilvio a coisa mais miraculosa de que jamais se falou, insensato seria o
explic-la: trata-se de mistrios que se acreditam pela f; e a f consiste em crer no que a razo absolutamente no cr, o que constitui, ainda, outro milagre.

Assim a histria do dilvio universal  como a da torre de Babel, da burra de Balao, da queda de Jeric ao som das trombetas, das guas transformadas em sangue, 
da passagem do Mar Vermelho e de todos os prodgios que Deus se dignou fazer em favor dos eleitos de seu povo; trata-se de profundezas que o esprito humano no 
pode sondar.

IRRACIONAIS

Que ingenuidade, que pobreza de esprito, dizer que os irracionais so mquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que 
nada aprendem, nada aperfeioam! (45)

Ento aquela ave que faz seu ninho em semicrculo quando o encaixa numa parede, em quarto de crculo quando o engasta num ngulo e em crculo quando o pendura numa 
rvore, procede aquela ave sempre da mesma maneira? Esse co de caa que disciplinaste no sabe mais agora do que antes de tuas lies? O canrio a que ensinas uma 
ria, repete-a ele no mesmo instante? No levas um tempo considervel em ensin-lo? No vs como ele erra e se corrige?

Ser porque falo que julgas que tenho sentimento, memria, idias? Pois bem, calo-me. Vs-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, 
onde me lembra t-lo guardado, encontr-lo, l-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflio e prazer, que tenho memria e conhecimento.

V com os mesmos olhos esse co que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento 
em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carcias.

Brbaros agarram esse co, que to prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrar-te suas veias mesaraicas. 
Descobres nele todos os mesmos rgos de sentimento de que te gabas. Responde-me, maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os elatrios do sentimento 
sem objetivo algum? Ter nervos para ser insensvel? No inquines  natureza to impertinente contradio.

Perguntam os mestres da escola o que  ento a alma dos irracionais. No entendo a pergunta. A rvore tem a faculdade de receber em suas fibras a seiva que circula, 
de desenvolver os botes das folhas e dos frutos: perguntar-me-eis o que  a alma da rvore? Ela recebeu estes dons. O animal foi contemplado com os dons do sentimento, 
da memria, de certo nmero de idias. Quem criou esses dons? Quem lhes outorgou essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva dos campos e gravitar a Terra em 
torno do Sol.

As almas dos brutos so formas substanciosas, disse Aristteles e depois de Aristteles a escola rabe,
depois da escola rabe a escola anglica, depois da escola anglica a Sorbonne e depois da Sorbonne ningum.

As almas dos brutos so materiais, proclamam outros filsofos, nem mais nem menos felizes que os primeiros. Em vo perguntou-se-lhes o que  alma material: precisam 
convir em que  a matria que sente. Mas quem deu sensibilidade  matria? Alma material... Quer dizer que  a matria que d sensibilidade  matria. E no saem 
desse crculo.

Ouvi outra sorte de irracionais racionando sobre os irracionais: A alma dos brutos  um ser espiritual que morre com o corpo. Que prova tendes disso? Que idia concebeis 
desse ser espiritual que em verdade tem sentimento, memria e sua medida de idias e associaes, mas que jamais poder saber o que sabe uma criana de dez anos? 
Os maiores irracionais so os que aventaram no ser essa alma nem corpo nem esprito. A est um curioso sistema. No podemos entender por esprito seno algo desconhecido 
e incorporal: a isto pois reduz-se o sistema desses senhores a alma dos seres brutos  uma substncia nem corporal nem incorporal.

A que atribuir tantos e to contraditrios erros? Ao vezo que sempre tiveram os homens de querer saber o que seja uma coisa antes de saber se existe. Dizemos a lingeta, 
o batoque do fole, a alma do fole. Que  essa alma? Um nome que dei  vlvula que, quando toco o fole, baixa e sobe para dar entrada e sada ao ar.

O fole no tem alma de espcie alguma.  simplesmente uma mquina. Quem toca, porm, o fole dos animais? J o disse: aquele que move os astros. Tinha razo o filsofo 
que disse: Deus est anima brutorum. Mas devia ter ido mais longe.

JEFT

Ou dos sacrifcios de sangue humano Evidencia-se do texto do livro dos Juizes que Jeft prometeu sacrificar a primeira pessoa que sasse de sua casa para vir felicit-lo 
pela sua vitria sobre os amonitas. Sua filha nica se lhe apresentou; ento ele lhe rasgou a roupa, imolando-a aps ter-lhe permitido ir prantear nas montanhas 
a desdita de morrer virgem. Durante muito tempo as filhas judias celebraram essa aventura, chorando a filha de Jeft por quatro dias( 46).

Em que tempo essa histria foi escrita, que seja uma imitao da histria grega de Agamenon e Idomenia ou tenha sido imitada, que lhe seja anterior ou posterior, 
no  isso o que examino; atenho-me ao texto: Jeft votou sua filha em holocausto e cumpriu o seu voto.

Ordenava expressamente a lei judaica que se imolassem os homens votados ao Senhor. "Nenhum homem votado obter resgate mas receber morte sem remisso". A Vulgata 
traduz: Non redimetur, sed morte morietur( 47).

Foi em virtude dessa lei que Samuel cortou em pedaos o rei Agague, a quem Saul perdoara; e justamente por haver poupado Agague Saul foi admoestado pelo Senhor e 
perdeu o seu reino.
Eis, pois, sacrifcios de sangue humano claramente estabelecidos; no h ponto histrico melhor averiguado. No se pode julgar de uma nao a no ser por seus arquivos 
e pelo que ela refere de si prpria.

JOS

A histria de Jos, considerada apenas como objeto de curiosidade e literatura,  um dos monumentos mais preciosos da antigidade que at ns chegaram. Parece ser 
o modelo de todos os escritores orientais;  mais tocante do que a Odissia de Homero, pois um heri que perdoa  mais comovedor do que aquele que se vinga.

Consideramos os rabes como os primeiros autores dessas fices engenhosas que foram traduzidas para todas as lnguas; no vejo, porm, neles, aventura alguma comparvel 
 de Jos. Porque ela  maravilhosa em sua quase totalidade e o fim pode fazer verter lgrimas de enternecimento.  um jovem de dezesseis anos invejado por seus 
irmos;  vendido por eles a uma caravana de mercadores israelitas, conduzido ao Egito e comprado por um eunuco do rei. Esse eunuco tinha uma mulher, o que no  
de admirar: o Quizlar Aga, eunuco perfeito, a quem arrancaram todo o aparelho genital, tem um serralho em Constantinopla; deixaram-lhe os olhos e as mos e a natureza 
no perdeu seus direitos no seu corao. Os outros eunucos, aos quais apenas cortaram os testculos, empregam ainda, muitas vezes, o rgo principal; e Putifar, 
a quem Jos foi vendido, bem poderia pertencer ao nmero desses eunucos.

A mulher de Putifar apaixona-se pelo jovem Jos que, fiel ao seu sino e benfeitor, rejeita as carcias dessa mulher. Ela irrita-se e acusa Jos de pretender seduzi-la. 
 a histria de Hiplito e Fedro, de Belerofonte e Estenobia, de Hebro e Damasipe, de Tanis e Peribia, de Mirtila e Hipodmio, de Pelia e Demeneto.

Difcil  conhecer a origem de todas essas histrias, mas nos antigos autores rabes h um passo concernente  aventura de Jos e da mulher de Putifar que  bastante 
engenhoso. O autor supe que Putifar, duvidoso entre sua mulher e Jos, no olhou para a tnica de Jos, que sua mulher rasgara, como uma prova do atentado do jovem.

Havia um menino no bero, no aposento da mulher; Jos disse que ela lhe rasgara e tirara a tnica na presena da criana. Putifar consultou o menino, cujo esprito 
era bem desenvolvido para sua idade; a criana falou a Putifar: "Verificai se a tnica est rasgada na frente ou atrs: se o estiver na frente  prova de que Jos 
quis tomar vossa mulher a fora; se, pelo contrrio, estiver rasgada por detrs,  prova de que vossa mulher correu em sua perseguio". Putifar, graas ao gnio 
desse menino, reconheceu a inocncia do seu escravo.  assim que essa aventura foi relatada no Alcoro pelo antigo autor rabe. Ele se esquece de nos dizer a quem 
pertencia a criana que julgou com tanto esprito; se existisse um filho da Putifar, Jos no teria sido o primeiro homem desejado por essa mulher.

Seja como for, Jos, segundo o Gnesis,  posto na priso e ali se encontra em companhia do copeiro e do padeiro do rei do Egito. Esses dois prisioneiros sonham 
 noite: Jos explica os seus sonhos;
prediz-lhes que no lapso de trs dias o copeiro ser agraciado e o padeiro enforcado, o que no deixou de suceder.

Dois anos aps o rei do Egito sonha tambm; seu copeiro revela-lhe a existncia de um jovem judeu, na priso, que  o primeiro homem do mundo em compreender os sonhos; 
o rei faz vir  sua presena o jovem, que lhe prediz sete anos de abundncia e sete de esterilidade.

Interrompamos um pouco o fio da histria para verificar de que prodigiosa antigidade  a interpretao dos sonhos. Jac viu em sonho a escada misteriosa no alto 
da qual estava Deus em pessoa; aprendeu em sonho o mtodo de multiplicar os rebanhos, mtodo que jamais deu resultado seno para ele prprio. O prprio Jos soubera 
por um sonho que um dia haveria de dominar seus irmos. Abimeleque, muito antes, fora advertido em sonho de que Sara era mulher de Abrao.

Voltemos a Jos. Logo que explicou o sonho do fara, foi nomeado primeiro ministro.  de se duvidar que exista hoje um rei, mesmo na sia, capaz de conceder to 
elevado cargo pela simples explicao de um sonho. O fara deu por esposa a Jos uma filha de Putifar. Sabe-se que esse Putifar era sumo sacerdote de Helipolis: 
no foi pois o eunuco, seu primeiro senhor; ou se o fosse, teria naturalmente outro ttulo que no o de sumo sacerdote, e sua mulher teria sido me mais de uma vez.

Entretanto a misria chegou, como o havia predito Jos, e este, a fim de merecer as boas graas do seu rei, obrigou todo o povo a vender suas terras ao fara; e 
toda a nao se tornou escrava para conseguir trigo: reside nesse fato, aparentemente, a origem do poder desptico.  preciso notar que jamais um rei fez melhor 
negcio; mas tambm o povo no tinha motivos para bem dizer o primeiro ministro.

Enfim, o pai e os irmos de Jos tiveram tambm necessidade de po, pois a misria assolava naquele tempo a terra inteira. No vale a pena relatar aqui a forma por 
que Jos recebeu seus irmos, como os perdoou e enriqueceu. Encontramos nessa histria tudo que constitui um interessante poema pico. Exposio, articulao, reconhecimento, 
peripcia e maravilhoso. Nada mais caracterstico do gnio oriental.

O que o bom Jac, pai de Jos, respondeu ao fara, deve bem comover os que sabem ler. "Qual  vossa idade?" - perguntou-lhe o rei. - "Tenho cento e trinta anos", 
- respondeu o velho, - "e ainda no encontrei um dia feliz nesse curto peregrinar".

LEIS (DAS)

Nos tempos de Vespasiano e Tito, em que os romanos se dedicavam a abrir o ventre dos judeus, um israelita riqussimo, que no tinha o mnimo desejo de sofrer idntica 
operao, fugiu com todo o ouro que ganhara em seu ofcio de usurrio, conduzindo para Eziongaber toda a sua famlia, que consistia em sua velha mulher, um filho 
e uma filha. Levava tambm consigo dois eunucos, um dos quais lhe servia de cozinheiro, outro de lavrador e vinhateiro. Um bom essnio que conhecia o Pentateuco 
de cor servia-lhe de capelo. Embarcaram-se no porto de Eziongaber, atravessaram o mar a que chamamos Vermelho e que de vermelho nada tem, e entraram no golfo Prsico, 
a fim de procurar a terra de Ofir,
sem saber onde ficava. Podeis crer como verdade absoluta ter sobrevindo uma terrvel tempestade que atirou a famlia hebraica s costas das ndias; o navio naufragou 
numa das ilhas Maldivas, chamada hoje em dia Padrabranca, que era ento deserta.

O velho ricao e a velha se afogaram; o filho, a filha, os dois eunucos e o capelo salvaram-se; tiraram da melhor forma algumas provises do navio, construram 
umas pequenas cabanas na ilha e a puseram-se a viver comodamente. Sabei que a ilha de Padrabranca est situada a cinco graus da linha, e que a se encontram os 
maiores cocos e os melhores ananases do mundo. Era pois muito agradvel viver ali enquanto noutros lugares se degolavam os restos da nao querida; mas o essnio 
lamentava-se considerando que talvez no houvesse mais judeus sobre a terra e que a semente de Abrao iria terminar.

" A vs somente compete ressuscit-la - disse o jovem judeu: desposai minha irm. - Bem o desejaria, - disse o capelo, - porm a lei se ope. Eu sou essnio fiz 
voto de jamais me casar; a lei manda que cada um cumpra o seu voto: acabe-se a raa judaica se assim se quer, mas certamente eu jamais casarei com vossa irm, por 
bonita que for.

- Meus dois eunucos no lhe podem fazer filhos, - retornou o judeu; - fa-los-ei portanto eu, com vosso beneplcito e vossa bno.

- Antes queria eu ser mil vezes degolado pelos soldados romanos, - respondeu o capelo, - do que me acumpliciar num incesto; se ela fosse vossa irm paterna, ainda 
era possvel, a lei o permite; mas no, ela  vossa irm materna; isso  abominvel.

- Compreendo - disse o jovem - que seria um crime em Jerusalm, onde outras filhas judias estariam  minha disposio; mas na ilha de Padrabranca, onde apenas vejo 
cocos, ananases e ovos, creio ser coisa bem permissvel".

O judeu casou, pois, com sua irm, e teve uma filha, apesar dos protestos do essnio: foi o nico fruto de um casamento que um julgava legtimo e outro abominvel. 
Ao cabo de catorze anos a me morreu; disse o pai ao capelo: "Desfizestes-vos finalmente de vossos preconceitos? Quereis desposar minha filha? - Deus me preserve 
disso! - retrucou o essnio. - Pois bem! ento eu casarei com ela, disse o pai; seja o que for; mas no quero que a semente de Abrao seja reduzida a nada". O essnio, 
espantado com to horrvel propsito, no quis saber de continuar a viver com um homem que desrespeitava a lei e fugiu. O recm casado perdeu seu tempo em gritar-lhe: 
"Ficai comigo, meu amigo; eu observei a lei natural, eu sirvo  ptria, no abandoneis os vossos amigos". O outro deixou-o gritar, metida que tinha, sempre, a lei 
na cabea, e fugiu a nado para a ilha prxima.

Era a grande ilha de Atola, muito povoada e civilizada; apenas chegou fizeram-no escravo. Aprendeu a balbuciar a lngua de Atola; queixou-se amargamente pelo modo 
inhospitaleiro por que fora recebido: disseram-lhe que era a lei, e que desde que a ilha estivera a ponto de ser atacada de surpresa pelos habitantes da de Ada, 
estabelecera-se sabiamente que todos os estrangeiros que ali fossem ter seriam submetidos como escravos. "Isso no pode ser uma lei", - disse o essnio, - "pois 
no est escrito no Pentateuco. Responderam-lhe que em compensao estava escrito no digesto do pas, e ele permaneceu escravo: tinha, alis, um timo senhor que 
o tratava muito bem e ao qual se prendeu pelos mais fortes laos de amizade.
Alguns assassinos vieram um dia para matar o dono e roubar-lhe seus tesouros; perguntaram aos escravos se estava em casa e se tinha muito dinheiro. "Juramo-vos - 
responderam os escravos - que ele no tem dinheiro algum e que no est em casa". Disse porm o essnio: "A lei no me permite mentir; juro-vos que est em casa 
e que tem muito dinheiro". Assim o dono foi roubado e morto. Os escravos acusaram o essnio perante os juizes de haver trado seu patro; o essnio alegou que no 
quisera mentir, nem mentiria por nada no mundo; e foi enforcado.

Essa historieta e muitas outras parecidas foram-me contadas na ltima viagem que fiz s ndias. Quando cheguei, fui a Versalhes para alguns negcios; vi passar uma 
bela mulher seguida de grande nmero de outras tambm belssimas. "Quem  essa mulher?" perguntei ao meu advogado no parlamento, que viera comigo: pois tinha um 
processo no parlamento de Paris, em virtude dos hbitos que adquiri nas ndias, e desejava ter constantemente meu advogado comigo. " a filha do rei, - disse ele: 
-  encantadora e caridosa;  uma grande pena que, em caso algum, jamais possa ser rainha de Frana.

- Como, - disse-lhe eu - se tivssemos a desgraa de perder todos os seus parentes e prncipes de sangue (o que Deus no permita!) ela no poderia herdar o reino 
de seu pai? - No, - disse o advogado - a lei slica se ope formalmente a isso - - E quem fez essa lei? - perguntei ao advogado. - Nada sei a esse respeito, - disse 
ele; - mas costuma-se dizer que um antiqussimo povo chamado slicos, que no sabiam ler nem escrever, tiveram um tempo uma lei escrita a qual dizia que em terra 
slica nenhuma filha podia herdar; e essa lei foi adotada em terras no slicas. - Pois eu - respondi - casso-a por minha conta; afirmastes-me que essa princesa 
 encantadora e caridosa; portanto ela teria um direito incontestvel  coroa se a infelicidade a tornasse nica remanescente do sangue real: minha me herdou de 
seu pai e eu quero que a princesa herde do seu".

No dia seguinte o meu processo foi julgado numa das cmaras do parlamento: perdi por unanimidade; explicou-me o meu advogado que eu teria ganho tambm por unanimidade 
numa outra cmara. "Eis uma coisa bem cmica - disse-lhe eu; - de modo que, cada cmara, cada lei. - Sim, - disse ele - h vinte e cinco comentrios sobre a lei 
municipal de Paris; isto , provou-se vinte e cinco vezes que a lei municipal de Paris est errada; e se houvesse vinte e cinco cmaras de juizes haveria tambm 
vinte e cinco jurisprudncias diferentes. Temos, - continuou ele - a quinze lguas de Paris uma provncia chamada Normandia, onde sereis julgado de forma muito 
diferente daqui".

Isto deu-me vontade de ver a Normandia. Para l me dirigi com um de meus irmos. Encontramos no primeiro hotel um jovem que se lamentava, desesperado; perguntando-lhe 
em qual a causa de sua desgraa, respondeu-me que era ter um irmo mais velho.

- Em que consiste pois a grande desgraa de ter um irmo mais velho? - perguntei-lhe; - meu irmo  mais velho do que eu e no entanto vivemos muito bem juntos.

- Ah! senhor, - disse-me ele, - a lei aqui tudo concede aos primognitos sem nada deixar aos caulas. - Tendes razo - disse-lhe eu - de estar zangado; em nossa 
cidade repartimos igualmente, e nem sempre os irmos se estimam melhor por isso."

Essas pequenas aventuras proporcionaram-me belas e profundas reflexes sobre as leis, e verifiquei serem elas como nossos trajes: em Constantinopla fui obrigado 
a usar um dlman, em Paris um gibo.
Se todas as leis humanas so apenas convenes, disse eu, o que vale  fazer-se um bom contrato. Os burgueses de Deli e Agra dizem ter feito um pssimo contrato 
com Tamerlo; os burgueses de Londres felicitam-se pelo timo ajuste que fizeram com o rei Guilherme de Orange.

Um cidado de Londres dizia-me certo dia: " a necessidade que faz as leis, e a fora as faz observar". Perguntei-lhe se a fora no fazia tambm leis em algumas 
ocasies, e se Guilherme, o Bastardo e o Conquistador, no lhes havia dado ordens sem estabelecer contrato algum. "Sim", - disse ele - "nesse tempo ramos uns bois; 
Guilherme nos colocou uma canga e nos fez caminhar a golpes de aguilho; depois nos transformamos em homens, porm os cornos nos ficaram e com eles maltratamos todos 
os que pretendem que trabalhemos para eles e no para ns mesmos".

Tomado de todas estas reflexes comprazia-me em pensar que existe uma lei natural, independente de todas as convenes humanas: o fruto de meu trabalho deveria ser 
meu; devia honrar meu pai e minha me; no tenho direito algum sobre a vida do meu prximo e meu prximo no o tem sobre a minha, etc. Mas, quando pensei que, de 
Codorlaomor at Mentzel (48), coronel dos hussardos, cada um mata lealmente e saqueia o prximo com uma ordem de autorizao no bolso do colete, fiquei bem aflito.

Contaram-me que entre os ladres havia leis, e que as havia tambm na guerra. Perguntei quais eram essas leis da guerra. "A lei", me dizem, "de enforcar um bravo 
oficial que tenha resistido numa pssima posio, sem canho, a um exrcito real; a lei de enforcar um prisioneiro porque o adversrio enforcou um dos vossos; a 
lei de pr a fogo e sangue as aldeias que no tiverem enviado sua contribuio no dia designado, segundo as ordens do gracioso soberano das vizinhanas". - "Muito 
bem, disse eu, eis o Esprito das leis".

Depois de bem informado, descobri que existem sbias leis mediante as quais um pastor  condenado a nove anos de crcere por ter dado um pouco de sal estrangeiro 
a seus carneiros. Meu vizinho foi arruinado por um processo: mandou cortar dois troncos que lhe pertenciam, em seu bosque; foi punido portanto por no ter podido 
observar uma formalidade que no pde conhecer; sua mulher morreu na misria e seu filho arrasta a vida mais infeliz. Confesso que essas leis so justssimas, no 
obstante a sua execuo ser um bocado dura; do-me porm calafrios as leis que autorizam cem mil homens a degolar lealmente cem mil vizinhos. Pareceu-me que a maioria 
dos homens receberam da natureza um senso comum suficiente para fazer leis, mas nem todo mundo tem justia suficiente para fazer boas leis.

Reuni os agricultores simples e tranqilos de um lado a outro da terra; todos eles conviro em que deve ser permitido vender aos vizinhos o excedente do seu trigo 
e que a lei contrria  inumana e absurda; que as moedas representativas dos gneros devero ser to puras como os frutos da terra; que um pai de famlia dever 
ser dono de sua casa; que a religio deve reunir os homens a fim de os unir e no para fazer deles fanticos e perseguidores; que os que trabalham no devem ser 
privados dos frutos de seu trabalho com o fim de alimentar a superstio e a ociosidade: eles faro numa hora trinta leis desta espcie, todas teis ao gnero humano.

Chegue porm Tamerlo e subjugue a ndia; ento no vereis seno leis arbitrrias. Uma asfixiar uma provncia para enriquecer um rendeiro de Tamerlo; outra transformar 
num crime de lesa majestade o ter falado mal da mulher do primeiro camarista de um raja; terceira apoderar-se- da metade
da colheita do agricultor, contestando-lhe o resto; enfim existiro leis mediante as quais um bedel trtaro vir arrancar vossos filhos do bero, far do mais robusto 
um soldado e do mais fraco um eunuco, deixando o pai e a me sem consolo.

Ora, que vale melhor ser: o co de Tamerlo ou seu sdito?  claro que a regalia do seu co  muito superior.

LEIS CIVIS E ECLESISTICAS

Foram encontradas nos papis dos jurisconsultos estas notas, que talvez meream um pouco de exame.

Que jamais lei eclesistica alguma seja vlida seno mediante sano expressa do governo. Foi desse modo que Atenas e Roma nunca tiveram querelas religiosas. Tais 
litgios so patrimnio das naes brbaras ou transformadas em brbaras.

Que apenas o magistrado possa permitir ou proibir o trabalho nos dias de festa, pois no cabe aos padres proibir aos indivduos o cultivo de seus campos.

Que tudo o que concerne aos casamentos dependa exclusivamente do magistrado, e que os padres se atenham  augusta funo de os abenoar.

Que o padre interessado seja puramente um objeto da lei civil, porquanto apenas ela preside, ao comrcio.

Que todos os eclesisticos sejam submetidos em todos os casos ao governo, porquanto so sdito do estado.

Que em tempo algum se cometa o ato ridculo e indecoroso de pagar a um padre estrangeiro a primeira anualidade da renda de uma terra que cidados deram a um padre 
concidado.

Que padre algum jamais possa subtrair a um cidado a mnima prerrogativa, sob pretexto de que tal cidado seja um pecador, pois o padre pecador deve rezar pelos 
pecadores e no julg-los.

Que os magistrados, os lavradores e os padres paguem igualmente os impostos do estado, pois todos pertencem igualmente ao estado.

Que no haja seno um peso, uma medida, um costume. Que os suplcios dos criminosos sejam teis, um homem enforcado no serve para nada, e um homem condenado aos 
trabalhos pblicos ainda serve  ptria, constituindo uma lio viva.

Que toda lei seja clara, uniforme, precisa: interpret-la  quase sempre corromp-la.
Que nada, a no ser o vcio, seja infame. Que os impostos sejam sempre proporcionais. Que a lei jamais esteja em contradio com o uso: porque se o uso  bom, a 
lei nada vale.

LIBERDADE (DA) A

Eis uma bateria de canhes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a no ouvir?

B

 claro que no posso evitar ouvi-la.

A

Desejareis que esse canho decepasse vossa cabea e as de vossa mulher e vossa filha que estivessem convosco?

B

Que espcie de proposio me fazeis? Eu jamais poderia, em meu so juzo, desejar semelhante coisa. Isso me  impossvel.

A
Muito bem; ouvis necessariamente esse canho e, tambm necessariamente, no quereis morrer, vs e vossa famlia, de um tiro de canho; no tendes nem o poder de 
no ouvi-lo nem o poder de querer permanecer aqui.

B

Isso  evidente.

A

Em conseqncia, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canho: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?

B

Nada mais verdadeiro.

A

E se fsseis paraltico? No tereis podido evitar ficar exposto a essa bateria; no tereis o poder de estar onde agora estais: tereis ento necessariamente ouvido 
e recebido um tiro de canho e necessariamente estareis morto?

B

Nada mais claro.

A
Em que consiste, pois, vossa liberdade, seno est no poder exercido pelo vosso indivduo de fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade?

B

Embaraais-me; ento a liberdade  apenas o poder de fazer o que bem entendo?

A

Refleti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa.

B

Neste caso o meu co de caa  to livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr quando v uma lebre e o poder de correr se no estiver doente das pernas. 
Eu nada tenho, pois, mais do que meu co: reduzis-me ao estado das bestas.

A

Eis uma srie de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instruram. Eis que estais despeitado por no serdes livre como vosso co. Ora, no vos pareceis com 
ele em mil coisas? A fome, a sede, o velar, o dormir, os cinco sentidos, no so em vs como nele? Pretendereis cheirar com outro qualquer rgo alm do nariz? 
Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem?

B

Porm eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu co no pensa coisa alguma. Ele apenas tem idias simples, enquanto eu tenho mil idias metafsicas.

A

Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto , tendes mil vezes mais poder de pensar do que ele; porm vossa liberdade  perfeitamente igual  dele.

B

Como? Eu no tenho a liberdade de querer o que desejo?

A

Que entendeis com isso?

B

O que toda gente entende. No se diz diariamente: "As vontades so livres"?

A

Um provrbio no  uma razo; explicai-vos melhor.

B

Penso que sou livre de querer como melhor me agradar.

A

Com vossa licena, isso no tem o mnimo sentido; no percebeis que  ridculo dizer: "Eu quero
querer"? Necessariamente, vs desejais em conseqncia das idias que se vos apresentam. Quereis casar, sim ou no?

B

Mas e se eu vos disser que no quero nem uma nem outra coisa?

A

Respondereis como aquele que disse: "Uns pensam que o cardeal Mazarino est morto; outros, que est vivo; eu no creio nem numa coisa nem noutra".

B

Pois bem, quero casar-me.

A

Isto  responder! Por que quereis casar?

B

Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem educada, muito rica, que canta muito bem, filha de pais honestos e que me ama, assim como sua famlia.

A

Eis uma razo. Vedes, pois, que no podeis querer sem razo. Declaro-vos que tendes a liberdade de vos casar: isto , que tendes o poder de assinar o contrato.

B

Como! Eu no posso querer sem motivo? Que sucede ento a este outro provrbio: Sit pro ratione voluntas: minha vontade  minha razo, eu quero porque quero?

A

Isso  absurdo, meu caro amigo, pois haveria em vs um efeito sem causa.

B

Que? Quando jogo par ou mpar tenho ento um motivo para escolher par em vez de mpar?

A

Sim, sem nenhuma dvida.

B

E qual  essa razo, por obsquio?

A

 que a idia de par se apresentou ao vosso esprito mais do que a idia oposta. Seria muito cmico que nalguns casos desejsseis por existir uma razo para o vosso 
desejo e que noutros desejsseis sem motivo. Quando vos quereis casar, sentis a razo dominante, evidentemente; no a sentis quando jogais par ou mpar, e contudo 
 mister que exista uma.

B

Mas, uma vez ainda: sou ou no sou livre?

A

Vossa vontade no  livre mas vossas aes o so. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer.

B

Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferena...

A

So tolices: no existe liberdade de indiferena;  um termo destitudo de senso, inventado por pessoas que o no possuem.

LOUCURA

No se trata de reeditar o livro de Erasmo, que na atualidade no seria mais do que um lugar comum bastante inspido.

Chamamos loucura a essa doena dos rgos do crebro que impede um homem de pensar e de agir como os outros. No podendo gerir seus bens,  interdito; no podendo 
ter idias de acordo com a sociedade,  excludo; se for nocivo,  enclausurado; se for furioso, trancafiam-no.

 importante observar que esse homem, entretanto, no carece de idias; ele as tem como todos os outros enquanto acordado e, freqentemente, enquanto dorme. Poder-se- 
perguntar como sua alma espiritual, imortal, alojada em seu crebro, recebendo todas as idias por meio dos sentidos coordenados e divididos, no possa concluir 
um julgamento so. Ela v os objetos como os viam a alma de Aristteles e de Plato, de Locke e de Newton; ouve os mesmos sons, tem o mesmo sentido do tacto: por 
que
motivo, pois, recebendo percepes que os mais sbios experimentam, compe um conjunto inevitavelmente extravagante?

Se essa substncia simples e eterna possui para as suas aes os mesmos instrumentos das almas dos crebros mais sbios, deve raciocinar como eles. Que o impediria? 
Claro que se um maluco v vermelho e os sbios azul; se quando os sbios ouvem uma msica o louco ouve o zurrar de um asno; se quando eles esto no sermo o louco 
julga estar na comdia; se quando eles ouvem sim, ele entende no, ento sua alma deve pensar ao contrrio das outras. Mas o louco tem as mesmas percepes que eles; 
no h nenhuma razo aparente pela qual sua alma, tendo recebido mediante os sentidos todos os seus utenslios, no os possa usar. Ela  pura, dizemos; no est 
sujeita por si prpria a nenhuma enfermidade; ei-la provida de todos os recursos necessrios; passe o que se passar em seu corpo, nada poder mudar a sua essncia; 
contudo, ei-la encerrada num manicmio.

Essa reflexo pode fazer supor que a faculdade de pensar, doada por Deus ao homem, esteja sujeita a desarranjos como os outros sentidos. Um louco  um doente cujo 
crebro sofre, como o gotoso  um doente que sofre dos ps e das mos; ele pensa com o crebro, assim como anda com os ps, sem nada conhecer nem do seu poder incompreensvel 
de andar, nem do seu no menos incompreensvel poder de pensar. Sofre-se a gota no crebro como nos ps. Enfim, aps mil reflexes,  preciso convir em que somente 
a f, talvez, possa convencer-nos de que uma substncia simples e imaterial seja passvel de doena.

Os doutos ou os doutores diro ao louco: "Meu amigo, no obstante teres perdido o senso comum, tua alma  to espiritual, to pura, to imortal como a nossa; porm 
nossa alma est bem alojada e a tua o est mal; as janelas da casa esto fechadas para ela; falta-lhe ar, ela sufoca". O maluco, em seus bons momentos, lhes responderia: 
Meus amigos, pensais  vossa moda, o que  discutvel. Minhas janelas esto to abertas como as vossas, porquanto eu vejo os mesmos objetos e ouo as mesmas palavras: 
 pois necessrio que, ou minha alma empregue mal os seus sentidos, ou seja ela prpria um sentido viciado, uma qualidade depravada. Numa palavra, ou minha alma 
 louca por sua prpria conta ou eu no tenho alma".

Um dos doutores poder responder: "Meu irmo, Deus criou,  possvel, almas loucas, assim como criou almas sbias." O louco replicar: "Se eu fosse acreditar no 
que me dizeis, seria ainda mais louco do que j sou. Por obsquio, vs que sabeis tanto, dizei-me, por que sou louco ?"

Se os doutores tiverem ainda um pouco de bom senso lhe respondero: "Ignoro-o absolutamente." Eles no compreendero por que um crebro tem idias incoerentes; no 
compreendero melhor por que outro crebro tem idias regulares e coerentes. Julgar-se-o sbios, e sero to loucos como ele.

LUXO

H dois mil anos que se declama contra o luxo, em verso e em prosa, porm amando-o sempre. Que no se disse dos primeiros romanos? Quando esses salteadores devastaram 
e pilharam as
colheitas dos seus vizinhos, quando, para aumentar sua pobre aldeia, destruram as pobres aldeias dos volscos e dos sanitas, eram homens desinteressados e virtuosos: 
ainda no tinham podido roubar ouro, nem prata, nem pedrarias, porque no havia nos burgos o que saquear. Nem seus bosques nem seus hortos tinham perdizes ou faises 
e louva-se a sua temperana.

Quando, pouco a pouco, eles pilharam tudo, roubaram tudo, desde os confins do Adritico ao Eufrates, quando tiveram bastante esprito para gozar o fruto de suas 
rapinas durante setecentos ou oitocentos anos; quando cultivaram todas as artes, apreciaram os prazeres e at os fizeram gozar aos vencidos, ento cessaram, diz-se, 
de ser sbios e honestos. Todas essas declamaes servem para provar que um ladro jamais dever comer o jantar que tomou de um terceiro nem vestir o traje que roubou, 
nem enfeitar-se com o anel, produto de seu saque.  preciso, dizes, atirar tudo isso ao rio a fim de viver como gente honrada; digam antes que no se deveria roubar. 
Condenai os salteadores quando saqueiam, no os trateis porm como insensatos quando desfrutam de boa f o produto de seus roubos. Quando um elevado nmero de marinheiros 
ingleses se enriqueceu na tomada de Pondichry e de Havana, no teriam eles o direito de gozar em Londres como paga do trabalho que tiveram nos confins da sia e 
da Amrica?

Desejariam os declamadores ver enterradas zelosamente as riquezas adquiridas na guerra, pela agricultura, pelo comrcio e pela indstria? Eles citam os lacedemnios. 
Por que no citam tambm a repblica de So Marinho? Que benefcios fez Esparta  Grcia? Teve ela alguma vez homens como Demstenes, Sfocles, Apeles, Fdias? O 
luxo de Atenas criou grandes homens em todo gnero; Esparta teve alguns capites e ainda em nmero menor do que as outras cidades. Vo  que uma repblica to pequena 
como a dos lacedemnios conserve a sua pobreza. Chega-se  morte tanto na misria como gozando daquilo que nos pode tornar a vida agradvel. O selvagem do Canad 
subsiste e atinge a velhice como o cidado ingls que tem cinqenta mil guinus de renda. Mas quem ir comparar, jamais, o pas dos iroqueses  Inglaterra?

Que a repblica de Ragusa e o canto de Zug faam leis sunturias: eles tm razo,  preciso que o pobre no gaste alm de suas posses; mas li nalgum lugar( 49):

" Sabei que se o luxo enriquece um grande estado pe a perder um pequeno". Se por luxo entenderdes o excesso, sabemos muito bem que em tudo o excesso  pernicioso: 
na abstinncia como no epicurismo, na economia como na liberalidade. No sei como pode acontecer que, nas minhas aldeias, onde a terra  ingrata, os impostos pesados, 
a proibio de exportar o trigo que foi semeado, intolervel, no existe contudo um colono que no tenha uma boa roupa de banho e no seja bem calado e bem nutrido. 
Se esse colono trabalha com a sua bela roupa, com linho branco, os cabelos frisados, polvinhados, eis certamente um grande luxo e uma impertinncia; mas o fato de 
um burgus de Paris ou Londres comparecer ao espetculo vestido como esse campons seria interpretado como a sordidez mais grosseira e ridcula.

Est modus in rebus, sunt certi denique fines, quos ultra citraque nequit consistere rectum

Quando se inventaram as tesouras, que no pertencem sem dvida  mais remota antigidade, o que
no se disse contra os primeiros que cortaram as unhas e apararam uma parte dos cabelos que lhes caiam sobre o nariz? Foram tratados como pequenos burgueses e prdigos 
os que compravam mui caro o instrumento da vaidade a fim de falsificar a obra do Criador. Que enorme pecado encurtar os cornos que Deus fez nascer nas extremidades 
de nossos dedos Era um ultraje  Divindade. Ainda foi pior quando se inventaram as camisas e as chinelas. Sabe-se com que furor os velhos conselheiros, que jamais 
as tinham usado, gritaram contra os jovens magistrados que se deram a esse honesto luxo.

MATRIA

Os sbios a quem se pergunta o que  a alma, respondem que nada sabem a esse respeito. Se se lhes pergunta o que  a matria, do a mesma resposta.  verdade que 
alguns professores e principalmente alguns escolares conhecem perfeitamente tudo isso: e quando repetem que a matria  extensa e divisvel, julgam haver dito tudo; 
mas quando so solicitados a responder o que significa essa coisa extensa, ficam embaraados. "Isso  composto de partes, dizem". E essas partes de que so compostas? 
So os elementos dessas partes divisveis? Ento eles emudecem ou falam muito, o que  igualmente suspeito. Esse ente quase desconhecido a que chamamos matria  
eterno? Todos os antigos assim o julgaram. Ter ele, de per si, a fora ativa? Vrios filsofos o imaginaram. Os que o negam, tm o direito de neg-lo? No concebeis 
que a matria possa ser alguma coisa por si prpria. Mas como podeis afirmar que ela no tenha por si mesma as propriedades que lhe so necessrias? Ignorais qual 
 a sua natureza e lhe recusais formas que esto nessa mesma natureza: porque, afinal, desde que ela , faz-se absolutamente necessrio que tenha uma forma, que 
seja figurada; e, desde que  necessariamente figurada, ser impossvel a existncia de outras formas ligadas  sua configurao? A matria existe, no a conheceis 
seno mediante vossas sensaes. Ah! de que servem todas as susceptibilidades do esprito desde que raciocinamos? A geometria nos ensinou grande nmero de verdades, 
a metafsica bem poucas. Pesamos a matria, medimo-la, decompomo-la; e, alm dessas operaes rudimentares, se quisermos dar um passo sentimos em ns a impotncia 
e adiante de ns um abismo.

Perdoai, por merc, ao universo inteiro, que se enganou ao julgar que a matria existisse por si prpria. Poderia proceder de forma diversa? Como imaginar que o 
que  sem sucesso no o foi sempre? Se no fosse necessria a existncia da matria, por que existe ela? E se era preciso que ela fosse, por que no teria sido 
sempre? Nenhum axioma foi to universalmente aceito como este: Nada se faz de nada. Com efeito, o contrrio  incompreensvel. O caos precedeu em todos os povos 
a disposio que uma mo divina fez no mundo inteiro. A eternidade da matria jamais ofendeu em povo algum o culto da Divindade. A prpria religio jamais procurou 
impedir que um Deus eterno fosse reconhecido como o senhor de uma matria eterna. Somos muito felizes, hoje, ao ser informados pela f que Deus tirou a matria do 
nada. Porm, nao alguma foi instruda a respeito desse dogma; os prprios judeus ignoraram-no. O primeiro versculo do Gnesis diz que os deuses Eloim (no Eloi) 
fizeram o cu e a terra; no dizem que o cu e a terra foram criados do nada.

Flon, do nico tempo em que os judeus tiveram alguma erudio, diz em seu captulo da criao: "Deus, sendo bom por sua natureza, no insuflou a inveja na substncia, 
na matria, que por si mesma nada tinha de bom, que no tem de sua natureza seno a inrcia, a confuso, a desordem. Dignou-se torn-la boa, de m que era".
A idia do caos desemaranhado por um deus encontra-se em todas as teogonias antigas. Hesodo repetiu o pensamento do Oriente quando disse em sua Teogonia: "O caos 
foi o primeiro a existir" Ovdio foi o intrprete de todo o imprio romano quando disse:

Sic ubi dispositam, quiscuis fuit ille deorum, congeriem secuit... (50).

A matria , pois, nas mos de Deus, como a argila nas do oleiro, se se nos permite o uso dessas dbeis imagens para exprimir o poder divino.

A matria, sendo eterna, devia ter propriedades eternas, como a configurao, a fora de inrcia, o movimento e a divisibilidade. Mas essa divisibilidade no  seno 
a resulta do movimento: pois sem movimento nada se divide, nem se separa ou coordena. O caos teria sido um movimento confuso, e a coordenao do universo um movimento 
regular imprimido a todos os corpos pelo senhor do mundo. Mas como poderia a matria ter movimento prprio? Da mesma forma que tem, consoante todos os antigos, estenso 
e impenetrabilidade.

Mas no podemos conceb-la sem extenso, e podemos conceb-la sem movimento. A isto se responde: " impossvel que a matria no seja permevel; ora, sendo permevel, 
 preciso que alguma coisa passe continuamente por seus poros; para que passagens, se nelas nada passasse?"

De rplica em rplica, no acabaramos mais; o sistema da matria eterna apresenta grandes dificuldades, como todos os sistemas. O da matria formada do nada no 
 menos incompreensvel. Deve-se admiti-lo sem pretender dar-lhe razo; nem tudo explica a filosofia. Quantas coisas incompreensveis somos forados a admitir, mesmo 
na geometria? Podemos conceber que duas linhas andem paralelamente sem nunca se encontrarem? Responder-nos-o naturalmente os gemetras: "As propriedades das assintotas 
vos foram demonstradas; no podeis deixar de admiti-las; mas a criao, no: por que a admitia? Que dificuldade achais em crer, como todos os antigos, na matria 
eterna ?" Por outro lado dir-vos- o telogo: "Se acreditardes que a matria  eterna, reconhecereis portanto dois princpios, Deus e a matria; cas agora no erro 
de Zoroastro e Mans".

Nada responderemos aos gemetras, porque aquela gente nada conhece alm de suas linhas, suas superfcies e seus slidos. Mas podemos dizer aos telogos: "Em que 
sou maniqueu? Eis aqui pedras que um arquiteto no fabricou; ele ergueu uma construo imensa; no admito dois arquitetos; as pedras brutas obedeceram ao poder e 
ao gnio".

Felizmente, seja qual for o sistema que abracemos, nenhum prejudica a moral: porque, que importa que a matria tenha sido feita ou ordenada? Deus  igualmente nosso 
senhor absoluto. Devemos ser igualmente virtuosos em um caos desemaranhado ou em um caos criado do nada; quase nenhuma dessas questes metafsicas influi na conduta 
da vida: tais disputas so como as alegres periquitices que temos  mesa: depois de comer cada um esquece o que disse e vai para onde o chamam seu interesse e seu 
gosto.

MAU

Vivem a gritar-nos que a natureza humana  essencialmente perversa, que o homem nasceu mau e filho do diabo. Nada menos ponderado: porque, meu amigo, tu que me dizes 
que toda gente nasceu perversa, tu me advertes pois de que nasceste tal, que  preciso que eu desconfie de ti como de uma raposa ou de um crocodilo. - Oh! nada disso! 
- dizes, - eu me regenerei, no sou nem herege nem infiel, podeis fiar-vos em mim. - Mas o resto do gnero humano, que  ou herege ou o que chamas infiel, no ser 
pois um conjunto de monstros? E todas as vezes que falares a um luterano ou a um turco devers estar certo de que te roubaro ou assassinaro: pois so filhos do 
diabo; nasceram ruins; um nada tem de regenerado e o outro  degenerado. Seria muito mais razovel, muito mais belo, dizer aos homens: Nascestes bons; vede quo 
afrontoso seria corromper a pureza do vosso ser. Seria de mister proceder com o gnero humano como procedemos com os homens em particular. Se um cnego leva uma 
vida escandalosa, ns lhe dizemos: " possvel que desonreis a dignidade de cnego? " Faz-se lembrar a um magistrado que ele tem a honra de ser conselheiro do rei 
e que deve dar o exemplo. Diz-se a um soldado a fim de encoraj-lo: "Recorda que pertences ao regimento de Champagne" Dever-se-ia dizer a todo indivduo: "Lembra-te 
de tua dignidade de homem".

E, com efeito, no obstante a possuirmos, temos sempre necessidade dela: pois que quer dizer esta frase freqentemente empregada em todos os povos, concentrai-vos 
em vs mesmo? Se houvsseis nascido filho do diabo, se vossa origem fosse criminosa, se vosso sangue fosse composto de um licor infernal, esta expresso concentrai-vos 
em vs mesmo significaria: consultai, segui vossa natureza diablica, sede impostor, assassino,  a lei de vosso pai.

O homem no  ruim de nascimento; torna-se depois, assim como adoece. Alguns mdicos se lhe apresentam e dizem: "Nascestes j doente." Pile est perfeitamente certo 
de que esses mdicos, por mais que faam, no o curaro se sua doena  inerente a sua natureza; esses prprios argumentadores so bem doentes.

Reuni todas as crianas do universo, e no vereis nelas seno inocncia, doura e timidez; se houvessem nascido ms, malfeitoras, cruis, mostrariam algum sinal, 
tal como as serpentezinhas procuram morder e os tigrinhos arranhar.

Mas a natureza no concedeu ao homem mais armas ofensivas do que aos coelhos e aos pssaros, no lhes pode dar um instinto que os conduza  destruio.

Portanto o homem no  mau de nascimento. Por que ento existe to grande nmero de infetados por essa peste da ruindade?  que aqueles que os dirigem, sendo colhidos 
pela doena, comunicam-na ao resto dos homens, como uma mulher atacada do mal que Cristvo Colombo trouxe da Amrica espalha esse veneno de extremo a outro da Europa. 
O primeiro ambicioso corrompeu a terra.

Ides dizer-me que esse primeiro monstro desenvolveu o germe do orgulho, da rapina, da fraude, da crueldade, que existe em todos os homens. Sei muito bem que em geral 
a maioria de nossos irmos pode adquirir esses defeitos; estar porm toda gente contaminada pela febre ptrida, pelos clculos renais, apenas por que todos esto 
expostos?
Existem naes inteiras completamente boas: os filadlfios, os banianos nunca mataram pessoa alguma; os chineses, os povos de Tonquim, de Lao, de Siam, do prprio 
Japo, durante vrias centenas de anos no conheceram a guerra. Apenas de dez em dez anos  possvel ver um desses crimes que comovem a natureza humana nas cidades 
de Roma, Veneza, Paris, Londres, Amsterd, cidades onde, de feito, a cupidez, me de todos os crimes,  extensa.

Se os homens fossem essencialmente maus, se nascessem completamente submetidos a um ser to malfeitor como infeliz, que para se vingar de seus suplcios lhes inspirasse 
todos os seus furores, ver-se-iam todas as manhs maridos assassinados por suas mulheres e pais por seus filhos, como podemos contemplar no alvorecer do dia frangos 
estrangulados por uma doninha que lhes sugou o sangue.

Se houver um bilho de homens sobre a terra ser muito; isto d aproximadamente quinhentos milhes de mulheres que costuram, que cozinham, que alimentam seus filhos, 
que tomam conta da casa ou cabana prpria, e que falam um certo mal de suas vizinhas. No vejo que grande mal essas pobres inocentes fazem sobre a terra. Sobre esse 
nmero de habitantes do globo h duzentos milhes de crianas no mnimo, que com toda certeza no saqueiam nem matam, e cerca de outro tanto de velhos e doentes 
que o no podem fazer. Restaro quando muito cem milhes de jovens robustos e capazes de praticar o crime. Desses cem milhes noventa esto continuamente ocupados 
em forar a terra, merc de um trabalho prodigioso, a fim de que esta lhes d alimentos e roupas; esses no tm igualmente tempo para fazer o mal.

Nos dez milhes restantes esto compreendidos os ociosos que prezam a boa companhia das mesas, que desejam viver doce e tranqilamente, os homens de talento ocupados 
com suas profisses, os magistrados, os padres, visivelmente interessados em levar uma vida pura, ao menos na aparncia. Como verdadeiros maus, portanto, apenas 
restaro alguns polticos, amadores ou profissionais, e alguns milhares de vagabundos que lhes alugam os seus servios. Ora, impossvel seria atuar um milho de 
bestas ferozes ao mesmo tempo; e nesse nmero esto includos os assaltantes das estradas reais. Tendes, pois, quando muito, sobre a terra, nos tempos mais borrascosos, 
um homem sobre mil a quem se pode chamar mau.

H pois infinitamente menos mal sobre a terra do que se diz e pensa. E  ainda muito, sem dvida: assistimos a desgraas e crimes horrveis; porm o prazer de se 
lamentar e exagerar  to grande que  mnima arranhadela sereis capaz de bradar que a terra regurgita de sangue. Fostes enganado, todos os homens so perjuros. 
Um esprito melanclico que sofreu uma injustia v o universo coberto de danados, como um jovem voluptuoso ceando com sua dama, ao sair da pera, no acredita na 
existncia de infelizes.

MESSIAS

Messiah ou Meshiah em hebreu; Christos ou Eleimmenos em grego; Unctus em latim; Ungido. Vemos no Velho Testamento que o nome de Messias foi dado a prncipes idlatras 
ou infiis. Est
dito( 51) que Deus enviou um profeta para ungir Je, rei de Israel. Anunciou ele a uno sagrada a Hazael, rei de Damasco e Sria, pois esses dois prncipes eram 
os Messias do Altssimo para punir a casa de Acabe.

No 45o. de Isaas o nome de Messias  expressamente dado a Ciro. "Assim disse o Eterno a Ciro, seu ungido, seu Messias, de quem tomei a mo direita, a fim de que 
eu submeta as naes diante dele, etc.".

Ezequiel, no captulo 28 de suas revelaes, d o nome de Messias ao rei de Tiro, a quem tambm chamava Querubim. "Filho do homem, - disse o Eterno ao profeta, - 
pronuncia em altas vozes uma queixa ao rei de Tiro, e diz-lhe:

" Assim disse o Senhor, o Eterno. Eras o sinete da semelhana de Deus, repleto de sabedoria e perfeito em beleza; foste o jardim do den do Senhor, (ou, segundo 
outras verses) eras todas as delcias do Senhor. Tuas vestes eram de sardnica, de topzio, de jaspe, de crislita, de nix, de berilo, de safira, de escarbnculo, 
de esmeralda e ouro. O que sabiam fazer teus tambores e tuas flautas esteve contigo; eles foram aprontados no dia de tua criao; foste um Querubim, um Messias".

Esse nome de Messiah, Christ, era dado aos reis, aos profetas e aos grandes sacerdotes dos hebreus. Lemos no 1o. dos Reis, XII, 5: "0 Senhor e seu Messias so testemunhas", 
isto : "0 Senhor e o rei que estabeleceu". E alhures: "No toqueis em meus ungidos nem faais mal algum a meus profetas". Davi, animado do esprito de Deus, deu 
em vrias ocasies a Saul, seu sogro renegado, que o perseguia, o nome e a qualidade de ungido, de Messias do Senhor. "Deus me guarde" - diz freqentemente - "de 
levantar a mo sobre o ungido do Senhor, sobre o Messias de Deus!"

Se o nome de Messias, ungido do Senhor, foi dado a reis idlatras, a renegados, foi tambm mui freqentemente empregado em nossos antigos orculos para designar 
o verdadeiro ungido do Senhor, esse Messias por excelncia, o Cristo, filho de Deus, enfim o prprio Deus.

Se compararmos todos os diversos orculos que se aplicam de ordinrio ao Messias, no pode haver ao que parece dificuldade alguma capaz de favorecer os judeus, no 
sentido de justificar, se o pudessem, sua obstinao. Vrios grandes telogos concordam que, no estado de opresso sob o qual gemia o povo judeu, e depois de todas 
as promessas que o Eterno lhe fez com tanta freqncia, podia suspirar pela vinda de um Messias vencedor e libertador, e que assim se torna de certa forma escusvel 
o no haver a princpio reconhecido esse libertador na pessoa de Jesus.

Pertencia ao plano da sabedoria eterna que as idias espirituais do verdadeiro Messias permanecessem desconhecidas pelas multides cegas; foram-no ao ponto de os 
doutores judeus tomarem o cuidado de no negar seno os trechos que alegamos deverem ser entendidos como referentes ao Messias. Dizem vrios que o Messias j veio 
na pessoa de Ezequias;  tambm o pensamento do famoso Hilel. Outros, em grande nmero, pretendem que a crena da vinda de um Messias no  absolutamente um artigo 
fundamental de f, e que esse dogma, no assomando nem no Declogo nem no Levtico, no passa de uma esperana consoladora.

Vrios rabinos dizem no duvidar que, segundo os antigos orculos, o Messias no tenha vindo nos tempos determinados; mas que ele no envelhece, que ficar sobre 
esta terra e esperar, para se
manifestar, que Israel tenha celebrado como  de mister o sabate. O famoso rabino Salomo Jarqu ou Rasqu, que viveu no princpio do duodcimo sculo, diz em suas 
Talmdicas que os antigos hebreus acreditaram que o Messias nascera no dia da ltima destruio de Jerusalm pelos exrcitos romanos; , como se costuma dizer, chamar 
o mdico depois da morte.

O rabino Quinqu, que tambm viveu no duodcimo sculo, anunciou que o Messias, cuja vinda julgava muito prxima, expulsaria da Judia os cristos que a possuam 
at aquele momento;  verdade que os cristos perderam a Terra Santa; mas foi Saladino quem os venceu; por pouco que esse conquistador tenha protegido os judeus 
declarando-se a seu favor, parece que em seu entusiasmo eles o transformaram em seu Messias.

Os autores sacros, e o prprio Nosso Senhor Jesus, comparam freqentemente o reino do Messias e a eterna beatitude a dias de esponsais, a festins; porm os talmudistas 
abusaram estranhamente dessas parbolas; segundo eles, o Messias dar a seu povo, reunido na terra de Cana, uma refeio cujo vinho ser o mesmo feito por Ado 
no Paraso terrestre, e que se conserva em vastas adegas, guardadas pelos anjos no centro da terra.

Servir-se- de incio o famoso peixe chamado o grande Leviat, que engole de um s trago um peixe maior do que ele, o qual no deixa de ter trezentas lguas de comprimento; 
toda a maa das guas est apoiada sobre Leviat. Deus, a princpio, criou um macho e uma fmea; mas temendo que eles revolvessem a terra e enchessem o universo 
de seus semelhantes, Deus matou a fmea, salgando-a para o festim do Messias.

Os rabinos acrescentam que se matar para esse festim o touro de Beemote, que  to grande que come diariamente o feno de mil montanhas; a fmea desse touro foi 
morta no princpio do mundo, para que uma espcie to prodigiosa no se multiplicasse, o que apenas poderia ser prejudicial s outras criaturas; asseguram porm 
que o Eterno no a salgou, pois a vaca salgada no  to boa como o Leviat. Os judeus acrescentaram ainda tanta f a todas essas fantasias rabnicas que  freqente 
jurarem sobre a parte do boi de Beemote que lhes cabe.

Depois de idias to grosseiras sobre a vinda do Messias e sobre o seu reino, ser para admirar que os judeus, tanto antigos como modernos, e vrios mesmo dos primeiros 
cristos, desgraadamente imbudos de todas essas loucuras, no tenham podido elevar-se  idia da natureza divina do ungido do Senhor, nem atriburam as qualidades 
de Deus ao Messias? Vede como os judeus se exprimem l das alturas em sua obra intitulada Juaei Lusitani Quaestiones ad Christianos. "Reconhecer" - dizem - "um homem-Deus 
 forjar um monstro, um centauro, o composto estranho de duas naturezas que no se poderiam aliar". Acrescentam que os profetas no ensinam absolutamente que o Messias 
deve ser homem-Deus, que fazem distines expressas entre Deus e Davi, que consideram o primeiro, senhor, o segundo, servidor, etc.

Sabe-se muito bem que os judeus, escravos da letra, jamais penetraram como ns o sentido das Escrituras.

Quando o Salvador apareceu, os preconceitos judeus se ergueram contra ele. O prprio Jesus Cristo, para no revoltar seus espritos cegos, parece extremamente reservado 
sobre o artigo de sua divindade:
"Ele queria" - diz So Crisstomo - "acostumar insensivelmente seus auditores a crer num mistrio grandemente elevado acima da razo". Se toma a autoridade de um 
Deus perdoando os pecados, isto revolta todos os que o testemunham; seus milagres mais evidentes no podem convencer de sua divindade aqueles mesmos em favor dos 
quais opera. Quando perante o tribunal do soberano sacrificador ele admite com modstia ser filho de Deus, o sumo sacerdote rasga-lhe a roupa, rompendo em blasfmias. 
Antes do enviado do Esprito Santo os apstolos nem sequer suspeitavam a divindade de seu mestre; ele os interroga sobre o que pensa o povo a seu respeito: respondem-lhe 
que uns o tomam por Elias, outros por Jeremias ou qualquer outro profeta. So Pedro precisa de uma revelao particular para conhecer que Jesus  o Cristo, o filho 
de Deus vivente.

Os judeus, revoltados contra a divindade de Jesus Cristo, recorreram a toda sorte de meios para destruir esse grande mistrio; deturpam o sentido dos seus prprios 
orculos, ou no os aplicam ao Messias; pretendem que o nome de Deus, Eli, no  particular  divindade, sendo at concedido pelos autores sagrados aos juizes, 
aos magistrados, em geral aos elevados em autoridade; citam, com efeito, grande nmero de passos das Santas Escrituras que justificam esta observao, mas que no 
concedem a mnima ateno aos termos expressos dos antigos orculos que falam do Messias.

Enfim, pretendem que se o Salvador, e depois dele os evangelistas, os apstolos e os primeiros cristos chamam Jesus o filho de Deus, esse termo augusto no significava 
nos tempos evanglicos seno o oposto dos filhos de Belial, isto , homem de bem, servidor de Deus, em oposio a um malvado, um homem que no teme a Deus.

Se os judeus contestaram a Jesus Cristo a qualidade de Messias e sua divindade, nada esqueceram para torn-lo desprezvel, para atirar sobre o seu nascimento, sua 
vida e sua morte, todo o ridculo e todo o oprbrio imaginado pela sua obstinao criminosa.

De todas as obras produzidas pela cegueira dos judeus, nada h de mais odioso e extravagante do que o antigo livro intitulado: Sepher Toldos Jeschut, extrado da 
poeira dos arquivos pelo sr. Wagenseil, no segundo tomo de sua obra intitulada: Tela ignea, etc.

 nesse Sepher Toldos Jeschut que se l uma histria monstruosa da vida do nosso Salvador, forjada com toda paixo e m f possveis. Assim, por exemplo, ousaram 
escrever que um tal Panter ou Pandera, habitante de Betlm, se apaixonara por uma mulher casada com Jocan. Teve desse comrcio impuro um filho que foi chamado Jesu 
ou Jes. O pai desse menino foi obrigado a fugir, retirando-se para Babilnia. Quanto ao jovem Jes, foi enviado  escola; mas, - acrescenta o autor - teve a insolncia 
de levantar a cabea e de se descobrir diante dos sacrificadores, em lugar de se apresentar  sua frente com a cabea baixa e o rosto coberto, como era costume: 
ousadia que foi vivamente punida; o que deu lugar ao exame de seu nascimento, que se revelou impuro e em breve o exps  ignomnia.

Esse detestvel livro Sepher Toldos Jeschut era conhecido desde o segundo sculo;  citado por Celso com confiana e Orgenes refuta-o no nono captulo.

Existe outro livro tambm intitulado Toldos Jeschut, publicado no ano de 1705 pelo Sr. Huldrich, que segue mais de perto o Evangelho da infncia mas que comete, 
a todo momento, os anacronismos e faltas mais grosseiros. Faz nascer e morrer Jesus Cristo no reinado de Herodes, o Grande; pretende terem sido dirigidas a esse 
prncipe as queixas sobre o adultrio de Panter e de Maria, me de Jesus.
O autor, que toma o nome de Jonat, que se diz contemporneo de Jesus Cristo e morador em Jerusalm, adianta que Herodes consultou os senadores de uma cidade da 
terra de Cesrea sobre o caso de Jesus Cristo. No seguiremos um autor to absurdo em todas as suas contradies.

No entanto  a favor de todas essas calnias que os judeus se entretm em seu dio implacvel contra os cristos e contra o Evangelho; nada esqueceram eles para 
alterar a cronologia do Velho Testamento e para espalhar dvidas e dificuldades sobre o tempo da vinda do nosso Salvador. Ahmed-ben-Cassum-al-Andacusi, mouro de 
Granada que viveu nos fins do sculo XVI, cita o antigo manuscrito rabe que foi encontrado junto a seis lminas de chumbo, gravado em caracteres rabes, numa gruta 
perto de Granada. D. Pedro y Quinones, arcebispo de Granada, prestou ele prprio testemunho. Essas lminas de chumbo que chamamos de Granada foram depois transladadas 
para Roma, onde, aps um exame de vrios anos, foram finalmente condenadas como apcrifas, sob o pontificado de Alexandre VII; no continham seno histrias fabulosas 
concernentes  vida de Man e seu filho.

O nome de Messias, acompanhado do epteto falso, ainda se d a esses impostores que, em pocas diversas, procuraram mistificar a nao judaica. Houve desses falsos 
Messias antes mesmo da vinda do verdadeiro ungido de Deus. O sbio Gamaliel fala( 52) de um certo Teodas cuja histria se l nas Antigidades Judaicas de Jos; livro 
20, captulo 2. Jactava-se de haver passado o Jordo a p seco; conseguiu grande nmero de adeptos que o seguiam; mas os romanos, caindo sobre sua tropa, dizimaram-na, 
cortaram a cabea do desgraado chefe e a expuseram em Jerusalm.

Gamaliel fala tambm de Judas, o Galileu, que  sem dvida o mesmo mencionado por Jos, no captulo 12 do segundo livro da Guerra das Judeus. Diz que esse falso 
profeta reunira quase trinta mil adeptos; porm a hiprbole  o caracterstico do historiador judeu.

Desde os tempos dos apstolos viu-se Simo, cognominado o Mgico (53), seduzir os habitantes de Samaria a ponto de o considerarem como a virtude de Deus.

No sculo seguinte, no ano 178 e 179 da era crist, sob o imprio de Adriano, apareceu o falso Messias Barco Queba,  testa de um exrcito. O imperador enviou contra 
ele Jlio Severo, que depois de vrios encontros encerrou os revoltosos na cidade de Biter; manteve um assedio obstinado e foi violentssimo em suas represlias; 
Barco Queba foi preso e condenado  morte. Adriano julgou no poder prevenir as revoltas contnuas dos judeus, seno proibindo-os por dito de irem a Jerusalm; 
estabeleceu, mesmo, postos de vigilncia nas portas dessa cidade, para proibir a entrada ao resto do povo de Israel.

Lemos em Scrates, historiador eclesistico( 54), que no ano 434 apareceu na ilha de Cndia um falso Messias chamado Moiss. Dizia-se o antigo libertador dos hebreus, 
ressuscitado para os libertar de novo. Um sculo depois, em 530, houve na Palestina um falso Messias chamado Julio; anunciou-se como um grande conquistador que, 
 frente de sua nao, destruiria pelas armas todo o povo cristo; seduzidos por suas promessas, os judeus, armados, massacraram muitos cristos. O imperador Justiniano 
enviou tropas contra ele. Travou-se batalha contra o falso Cristo: foi preso e condenado ao suplcio extremo.

No princpio do sculo VIII Sereno, judeu espanhol, apresentou-se como Messias, pregou, teve discpulos e morreu como eles na misria.
Vrios falsos Messias surgiram no sculo XII. Apareceu um na Frana, sob o reinado de Lus, o Jovem; foi enforcado, ele e seus correligionrios, sem que jamais se 
conhecessem os nomes nem do mestre nem dos discpulos.

O sculo XIII foi fertilssimo de falsos Messias; contam-se sete ou oito, aparecidos na Arbia, na Prsia, na Espanha e na Morvia. Um deles, que se fazia chamar 
David el Re, passou por ter sido um grande mrtir, seduziu os judeus, vendo-se  testa de um partido considervel; mas esse Messias foi assassinado.

Jacques Zieglerne, da Morvia, que viveu em meados do sculo XVI, anunciou a prxima manifestao do Messias, nascido, segundo afirmava, havia catorze anos. Ele 
o tinha visto, dizia, em Estrasburgo, e guardava com cuidado uma espada e um cetro para lhos entregar quando ele estivesse em idade de ensinar.

No ano de 1624 outro Zieglerne confirmou a predio do primeiro. Em 1666 Sabat Sev, nascido em Alepo, se apresentou como o Messias predito pelos Zieglerne. Principiou 
por pregar nas estradas reais e no meio dos campos; os turcos riram-se dele, apesar da grande admirao dos seus discpulos. Parece que no agradou  maioria da 
nao hebraica, pois os chefes da sinagoga de Smirna lavraram contra ele uma sentena de morte; mas livrou-se da pena, sofrendo somente o medo e o exlio

Contratou trs casamentos que no chegou a realizar, segundo se diz. Associou-se a um certo Nat Lev: este fez o papel do profeta Elias, que devia preceder o Messias. 
Dirigiram-se a Jerusalm e Nat anunciou Sabat Sev como o libertador das naes. A populao judaica declarou-se a seu favor; mas os que tinham alguma coisa a 
perder o anatematizaram.

Sev, para fugir  borrasca, retirou-se para Constantinopla, e de l para Smirna. Nat Lev enviou-lhe quatro embaixadores que o reconheceram e saudaram publicamente 
na qualidade de Messias; essa embaixada teve certa influncia no povo e mesmo em alguns doutores, que declararam Sabat Sev Messias e rei dos hebreus. Mas a sinagoga 
de Smirna condenou seu rei a ser empalado.

Sabat ps-se sob a proteo do cadi de Smirna, e teve em breve ao seu favor todo o povo judeu. Fez erguer dois tronos, um para ele e outro para sua esposa favorita; 
tomou o nome de rei dos reis e deu a Jos Sev, seu irmo, o de rei de Jud. Prometeu aos judeus assegurar a conquista do imprio otomano. Chegou mesmo  insolncia 
de fazer riscar da liturgia judaica o nome do imperador, substituindo-o pelo seu. Foi remetido  priso dos Dardanelos. Os judeus tornaram pblico que: s se poupara 
a sua vida por que os turcos sabiam muito bem que ele era imortal. O governador dos Dardanelos enriqueceu-se  custa dos presentes que os hebreus lhe prodigalizaram 
para visitar o seu rei, o seu Messias, prisioneiro que, entre grades, conservava toda a sua dignidade, deixando que lhe beijassem os ps.

Entretanto o sulto, que tinha a sua corte em Andrinopla, resolveu acabar com essa comdia; mandou chamar Sev e disse-lhe que se ele fosse Messias deveria ser invulnervel; 
Sev concordou. O gro senhor mandou que o colocassem como alvo das flechas de seus pagens; o Messias compreendeu logo nada ter de invulnervel e pretextou que Deus 
apenas o enviara para render testemunho  santa religio
muulmana. Fustigado pelos ministros da lei, tornou-se mafomista e morreu desprezado igualmente por judeus e muulmanos: o que desacreditou de tal forma a profisso 
de falso Messias que Sev foi o ltimo deles. ( 55).

METAMORFOSE, METEMPSICOSE

No  muito natural que todas as metamorfoses de que a terra est repleta tenham feito imaginar, no Oriente, onde tudo foi imaginado, que nossas almas passam de 
um corpo a outro? Um ponto quase imperceptvel torna-se um verme, esse verme se transforma em borboleta; uma bolota se transforma num tronco, um ovo num pssaro; 
a gua torna-se nuvem e trovo; a madeira troca-se em fogo e cinza; tudo enfim, na natureza, parece metamorfose. No tardamos em atribuir s almas, que olhamos como 
tnues figuras, o que vemos sensivelmente nos corpos mais grosseiros. A idia da metempsicose  talvez o mais antigo dogma do universo conhecido, e reina ainda em 
grande parte da ndia e da China.

 ainda bastante natural que todas as metamorfoses de que somos testemunhas hajam produzido essas antigas fbulas que Ovdio recolheu em sua obra admirvel. Os prprios 
judeus tiveram tambm suas metamorfoses. Se Nobe foi transformada em mrmore, Edite, mulher de L, foi transmutada numa esttua de sal. Se Eurdice ficou nos infernos 
por ter olhado para trs,  tambm pela mesma indiscrio que essa mulher de L foi privada da natureza humana. O burgo habitado por Baucis e Filmon, na Frigia, 
transformou-se em um lago; a mesma coisa sucedeu a Sodoma. As filhas de Anjo transformavam a gua em leo; temos nas Escrituras uma metamorfose mais ou menos parecida, 
porm mais verdadeira e mais sagrada. Cadmo foi transformado em serpente; a virgem de Aaro tornou-se serpente tambm.

Os deuses tambm mudam-se muitas vezes em homens; os judeus jamais viram anjos seno sob a forma humana: os anjos comeram na casa de Abrao. Paulo, em sua Epstola 
aos Corntios, diz que o anjo de Sat lhe deu bofetadas: Angelos Satana me colaphisei.

MILAGRES

Segundo a energia do termo, um milagre  uma coisa admirvel. Nesse caso, tudo  milagre. A ordem prodigiosa da natureza, a rotao de cem milhes de globos ao redor 
de um milho de sis, a atividade da luz, a vida dos animais, constituem perptuos milagres.

Segundo as idias aceitas, chamamos milagre  violao dessas leis divinas e eternas. Assim, quando houver um eclipse do Sol durante a Lua cheia, quando um morto 
fizer a p duas lguas de caminho levando a cabea de baixo do brao, isto quer dizer que sucedeu um milagre.

Vrios fsicos afirmam que, nesse sentido, no existe milagre algum, e eis aqui seus argumentos. Um milagre  a violao das leis matemticas, divinas, imutveis, 
eternas. Mediante essa nica
exposio, um milagre  uma contradio nos termos. Uma lei no pode ser mutvel a violada. Mas uma lei, diz-se-lhes, sendo estabelecida por Deus mesmo, no poder 
ser suspensa pelo seu autor? Tm a ousadia de responder que no e que  impossvel que o Ser infinitamente sbio tenha estabelecido leis para as violar. Um homem, 
dizem eles, no desmonta sua mquina seno para faz-la melhor; ora,  claro que, sendo Deus, ele fez essa imensa mquina o melhor que pode: se viu que haveria alguma 
imperfeio, resultante da natureza da matria, ele a preveniu desde o comeo; assim jamais h de mudar nada.

Demais, Deus nada pode fazer sem razo; ora, que razo poderia lev-lo a desfigurar por algum tempo a sua prpria obra?  em favor dos homens, diz-se-lhes. Ser, 
pois, ao menos em favor de todos os homens respondem eles: pois  impossvel conceber que a natureza divina trabalhe para alguns homens em particular e no para 
todo o gnero humano; mesmo o gnero humano  pouca coisa:  muito menos do que um pequeno formigueiro em comparao com todos os entes que preenchem a imensido. 
Ora, no  a mais absurda das loucuras imaginar que o Ser Infinito invertesse em favor de trs ou quatro centenas de formigas nesse pequeno pedao de lodo, o movimento 
eterno dessas molas imensas que fazem mover o inteiro universo?

Mas suponhamos que Deus desejou distinguir um pequeno nmero de homens com favores particulares: seria preciso que mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos 
e todos os lugares. Ele no tem, por certo, necessidade alguma dessa mudana, dessa inconstncia, para favorecer suas criaturas: seus favores esto encerrados em 
suas prprias leis. Ele tudo preveniu, tudo ordenou para elas; todas obedecem irrevogavelmente  forca que imprimiu para todo o sempre na natureza.

Por que faria Deus um milagre? Para realizar um plano qualquer concernente a alguns seres vivos! Portanto: no pude, com os meus decretos divinos, com minhas leis 
eternas, preencher um certo plano; vou mudar minhas idias eternas, minhas leis imutveis, e tratar de executar o que no consegui fazer por elas. Tal fato seria 
um sinal de sua fraqueza, e no de sua potncia. Seria, parece, nele, a mais inconceptvel contradio. Portanto, ousar supor que Deus realiza milagres  realmente 
insult-lo (se  que os homens podem insultar Deus);  dizer-lhe: "Sois um ente frgil e inconseqente". Portanto,  absurdo crer em milagres,  desonrar de certo 
modo a Divindade.

Insiste-se com esses filsofos, dizendo-lhes: " intil exaltardes a imutabilidade do Ente Supremo, a eternidade de suas leis, a regularidade de seus mundos infinitos; 
nosso pequeno pedao de lodo est repleno de milagres; as histrias esto to repletas de prodgios que estes se tornam acontecimentos naturais. As filhas do sumo 
sacerdote Agno trocavam tudo o que bem entendiam em trigo, em vinho ou leo; Atlida, filha de Mercrio, ressuscitou vrias vezes; Esculpio ressuscitou Hiplito; 
Hrcules arrancou Alceste dos braos da Morte; ros voltou ao mundo aps ter passado quinze dias nos infernos; Rmulo e Remo nasceram de um deus e uma vestal. O 
Paldio tombou dos cus na cidade de Tria; a cabea de Orfeu concedia orculos depois de sua morte; as muralhas de Tebas se construram por si prprias ao som das 
flautas dos gregos; as curas realizadas no templo de Esculpio eram numerosas, e temos ainda monumentos repletos de nomes de testemunhas oculares dos milagres de 
Esculpio.

" Citai-me um nico povo no qual no se tenham operado prodgios incrveis, principalmente nos tempos em que mal se sabia ler e escrever".

Os filsofos no respondem a essas objees seno rindo e dando de ombros; mas os filsofos cristos
dizem: "Cremos perfeitamente nos milagres operados em nossa santa religio; cremo-los mediante nossa f, e no pela nossa razo, que nos guardamos bem de ouvir: 
porque, quando fala a f, sabemos que a razo no deve dizer palavra. Temos uma crena firme e integral nos milagres de Jesus Cristo e dos apstolos, mas permiti-nos 
duvidar um pouco de vrios outros; permiti, por exemplo, que suspendamos nosso julgamento sobre o que concerne a um homem simples ao qual se deu o nome de grande. 
Ele afirma que um pequeno monge estava to acostumado a realizar milagres que o prior lhe proibira exercer seu talento. O pequeno monge obedeceu; mas tendo visto 
um pobre telhador cair do alto de um telhado, ficou indeciso entre salvar-lhe a vida e manter a santa obedincia. Ordenou apenas que o telhador permanecesse suspenso 
a meio caminho do solo, at nova ordem, e correu de pressa a contar ao seu prior o estado das coisas. O prior absolveu-o do pecado que cometera iniciando um milagre 
sem licena e permitiu que o terminasse, contanto que nunca mais o repetisse. Concede-se aos filsofos desconfiar um pouco dessa histria".

Mas como ousareis negar, diz-se-lhes, que S. Gervsio e S. Protsio tenham aparecido em sonho a Santo Ambrsio, que lhe tenham ensinado o lugar onde estavam escondidas 
as suas relquias, que Sto. Ambrsio as tenha desenterrado e que elas curaram um cego? Sto. Agostinho estava nessa poca em Milo;  ele quem nos conta o milagre: 
Immenso populo teste, diz em sua Cidade de Deus, livro 22. Eis um milagre dos melhor averiguados. Os filsofos dizem que no acreditam em nada disso; que Gervsio 
e Protsio no apareceram a pessoa alguma; que pouco importa ao gnero humano saber onde esto os restos de suas carcassas; que no concedem maior crdito a esse 
cego que ao de Vespasiano; que  um milagre inutilssimo; que Deus nada faz de intil; e se mantm firmes em seus princpios. Meu respeito a S. Gervsio e S. Protsio 
no me permite ser do pensar desses filsofos: apenas registo sua incredulidade. Fazem grande caso da passagem de Luciano que se encontra na Morte de Peregrino. 
"Quando um trapaceiro chega a se transformar em cristo,  porque tem certeza de ficar rico". Mas como Luciano  um autor profano, no deve ter nenhuma autoridade 
entre ns.

Esses filsofos no podem se resolver a crer nos milagres operados no segundo sculo. Perdem tempo as testemunhas oculares em escrever que o bispo de Smirna, S. 
Policarpo, tendo sido condenado a ser queimado, e sendo atirado s chamas, ouviram uma voz do cu gritar: "Coragem, Policarpo! S forte, mostra que s homem!"; que 
ento as chamas da fogueira se separaram de seu corpo, formando um pavilho de fogo ao redor de sua cabea, e que do meio da fogueira saiu uma pombinha; enfim, foi 
necessrio decepar a cabea de Policarpo. "Que vale um milagre desses?" - dizem os incrdulos: - "por que motivo as chamas perderam sua natureza e por que o machado 
do carrasco no perdeu a sua? Como se explica que to elevado nmero de mrtires tenham sado sos e salvos do leo fervente, e no puderam resistir ao gume do faco? 
Responde-se que  a vontade de Deus. Mas os filsofos desejariam ter visto todas essas coisas com os seus prprios olhos antes de acreditar.

Os que fortificam seus raciocnios pela cincia vos respondero que os padres da igreja perceberam vrias vezes por si prprios j no se realizarem, os milagres 
de seus tempos. S. Crisstomo diz expressamente: "Os dons extraordinrios do esprito eram dados mesmo aos indignos, porque ento a igreja necessitava de milagres; 
hoje, porm, eles no so concedidos nem mesmo aos dignos, pois a igreja j no os necessita". Em seguida ele concorda em que no h mais pessoas capazes de ressuscitar 
mortos, nem mesmo que curem os doentes.

O prprio Sto. Agostinho, apesar do milagre de Gervsio e de Protsio, diz em sua Cidade de Deus: "Por que no se repetem hoje os milagres de outrora?" E ele mesmo 
explica as razes: "Cur, inquiunt,
nunc illa miracula quae praedicatis facta esse none fiunt? Possem quidem, dicere necessaria prius fuisse quam crederet mundus, ad hoc ut crederet mundus"

Objeta-se aos filsofos que Sto. Agostinho, no, obstante tal confisso, fala no entanto de um velho remendo Hipnio que, tendo perdido sua casaca, foi pregar na 
capela dos vinte mrtires; que ao regressar encontrou um peixe em cujo corpo. estava um anel da ouro, e que o cozinheiro que fritou o peixe disse ao remendo:, "Eis 
o que os vinte mrtires vos do"

A isso respondem os filsofos que nada existe nessa histria que contradiga as leis da natureza, que a fsica no chega a ser abalada pelo fato de um peixe encerrar 
um anel de ouro e que um cozinheiro tenha dado esse anel a um remendo; que no h nisso nenhum milagre.

Se se lembrar a esses filsofos que segundo S. Jernimo, em sua Vida do Eremita Paulo, esse eremita teve vrias conversaes com os stiros e faunos, que um corvo 
lhe levava todos os dias, durante trinta anos, a metade de um po para o seu jantar e um po inteiro no dia em que Sto. Antnio foi visit-lo, eles podero responder 
ainda que esse grande fato no se choca com a fsica, que stiros a faunos podem ter existido e que, em todo caso, se essa histria  uma puerilidade, nada tem de 
comum com os verdadeiros milagres do Salvador e seus apstolos. Vrios bons cristos combateram a histria de S. Simo Estilita, escrita por Teodoreto. Muitos milagres 
que passam por autnticos na igreja grega foram postos em dvida por muitos latinos, da mesma forma que vrios milagres latinos foram desacreditados pela igreja 
grega; vieram em seguida os protestantes, que maltrataram os milagres tanto de uma como de outra igreja.

Um sbio jesuta( 56) que pregou durante muito tempo nas ndias lamenta-se de que nem ele nem seus confrades jamais puderam fazer um milagre. Xavier lamenta-se em 
muitas de suas cartas de no possuir o dom lingustico; diz que entre os japoneses ele  como uma esttua muda. Entretanto, os jesutas escreveram que ele ressuscitou 
oito mortos;  muito; mas  tambm preciso considerar que ele os ressuscitou h cem mil lguas daqui. Ao depois houve gente que pretendeu ser a abolio dos jesutas 
na Frana um milagre muito maior do que os de Xavier e Incio.

Seja como for, todos os cristos convm em que os milagres de Jesus Cristo e dos apstolos so de uma verdade incontestvel, mas que se pode duvidar de todo ponto 
de alguns milagres feitos nos ltimos tempos e que no tm uma autenticidade positiva.

Desejar-se-ia, por exemplo, para que um milagre fosse bem constatado, que se realizasse na presena da Academia das Cincias de Paris, ou da Sociedade Real de Londres, 
e da Faculdade de Medicina, assistido por um destacamento do regimento de guardas a fim de conter a multido, que poderia, com uma indiscrio, impedir a prtica 
do milagre.

Perguntou-se um dia a um filsofo o que diria se visse o Sol deter sua marcha, isto , se o movimento da Terra ao redor desse astro cessasse, se todos os mortos 
ressuscitassem e se todas as montanhas se precipitassem ao mar, tudo para provar alguma importante verdade, como por exemplo a graa verstil. "Que diria?" - respondeu 
o filsofo: - "Tornar-me-ia um maniqueu, diria que existe um princpio que desfaz o que o outro fez".

MOISS

Vrios sbios julgaram que o Pentateuco no pode ter sido escrito por Moiss. Dizem que da prpria Escritura se evidencia que o primeiro exemplar conhecido foi encontrado 
no tempo do rei Josias, e que esse nico exemplar foi apresentado ao rei pelo secretrio Saf. Ora, entre Moiss e essa aventura do secretrio Saf existem mil cento 
e sessenta e sete anos pelo cmputo hebraico. Porquanto Deus apareceu a Moiss no espinheiro ardente no ano do mundo dois mil duzentos e treze, e o secretrio Saf 
publicou o Livro da Lei no ano do mundo trs mil trezentos e oitenta. Esse livro encontrado sob o reinado de Josias foi desconhecido at o retorno da sujeio a 
Babilnia; e diz que foi Esdras, inspirado de Deus, que deu  luz todas as Santas Escrituras.

Ora, seja Esdras ou outro quem escreveu esse livro, isso  absolutamente indiferente desde que o livro foi inspirado. No est dito no Pentateuco que Moiss tenha 
sido seu autor;  pois permitido atribu-lo a outro homem qualquer, a quem o esprito divino o ter ditado.

Alguns contraditores acrescentam que nenhum profeta citou os livros do Pentateuco, que no  referido nem nos Salmos nem nos livros atribudos a Salomo, nem em 
Jeremias nem em Isaas nem, enfim, em livro cannico algum. Os termos que respondem aos de Gnesis, xodo, Nmeros, Levtico, Deuteronmio, no so encontrados em 
nenhum escrito, quer seja do Novo ou do Velho Testamento

Outros mais ousados formularam as seguintes questes: 1a. - Em que lngua Moiss teria escrito, estando num deserto selvagem? No poderia ter sido seno em egpcio: 
porque, por esse prprio livro, v-se que Moiss e todo o seu povo nasceram no Egito.  provvel que no falassem outra lngua. Os egpcios no se serviam ainda 
do papiro, os hierglifos eram gravados sobre mrmore ou madeira. Diz-se at que as tbuas dos mandamentos foram gravadas sobre pedra. Portanto teria sido necessrio 
gravar cinco volumes sobre pedras polidas, o que requereria esforos e tempo prodigiosos.

2a. -  possvel que num deserto onde o povo judeu no tinha nem sapateiros nem alfaiates, e onde o Deus dos universos foi obrigado a realizar um milagre contnuo 
para conservar as velhas roupas e sapatos dos judeus, se tenham encontrado homens suficientemente hbeis para gravar os cinco livros do Pentateuco sobre mrmore 
ou madeira? Responder-se- que, entretanto, foram encontrados operrios capazes de fazer um bezerro de ouro, e que em seguida reduziram o ouro em p; que construram 
um tabernculo; que o adornaram com trinta e quatro colunas de bronze com capitis de prata; que urdiram e recamaram vus de linho, de jacinto, de prpura e escarlate; 
porm esses prprios fatos fortificam a opinio dos contraditores. Respondem no ser possvel que, num deserto onde tudo faltava, se houvessem feito obras to requintadas; 
que teria sido preciso comear por fazer sapatos e tnicas; que os que carecem do necessrio no se podem entregar ao luxo, e que  evidente contradio afirmar 
a existncia de fundidores, gravadores, escultores, tintureiros, recamadores, quando no se tinham nem roupas, nem sandlias, nem po.

3a. - Se Moiss houvesse escrito o primeiro captulo do Gnesis, ter-se-ia proibido a todos os jovens a leitura desse primeiro captulo? Ter-se-ia respeitado to 
pouco o legislador? Se fosse Moiss quem disse
que Deus pune a iniqidade dos pais at a quarta gerao, teria Ezequiel dito o contrrio? 4a - Se Moiss houvesse escrito o Levtico, poderia ter-se contradito 
no Deuteronmio? O Levtico probe casar com as cunhadas, o Deuteronmio o ordena.

5a. - Teria Moiss falado em seu livro a respeito de cidades que ainda no existiam no seu tempo? Teria dito que as cidades que para ele estavam ao oriente do Jordo, 
ficavam ao ocidente?

6a. - Teria ele registado quarenta e oito cidades levticas num pas onde jamais houve dez cidades, e num deserto por onde errou sempre sem ter uma casa?

7a.- Teria prescrito regras para os reis de Deus quando no s no existiam reis entre esse povo como, pelo contrrio, estava ele em estado de completa runa, sendo 
provvel que nunca os possusse? Como! Teria Moiss ditado preceitos para a conduta de reis que no vieram seno quinhentos anos depois dele, sem nada deixar dito 
aos juizes e pontfices que o sucederam? Esta reflexo no induz a crer que o Pentateuco foi composto nos tempos dos reis e que as cerimnias institudas por Moiss 
apenas foram uma tradio?

8a. - Como pode ter ele dito aos judeus: "Eu vos fiz sair em nmero de 600 mil combatentes da terra do Egito, sob a proteo de vosso Deus"? No lhe teriam os judeus 
respondido: " preciso que tenhais sido bem tmido para no nos atirar contra o fara do Egito; ele no nos poderia opor um exrcito de duzentos mil homens. Jamais 
o Egito teve tal nmero de soldados em p de guerra; ns os teramos vencido facilmente, seramos os donos do seu pas. Como o Deus que vos fala assassinou para 
nos agradar todos os primognitos do Egito, e, se houver nesse pas trezentas mil famlias, isto faz trezentos mil homens mortos numa noite, a fim de nos vingar; 
e vs no imitastes o vosso Deus! E vs no nos destes esse pas frtil que ningum poderia defender! Vs nos fizestes sair do Egito de mos a abanar, para fazer 
que morrssemos nos desertos, entre os precipcios e as montanhas! Tereis podido, ao menos, conduzir-nos diretamente a essa terra de Cana sobre a qual no temos 
direito algum, mas que nos prometestes e na qual ainda no pudemos entrar.

" Era natural que da terra de Gessen marchssemos para Tiro e Sidon, ao longo do Mediterrneo; mas vs nos fizestes passar quase todo o istmo de Suez; vs nos fizestes 
penetrar no Egito, quase passar Menfis, e ns nos encontramos em Beel Sefon, nas margens do Mar Vermelho, voltando as costas  terra de Cana, tendo caminhado 80 
lguas nesse Egito que desejvamos evitar, e enfim prestes a perecer entre o mar e o exrcito do fara! " Se houvsseis desejado livrar-nos dos nossos inimigos no 
tereis tomado outra rota e outras medidas? Deus nos salvou com um milagre: o mar foi aberto para que passssemos; mas, aps um tal favor, seria preciso deixar-nos 
morrer  fome e  fadiga nos horrveis desertos de Etam, de Gades Barne, de Mara, de Elim, de Orebe e de Sinai? Todos os nossos pais pereceram nessas solides atrozes, 
e vs vindes dizer, depois de quarenta anos, que Deus teve um cuidado particular com nossos pais!"?

Eis o que esses judeus murmuradores, esses filhos injustos dos judeus vagabundos mortos nos desertos poderiam ter dito a Moiss se ele lhes houvesse lido o xodo 
e o Gnesis. E o que no deveriam eles dizer e fazer a respeito do bezerro de ouro! "Como! Ousais dizer-nos que vosso irmo fez um bezerro de ouro para nossos pais 
quando estveis com Deus na montanha, vs que ora nos dizeis ter falado com Deus face a face e ora que apenas o vistes pelas costas! Mas, enfim, vs estivestes com 
esse Deus e vosso irmo funde num s dia um bezerro de ouro e no-lo d para que o adoremos; e, em lugar de
punir o vosso indigno irmo, fazeis dele nosso pontfice e ordenais a vossos levitas degolar vinte mil homens do vosso povo! Te-lo-iam sofrido nossos pais? Dizeis-nos 
que, no contente com essa carnificina incrvel, fizestes ainda massacrar vinte e quatro mil dos vossos pobres acompanhantes porque um deles se deitara com uma madianita, 
quando vs mesmo desposastes uma madianita; e acrescentais que sois o mais doce de todos os homens! Ainda algumas aes dessa doura e ningum restaria para contar 
a histria.

" No, se fsseis capaz de uma tal crueldade, se a tivsseis podido exercer, sereis o mais brbaro de todos os homens, e todos os suplcios seriam insuficientes 
para expiar um to estranho crime"

So essas, pouco mais ou menos, as objees feitas pelos sbios queles que julgam Moiss autor do Pentateuco. Mas responde-se-lhes que os caminhos de Deus no so 
os dos homens; quer Deus experimentou, conduziu e abandonou o seu povo por uma sabedoria que nos  desconhecida; que os prprios judeus durante dois mil anos julgaram 
haver sido Moiss o autor desses livros; que a igreja, que sucedeu  sinagoga e que  infalvel como ela, decidiu esse ponto de controvrsia, e que os sbios devem 
calar-se quando a igreja fala.

PTRIA

Ptria  um conjunto de vrias famlias; e, como se sustenta comumente a prpria famlia por amor prprio, quando no se tem um interesse contrrio pelo mesmo amor 
prprio se sustenta sua cidade ou sua aldeia que se chama sua ptria.

Quanto mais essa ptria se torna grande menos  amada, porque o amor repartido se debilita e  impossvel amar enternecidamente uma famlia muito numerosa, que apenas 
se conhece. Aquele que se queima na ambio de ser edil, tribuno, pretor, cnsul, ditador, grita que ama a sua ptria, e no ama seno a si prprio. Cada qual deseja 
estar seguro de poder deitar-se, de ter sua cama prpria, sem que outro homem se arrogue o poder de o mandar deitar-se alhures; cada um deseja estar seguro de sua 
fortuna e de sua vida. Todos formam assim os mesmos desejos, e ento o interesse particular se transforma em interesse geral: no se vota seno por si prprio quando 
se vota pela repblica.

 impossvel existir sobre a terra um estado que no seja governado a princpio como repblica:  a marcha natural da natureza humana. Algumas famlias se renem, 
de incio, contra os ursos e contra os lobos; a que tem sementes de trigo fornece-as, em troca, quela que apenas tem lenha.

Quando descobrimos a Amrica encontramos todas as tribos divididas em repblicas; apenas existiam dois remos em toda essa parte do mundo. De milhares de naes somente 
duas encontramos subjugadas.

Foi assim, tambm, no Velho Mundo; tudo era repblica na Europa antes dos rgulos de Etrria e Roma. Encontramos ainda hoje repblicas na frica, - Trpoli, Tunis, 
Arglia, na nossa parte setentrional, so repblicas de bandidos. Os hotentotes do meio dia vivem ainda como se diz que viveram nos primeiros anos do mundo, livres, 
iguais entre eles, sem senhores, sem submisses, sem dinheiro e quase sem necessidades.
A carne de seus carneiros nutre-os, sua pele os veste, choas de madeira e de pedra so seus refgios; so os mais grosseiros de todos os homens, mas no o sentem, 
vivem e morrem mais docemente do que ns.

Restam na nossa Europa oito repblicas sem monarcas: Veneza, Holanda, Sua, Genebra, Lucas, Ragusa, Gnova e So Marinho( 57). Pode-se considerar a Polnia, a Sucia, 
a Inglaterra como repblicas sob um rei; mas a Polnia  a nica que usa o seu nome.

Pois bem, o que ser melhor - que vossa ptria seja um estado monrquico ou um estado republicano? H quatro mil anos se discute essa questo. Perguntai a soluo 
aos ricos, eles preferem a aristocracia; interrogai o povo, ele quer a democracia: apenas os reis preferem a realeza. Como, portanto,  possvel que quase toda a 
terra seja governada por monarcas? Perguntai-o aos ratos que propuseram pendurar uma campainha no pescoo do gato (58). Mas, na verdade, a verdadeira razo , como 
se disse, que os homens so mui raramente dignos de se governar por si prprios.

 deplorvel que quase sempre para ser bom patriota deva-se ser inimigo do resto dos homens. O velho Cato, esse timo cidado, dizia sempre no senado: "Tal  minha 
opinio, e que se arruine Cartago". Ser bom patriota  desejar que sua cidade se enriquea pelo comrcio e seja poderosa pelas armas.  claro que um pas no pode 
ganhar sem que outro perca e que no pode vencer sem fazer desgraados.

Tal , pois, a condio humana, que desejar a grandeza do seu pas  desejar mal aos seus vizinhos. Aquele que pretendesse que a sua ptria no fosse jamais nem 
menor nem maior, nem mais rica nem mais pobre, seria o cidado do universo.

PEDRO

Em italiano Piero ou Pietro; em espanhol Pedro; em latim Petrus; em grego Petros; em hebraico Cepha. Por que os sucessores de Pedro tiveram tantos poderes no Ocidente 
e nenhum no Oriente?  o mesmo que perguntar por que os bispos de Wurtzburg e de Salzburg se atriburam direitos regalianos nos tempos da anarquia, de passo que 
os bispos gregos sempre foram sditos. O tempo, a ocasio, a ambio de uns e a fraqueza de outros tudo fizeram e faro neste mundo.

A essa anarquia ajuntou-se a opinio e a opinio  a rainha dos homens. No que na realidade tenham uma opinio bem determinada, mas palavras fazem-lhe as vezes.

Conta-se no Evangelho que Jesus disse a Pedro: "Dar-te-ei as chaves do reino dos cus." Os partidrios do bispo de Roma sustentaram, pelo sculo XI, que quem d 
o mais d o menos; que os cus rodeiam a terra e que Pedro, tendo as chaves do continente, tinha tambm as chaves do contedo. Se se entender por cus todas as estrelas 
e todos os planetas,  evidente que, segundo Tomsio, as chaves dadas a Simo Barjone, cognominado Pedro, eram um passaporte. Se se entender por cus as nuvens, 
a atmosfera, o ter, o espao em que rolam os planetas, no existem serralheiros, segundo Mersio,
capazes de fazer uma chave para essas portas. As chaves na Palestina eram uma cavilha de madeira que se ligava a uma correia. Jesus disse a Barjone: - "O que ligares 
na terra ser ligado nos cus" - Os telogos do papa concluram que os papas tinham recebido o direito de ligar e desligar os povos do juramento de fidelidade feito 
aos seus reis e de dispor ao seu bel prazer de todos os reinos.  concluir magnificamente. As comunas, nos estados gerais da Frana, em 1302 dizem em seu requerimento 
ao rei que "Bonifcio VIII era um b... que pensava que Deus prendia e ligava ao cu o que Bonifcio ligava na terra". Um famoso luterano da Alemanha (segundo penso, 
Melanchton) custava um pouco a digerir que Jesus houvesse dito a Simo Barjone, Cefa ou Cefas: "Tu s Pedro e sobre esta pedra construirei o meu templo, minha igreja". 
No podia conceber que Deus tivesse empregado semelhante jogo de palavras, uma agudeza to extraordinria, e que a potncia do papa fosse baseada num trocadilho.

Pedro passou por ter sido bispo de Roma; sabe-se porm que nesse tempo e muito depois no houve bispo algum particular. A sociedade crist s tomou forma em fins 
do segundo sculo.

Pode ser que Pedro tenha feito a viagem a Roma; pode ser, tambm, que tenha sido posto na cruz, com a cabea para baixo, no obstante no ser esse o costume; no 
h, porm, prova alguma de tudo isso. Temos uma carta firmada por ele, na qual diz estar em Babilnia: alguns canonistas judiciosos pretenderam que por Babilnia 
se deveria entender Roma. Assim, supondo-se que ele a tenha datado de Roma, poder-se-ia concluir que a carta foi escrita em Babilnia. Durante muito tempo tiraram-se 
concluses iguais e  assim que o mundo foi governado.

Em Roma pagou-se regiamente a um santo homem por uma simnia; perguntaram-lhe se acreditava em que Simo Pedro estivera no pas; respondeu: "No vejo que Pedro a 
tenha estado, mas Simo, tenho a certeza"( 59).

Quanto  pessoa de Pedro,  preciso levar em considerao que Paulo no  o nico que se escandalizou pela sua conduta; foi contestado face a face, ele e seus sucessores. 
Esse Paulo reprovava-lhe acremente o comer carnes. proibidas, isto , porco, presunto, lebre, enguia, ixio e Pedro defendeu-se dizendo que vira o cu abrir-se na 
sexta hora proximamente, e uma grande toalha que descia dos quatro cantos do cu, a qual estava repleta de enguias, de quadrpedes e pssaros, e que a voz de um 
anjo gritara: "Matai e comei". , segundo as aparncias, essa mesma voz que gritou a tantos pontfices: "Matai tudo e: comei a substncia do povo", diz Wollaston.

Casaubon no podia aprovar a maneira por que Pedro tratou o bom Ananias e Safira, sua mulher. Com que direito, diz Casaubon, um judeu escravo dos romanos pende ordenar 
ou admitir que todos os que acreditassem em Jesus deveriam vender suas herdades e trazer o resultado de sua venda a seus ps? Se algum anabatista, em Londres ordenasse 
a mesma coisa a seus irmos, no seria preso como sedutor sedicioso, como ladro que no se deixaria de enviar a Tyburn? No  horrvel fazer Ananias morrer porque, 
tendo vendido seus fundos e dado o dinheiro a Pedro, reteve para si e sua mulher alguns escudos a fim de no morrer de fome? Apenas Ananias foi morto, sua mulher 
chegou. Pedro, em vez de adverti-la caridosamente de que acabava de matar seu marido de apoplexia por haver guardado alguns bulos e de lha recomendar que tomasse 
cuidado consigo prpria,. deixa-a cair numa armadilha. Pergunta-lhe se seu marido deu todo seu dinheiro aos santos. A boa mulher responde que sim e recebe morte 
instantnea.
Isso  duro. Conrngio pergunta por que Pedro, que matou assim esses que lhe deram todos os seus bens, no mandou antes matar todos os doutores que fizeram Jesus 
Cristo morrer e que o fustigaram a ele prprio mais de uma vez? O' Pedro! fazeis morrer dois cristos que vos deram sua esmola e deixais viver aqueles que crucificaram 
vosso Deus!

Por muito que parea que Conrngio no estava em pas de inquisio ao fazer esses quesitos ousados, Erasmo, a propsito de Pedro, acentuou uma coisa bem singular: 
que o chefe da religio crist comeou seu apostolado por renegar Jesus Cristo, e que o primeiro pontfice dos judeus comeara seu ministrio por construir um bezerro 
de ouro e ador-lo.

Seja como for, Pedro nos  descrito como um pobre que catequizava pobres. Ele se parece com esses fundadores de ordens que viviam na indigncia e cujos sucessores 
se tornaram grandes senhores.

O papa, sucessor de Pedro, ora ganhou, ora perdeu; mas ainda lhe restam cinqenta milhes de homens mais ou menos sobre a terra, submissos em muitos pontos s suas 
leis, alm de seus sdito imediatos.

Ter um senhor a trezentas ou quatrocentas lguas da prpria casa; esperar para pensar que esse homem tenha parecido pensar; no ousar julgar em ltimo recurso um 
processo entre alguns de seus concidados atendendo s comissrios nomeados por esse estrangeiro; no ousar tomar posse dos campos e das vinhas que se obtiveram 
do prprio rei sem pagar uma soma considervel a esse senhor estrangeiro; violar as leis de seu pas que probem desposar uma sobrinha, e casar com ela legitimamente 
pagando a esse senhor estrangeiro uma soma ainda mais considervel; no ousar cultivar seu campo no dia em que esse estrangeiro quer que se celebre a memria de 
um desconhecido que ele instalou no cu por sua prpria conta;  isso mais ou menos o que significa admitir um papa; so essas as liberdades da igreja galicana.

H alguns outros povos que levam ainda mais longe sua submisso. Vimos em nossos dias um soberano (60) solicitar ao papa a permisso de fazer julgar pelo seu real 
tribunal alguns monges acusados de parricdio, no obter tal permisso e no ousar cumprir o julgamento. Sabe-se perfeitamente que outrora os direitos dos papas 
iam mais longe; estavam colocados muito acima dos deuses da antigidade; pois esses deuses passavam por dispor dos imprios, e os papas dispunham deles de fato.

Disse Esturbino que se pode perdoar queles que duvidam da divindade e da infalibilidade do papa quando se reflete:

Que quarenta cismas profanaram o plpito de S. Pedro e vinte e sete o ensangentaram; Que Estevo VII, filho de um padre, desenterrou o corpo de Formoso, seu predecessor, 
e fez cortar a cabea do cadver;

Que Srgio III, ru convicto de assassinato, teve um filho de Marzia, o qual herdou do papado;
Que Joo X, amante de Teodora, foi estrangulado em seu leito; Que Joo XI, filho de Srgio III, foi clebre pela sua devassido; Que Joo XII foi assassinado em 
casa da amante; Que Benedito IX, comprou e revendeu o pontificado; Que Gregrio VII foi o autor de quinhentos anos de guerras civis sustentadas por seus sucessores; 
Que enfim, entre tantos papas ambiciosos, sanguinrios e devassos, houve um, Alexandre VI, cujo nome  pronunciado com o mesmo horror que os de Nero e Calgula.

 uma prova, diz-se, da divindade de seus caracteres, o terem subsistido a tantos crimes; mas se os califas tivessem tido uma conduta ainda mais afrontosa, teriam 
ento sido ainda mais divinos.  assim que arrazoa Drmio; porm os jesutas lhe responderam.

PRECONCEITOS

O preconceito  uma opinio sem julgamento. Assim em toda a terra inspiram-se s crianas todas as opinies que se desejam antes que elas as possam julgar.

Existem preconceitos universais, necessrios, e que representam a prpria virtude. Por toda parte ensina-se s crianas reconhecer um Deus remunerador e vingador; 
a respeitar, a amar seu pai e sua me; a considerar o roubo como um crime, a mentira interessada como um vcio, antes que elas possam adivinhar o que vem a ser um 
vcio e uma virtude.

H pois timos preconceitos: so os que o julgamento ratifica quando se raciocina. Sentimento no  mero preconceito,  alguma coisa muito mais forte. Uma me no 
ama a seu filho porque se lhe disse que o deve amar; ela o quer extremosamente mesmo contra sua vontade. No  absolutamente por preconceito que correis em socorro 
de uma criana desconhecida prestes a cair num precipcio ou a ser devorada por uma fera.

 porm por preconceito que respeitareis um homem revestido de certos hbitos, andando gravemente, falando da mesma forma. Vossos pais vos disseram que deveis inclinar-vos 
diante desse homem: vs o respeitais antes de saber se merece vossos respeitos; cresceis em idade e conhecimentos percebeis que esse homem  um charlato empedernido 
de orgulho, de interesse e artifcio; desprezais o que reverenciveis, e o preconceito cede lugar ao julgamento. Acreditastes por preconceito nas fbulas com que 
embalaram vossa infncia; disseram-vos que os tits moveram guerra aos deuses e que Vnus foi amante de Adnis; aos doze anos tomastes tais fbulas por verdades, 
agora, aos vinte anos, como alegorias engenhosas.
Examinemos em poucas palavras as diferentes espcies de preconceitos, a fim de pr nossos negcios em ordem. Seremos, talvez, como aqueles que, no tempo do sistema 
de Law, perceberam que tinham calculado riquezas imaginrias.

Preconceitos dos sentidos

No  curioso que nossos olhos nos enganem sempre, mesmo quando temos a melhor vista do mundo, e que ao contrrio nossos ouvidos no nos enganem nunca? Se vosso 
ouvido bem conformado ouvir: " Sois bela, eu vos amo," estais bem certa de que no vos disseram - "Odeio-vos, sois feia". Mas vedes um espelho liso: est demonstrado 
que vos enganais,  uma superfcie muito desigual. Vedes o Sol com mais ou menos dois ps de dimetro: est demonstrado que ele  um milho de vezes maior do que 
a Terra.

Parece que Deus tenha posto a verdade em vossos ouvidos e o erro em vossos olhos; estudai porm a tica, vereis que Deus no vos enganou de forma alguma, e que  
impossvel que os objetos vos paream diferentes do que os podeis ver no estado presente das coisas.

Preconceitos fsicos

O Sol se ergue, a Lua tambm, a Terra est imvel: - eis a preconceitos fsicos naturais. Mas que as lagostas sejam boas para o sangue, pois estando cozidas so 
vermelhas como ele; que as enguias curem a paralisia, pois se agitam; que a Lua influa nas nossas doenas, pois um dia observou-se que um doente teve um aumento 
de febre durante o curso da Lua: essas idias, e milhares de outras, so erros de velhos charlates, que julgaram sem raciocinar e que, enganando-se, enganaram os 
outros.

Preconceitos histricos

A maioria das histrias foram cridas sem exame, e essa crena  um preconceito. Fbio Pictor relata que, muitos sculos antes dele, uma vestal da cidade de Alba, 
indo buscar gua com o seu cntaro, foi violada e deu  luz a Rmulo e Remo, que eles foram nutridos por uma loba, etc. O povo romano acreditou nessa fbula; no 
perdeu tempo em examinar se naqueles tempos existiam vestais no Lcio, se era possvel que a filha de um rei sasse de seu convento com seu cntaro, se era provvel 
que uma loba amamentasse dois meninos em vez de os comer como fazem todos os lobos. Estabelece-se ento o preconceito.

Um monge escreveu que Clovis, estando num grande perigo na batalha de Tolbiac, fez voto de se tornar cristo se conseguisse escapar;  porm natural que uma pessoa 
se dirija a um deus estrangeiro em
tal ocasio? No  precisamente num momento desses que a religio na qual se nasceu age mais fortemente? Qual  o cristo que, numa batalha contra os turcos, no 
se dirigir antes  Santa Virgem que a Mafoma? Acrescenta-se que um pssaro levou a santa ampola em seu bico a fim de ungir Clovis e que um anjo trouxe a auriflmula 
para o conduzir. O preconceito cr em todas as historietas desse gnero. Os que conhecem a natureza humana sabem que o usurpador Clovis e o usurpador Rolo ou Rol 
se tornaram cristos para governar mais seguramente a cristos, como os usurpadores turcos se tornaram muulmanos para governar mais seguramente os muulmanos.

Preconceitos religiosos

Se vossa sina vos contou que Ceres preside ao trigo ou que Vichn e Xaca se transformaram em homens vrias vezes, ou que Samonocodom veio destruir uma floresta, 
ou que Odin vos espera em sua sala l na Jutlndia, ou que Mafoma ou outro qualquer fez uma viagem ao cu; enfim se vosso preceptor vem em seguida refundar em vosso 
crebro o que vossa ama a gravou, tendes com que vos divertir para o resto da vida. Vosso julgamento quer elevar-se contra tais preconceitos; vossos vizinhos, e 
sobretudo vossas vizinhas, berram contra a impiedade, e vos assustam; vosso dervs, temendo ver diminudas as suas rendas, denuncia-vos ao cadi, e esse cadi vos 
manda empalar se o puder, porquanto o seu desejo  mandar sobre idiotas, e cr que os idiotas obedecem melhor do que os outros. E esse estado de coisas durar at 
que vossos vizinhos e o dervs e o cadi comecem a compreender que a cretinice no serve para coisa alguma e que a perseguio  abominvel.

RELIGIO Primeira questo

O bispo de Glocester, Warburton, autor de uma das mais sbias obras que j se escreveram, assim se exprime, pgina 8, tomo 1o.: " Uma religio, uma sociedade que 
no est fundada sobre a crena numa outra vida deve ser sustida por uma providncia extraordinria. O judasmo no est fundado sobre a crena numa outra vida; 
portanto o judasmo foi sustido por uma providncia extraordinria".

Vrios telogos se ergueram contra ele; e como se retorquem todos os argumentos, retorquiram o seu; disseram-lhe:

" Toda religio que no estiver baseada sobre o dogma da imortalidade da alma e sobre as penas e recompensas eternas  necessariamente falsa; ora, o judasmo no 
conheceu esses dogmas; portanto o judasmo, longe de ser sustido pela Providncia, era, segundo vossos princpios, uma religio falsa e brbara que atacava a Providncia".
Esse bispo teve alguns adversrios que lhe afirmaram que a imortalidade da alma era conhecida entre os judeus, nos prprios tempos de Moiss; ele lhes provou porm 
mui evidentemente que nem o Declogo, nem o Levtico, nem o Deuteronmio tinham uma nica palavra a respeito dessa crena, e que  ridculo pretender turvar e corromper 
algumas passagens dos outros livros para concluir da uma verdade que no est absolutamente anunciada no livro da lei.

O senhor bispo, tendo escrito quatro volumes para demonstrar que a lei judaica no propunha nem penas nem recompensas depois da morte, jamais pde responder a seus 
adversrios de maneira satisfatria. Estes lhe diziam: "Ou Moiss conhecia esse dogma e ento enganou os judeus no o manifestando; ou ignorava-o, e nesse caso no 
tinha conhecimentos suficientes para formar uma boa religio. Com efeito, se a religio fosse boa, por que teria sido abolida? Uma religio verdadeira deve ser para 
todos os tempos e todos os lugares; ela dever ser como a luz do Sol que ilumina todos os povos e todas as geraes".

Esse prelado, por esclarecido que fosse, teve muito trabalho em se livrar de todas essas difceis proposies; porm qual o sistema isento de dificuldades!

Segunda questo

Outro sbio muito mais filosfico, que  um dos mais profundos de nossos dias, apresenta fortes razes para provar que o politesmo foi a primeira religio dos homens, 
e que se comeou por crer em vrios deuses antes que a razo fosse suficientemente esclarecida para no reconhecer seno um Ente Supremo.

Ouso crer, ao contrrio, que se principiou por reconhecer um nico Deus, e que em seguida a fraqueza humana adotou vrios deles; e eis como concebo a coisa:

 indubitvel haverem existido burgos antes que se construssem grandes cidades, e que todos os homens foram divididos em repblicas antes de ser reunidos em grandes 
imprios.

 bem natural que um burgo atemorizado pelo trovo, afligido pela perda de suas colheitas, maltratado pelo burgo vizinho, sentindo todos os dias a prpria fraqueza, 
pressentindo por toda parte um poder invisvel, tenha terminado por dizer: "Existe algum ser acima de ns que nos causa bens e males".

Parece-me impossvel que tenha dito: "H dois poderes". Por que vrios? Principia-se sempre pelo simples, em seguida vem o composto e amide, enfim, volta-se ao 
simples merc de luzes superiores. Tal  a marcha do esprito humano.

Qual  esse ente que se teria invocado a princpio? Seria o Sol? Seria a Lua? No creio. Examinemos o que se passa entre as crianas; representam mais ou menos o 
que so os homens ignorantes. No percebem a beleza nem a utilidade do astro que anima a natureza, nem os socorros que a Lua nos presta, nem as variaes regulares 
do seu curso; no o pensam, esto muito acostumadas a todas essas coisas.
No se adora, no se cr seno aquilo que se teme; todas as crianas olham para o cu com indiferena; mas estruja o trovo e elas tremero, iro se esconder.

Sem dvida, os primeiros homens agiram de forma idntica. Apenas umas espcies de filsofos que assinalaram o curso dos astros ensinaram tambm a admirao e adorao; 
os cultivadores simples e sem luz alguma no conheciam o bastante para perfilhar to nobre erro.

Portanto, uma aldeia ter-se- limitado a dizer: "H uma potncia que troveja, que atira neve sobre ns, que faz morrer nossos filhos: acalmemo-la; mas como? Vemos 
que acalmamos com pequenos presentes a clera das pessoas irritadas: faamos pois pequenos presentes a essa potncia.  tambm preciso dar-lhe um nome. O primeiro 
que se oferece  o de Chefe, Dono, Senhor; essa potncia  pois chamada Senhor.  provavelmente a razo pela qual os primeiros egpcios chamaram ao seu deus Knef; 
os srios, Adonai; os povos vizinhos, Baal ou Bel, ou Melch, ou Moloch; os citas, Papeu: palavras que significam Senhor, Mestre.

Foi assim que se encontrou quase toda a Amrica dividida numa multido de pequenas populaes, tendo todas seu deus protetor. Os prprios mexicanos, os peruvianos, 
que eram grandes naes, tinham apenas um deus: uns adoravam Manco Capaque, outros o deus da guerra. Os mexicanos davam ao seu deus guerreiro o nome de Vitzlipufzli, 
assim como os hebreus haviam cognominado o seu senhor de Sabaoth.

No  por uma razo superior e cultivada que todos os povos comearam a reconhecer uma nica divindade. Se tivessem sido filsofos, teriam adorado o deus de toda 
a natureza, e no o deus de uma aldeia; teriam examinado essas relaes infinitas de todos os seres, que provam um ente criador e conservador; porm eles no examinaram 
nada, eles sentiram. A est o progresso de nosso frgil entendimento; cada burgo sentiu sua fraqueza e a necessidade de um forte protetor. Imaginou esse ser tutelar 
e terrvel residindo na floresta vizinha, ou na montanha, ou numa nuvem. Apenas imaginou um s deus, pois o burgo no tinha seno um chefe na guerra. Imaginou-o 
corporal, porque era impossvel figur-lo de outra forma. No podia crer que o burgo vizinho no tivesse tambm o seu deus. Eis por que Jeft disse aos habitantes 
de Moabe: "Possus legitimamente o que vosso deus Camos vos fez conquistar; deveis deixar-nos gozar dos bens que nosso deus nos concedeu por suas vitrias"( 61).

Tais palavras ditas por um estrangeiro a outros estrangeiros so notveis. Os judeus e os moabitas tinham desapossado os naturais do pas; uns e outros apenas tinham 
o direito da fora, e uns disseram aos outros: - "Vosso Deus vos protegeu em vossa usurpao, tolerai agora que nosso Deus nos proteja na nossa".

Jeremias e Amos perguntaram um ao outro "que razo teve o deus Melcom para se apoderar do pas de Gade". Parece evidente, por essas passagens, que a antiguidade 
atribua a cada pas um Deus protetor. Encontram-se ainda hoje vestgios dessa teologia em Homero.

 bem natural que havendo-se aquecido a imaginao dos homens e tendo seu esprito adquirido conhecimentos confusos, tenham eles multiplicado seus deuses, e estipulado 
protetores para os elementos, mares, florestas, fontes, campos. Quanto mais examinaram os astros, mais foram feridos pela admirao. Poder-se- no adorar o Sol, 
quando se adora a divindade de um ribeiro? Desde que o
primeiro passo foi dado, a terra em breve foi coberta de deuses; e enfim desce-se dos astros aos gatos e s cebolas.

Entretanto  preciso que a razo se aperfeioe; o tempo forma, enfim, os filsofos que percebem que nem as cebolas, nem os gatos, nem mesmo os astros concertaram 
a ordem da natureza. Todos esses filsofos babilnicos, persas, egpcios, citas, gregos e romanos admitem um Deus supremo remunerador e vingador.

Eles no o dizem a princpio ao povo: pois quem falasse mal das cebolas e dos gatos diante das velhas e dos padres teria sido lapidado; quem quer que reprochasse 
aos egpcios o fato de comerem os seus deuses, acabaria sendo ele prprio devorado, como, de feito, Juvenal nos relata que um egpcio foi morto e comido completamente 
cru numa disputa de controvrsia (62).

Mas que se fez? Orfeu e outros estabeleceram mistrios, que os iniciados prometeram mediante juramentos execrveis nunca revelar, e o principal desses mistrios 
 a adorao de um nico Deus. Essa grande verdade penetra metade da terra; o nmero dos iniciados torna-se imenso.  verdade que a antiga religio sempre subsistiu; 
mas, como no  contrria ao dogma da unidade de Deus, deixa-se que subsista. E por que aboli-la? Os romanos reconhecem o Deus optimus maximus; os gregos tm o seu 
Zeus, seu Deus supremo. Todas as outras divindades so apenas intermedirias: imperadores e reis so instalados no posto de deuses, isto , de bem-aventurados;  
porm certo que Cludio, Otvio, Tibrio e Calgula no so considerados como criadores do cu e da terra.

Numa palavra, parece provado que, no tempo de Augusto, todos os que tivessem uma religio reconheciam um Deus superior, eterno, e vrias ordens de deuses secundrios, 
cujo culto foi chamado mais tarde idolatria.

Os judeus jamais foram idlatras: porque, no obstante terem admitido alguns malakhim, anjos, seres celestes de uma categoria inferior, sua lei no ordenava de forma 
alguma que tais divindades secundrias tivessem culto entre eles. Adoravam os anjos,  verdade, isto , prostravam-se diante deles quando bem entendiam; mas, como 
isto no sucedia com freqncia, no havia cerimonial nem culto estabelecido para eles. Os querubins da arca no recebiam homenagem alguma. Era costume adorarem 
os judeus abertamente um nico Deus, assim como a multido inumervel dos iniciados o adoravam secretamente em seus mistrios.

Terceira questo

Foi ao tempo em que o culto de um Deus supremo estava universalmente estabelecido na opinio de todos os sbios, na sia, na Europa e na frica, que a religio crist 
nasceu e se desenvolveu.

O platonismo auxiliou bastante a compreenso de tais dogmas. O Logos, que para Plato significava a sapincia, a razo do Ser Supremo, tornou-se em nossos tempos 
o Verbo e uma segunda pessoa de Deus. Uma metafsica profunda e acima da inteligncia humana foi um santurio inacessvel no qual se desenvolveu a religio.
No procuremos repetir aqui como Maria foi declarada me de Deus, como se estabeleceu a consubstancialidade do Pai e do Verbo e a processo do Pneuma, rgo divino 
do divino Logos, duas naturezas e duas vontades resultantes da hipstase, e enfim a manducao superior, a alma nutrida tal como o corpo dos membros e do sangue 
do Homem-Deus adorado e comido sob a forma do po, presente aos olhos, sensvel ao paladar, e contudo anulado. Todos os mistrios foram sublimes.

Comeou-se, desde o segundo sculo, por esconjurar os demnios em nome de Jesus; depois se expulsavam em nome de Jeov ou Ihaho: pois conta S. Mateus que tendo os 
inimigos de Jesus dito que ele esconjurava os demnios em nome do prncipe dos demnios, ele lhes respondeu: "Se  por Belzeb que eu esconjuro os demnios, em nome 
de quem o fazem vossos filhos?"

No se sabe em que tempo os judeus reconheceram por prncipe dos demnios a Belzeb, que era um Deus estrangeiro; sabe-se porm (e  Jos quem no-lo diz) que havia 
em Jerusalm exorcistas especiais para esconjurar os demnios dos corpos dos possessos, isto , dos homens atacados de doenas singulares, as quais se atribuam 
ento em grande parte da terra a gnios malfeitores.

Exconjuravam-se pois os demnios com a verdadeira pronunciao de Jeov hoje perdida, e com outras cerimnias esquecidas hoje em dia.

Esse exorcismo por Jeov ou outros nomes de Deus estava ainda em uso nos primeiros sculos da igreja. Orgenes, disputando contra Celso, diz-lhe, no. 262: "Se, invocando 
Deus ou jurando em seu nome, chamam-no o Deus de Abrao, de Isaque e de Jac, alguma coisa h de haver nesses nomes, cuja natureza e fora so tais que os demnios 
se submetem a quem os pronuncia; mas se o chamamos com outro qualquer nome, como Deus do mar ardente, suplantador, esses nomes no tero virtude. O nome de Israel 
traduzido em grego nada operar; pronunciai-o porm em hebreu, com os outros termos necessrios, e imediatamente operareis a conjurao".

O prprio Orgenes, no nmero 19, diz estas palavras notveis: "H nomes que tm uma virtude natural, como os que empregam os sbios entre os egpcios, os magos 
da Prsia, os brmanes da ndia. O que chamamos magia no  uma arte v e quimrica, tal como o pretendem os esticos e os epicuristas: nem o nome de Sabaote nem 
o de Adonai foram feitos para seres criados; mas pertencem a uma teologia misteriosa que se liga ao Criador; de l vem a virtude desses nomes quando coordenados 
e pronunciados segundo as regras, etc.".

Assim falando Orgenes no apresenta seu sentimento particular: exprime a opinio universal. Todas as religies ento conhecidas admitiam uma espcie de magia; distinguia-se 
a magia celeste e a magia infernal, a necromancia e a teurgia: tudo a era prodgio, adivinhao, orculo. Os persas no negavam os milagres dos egpcios, nem os 
egpcios os dos persas; Deus permitiu que os primeiros cristos fossem persuadidos dos orculos atribudos s sibilas, e lhes deixou ainda alguns erros pouco importantes, 
que no corrompiam o fundamento da religio.

Coisa grandemente notvel  que os cristos dos dois primeiros sculos votavam o maior horror aos templos, aos altares e s imagens.  o que diz Orgenes, no. 374. 
Tudo mudou depois com a disciplina, quando a igreja recebeu uma forma constante.

Quarta questo

Desde que uma religio  legalmente estabelecida num estado, todos os tribunais se ocupam imediatamente de impedir que se modifiquem a maioria dos atos praticados 
nessa religio antes de ter sido publicamente acatada. Os fundadores reuniam-se secretamente apesar dos magistrados; hoje no se permitem as assemblias pblicas 
seno sob os olhos da lei, e todas as associaes que se afastarem dela so proibidas. A antiga mxima era que  melhor obedecer a Deus do que seguir as leis do 
estado. Apenas se ouvia falar em obsesses e possesses, o diabo andava  solta na terra: j hoje o diabo no sai de sua morada. Os prodgios, as profecias, eram 
necessrias ento: j no se admitem. Um homem que profetizasse calamidades nas praas pblicas seria metido num manicmio. Os fundadores recebiam secretamente dinheiro 
dos fiis; um homem que recolhesse hoje dinheiro para dele dispor sem ser autorizado pela lei teria que responder perante a justia. Assim, esto completamente fora 
de uso todos os caibros que serviram para construir o edifcio.

Quinta questo

Depois da nossa santa religio, que sem dvida alguma  a nica boa, qual ser a menos m? No seria a mais simples? No seria aquela que ensinasse muita moral e 
pouqussimos dogmas? a que tendesse a tornar os homens justos sem os tornar absurdos? a que no ordenasse absolutamente crer em coisas impossveis, contraditrias, 
injuriosas  Deidade e perniciosas ao gnero humano, e que no ousasse ameaar com as penas eternas os que tivessem o senso comum? No seria aquela que no sustentasse 
sua crena por intermdio de tribunais nem inundasse a terra de sangue por causa de sofismas ininteligveis? aquela que de um equvoco, um jogo de palavras e duas 
ou trs cartas sobrepostas no fizesse um soberano, e um Deus de um padre freqentemente incestuoso, homicida e envenenador? a que no submetesse os reis a esse 
padre? a que no ensinasse seno a adorao de um Deus, a justia, a tolerncia e a humanidade?

Sexta questo

Diz-se que a religio dos gentios era absurda em muitos pontos, contraditria, perniciosa; mas no se lhe teriam imputado maiores males do que na realidade praticou, 
e mais tolices do que pregou?

" Pois em ver Jpiter mudado em touro, - serpente, mono ou outra coisa qualquer, - nada de belo encontro - nem me admirar se suceder". (Prlogo de Anftrion).

Sem dvida isto  muito impertinente; mostrem-me, porm, em toda a antigidade um templo dedicado a Leda deitando com um mono ou com um touro. Houve em Atenas ou 
Roma algum sermo
para encorajar as moas a fazer crianas com os macacos do seu ptio? As fbulas recolhidas e ornadas por Ovdio constituem a religio? No se parecem elas  nossa 
Lenda Dourada,  nossa Flor dos Santos? Se algum brmane ou dervis nos viesse objetar a histria de Santa Maria egipciana, a qual, no tendo com que pagar aos marinheiros 
que a conduziram ao Egito, deu a cada um deles o que chamamos favores,  guisa de dinheiro, diramos ao brmane: "Meu reverendo padre, estais enganado, nossa religio 
no  a Lenda Dourada".

Reprovamos aos antigos seus orculos, seus prodgios: se eles voltassem ao mundo e pudssemos contar os milagres de Nossa Senhora de Loreto e os de Nossa Senhora 
de feso, para que lado penderia a balana?

Os sacrifcios humanos foram estabelecidos em quase todos os povos, mas muito raramente postos em uso. Apenas temos a filha de Jeft e o rei Agague imolados entre 
os judeus, porque Isaque e Jnatas jamais o foram. A histria de Ifignia no  muito acreditada entre os gregos; os sacrifcios humanos so muito raros entre os 
antigos romanos. Numa palavra, a religio pag fez derramar pouqussimo sangue, enquanto a nossa alagou a terra. A nossa  sem dvida a nica boa, a nica verdadeira; 
mas fizemos tanto mal por seu intermdio que quando falamos das outras devemos ser modestos.

Stima questo

Se um homem quiser persuadir de sua religio a estrangeiros ou compatriotas no dever empregar a doura mais insinuante e a mais acareante moderao? Se comear 
por dizer que o que ele anuncia est demonstrado, encontrar uma multido de incrdulos; se ousar dizer-lhes que eles no rejeitam a sua doutrina seno porque ela 
condena as suas paixes, que o seu corao corrompeu o seu esprito, que eles apenas tm uma razo falsa e orgulhosa, ele os revolta, anima-os contra si, arruina 
ele prprio o que quer edificar.

Se a religio que anuncia  verdadeira, torn-la-o a insolncia e o arrebatamento mais verdadeira? Ficais encolerizados quando dizeis que  preciso ser dcil, paciente, 
benfeitor, justo, preencher todos os deveres da sociedade? No, porque todo mundo  do vosso parecer. Por que, pois, dizeis injrias ao vosso irmo quando lhe pregais 
uma metafsica misteriosa?  que o seu bom senso irrita o vosso amor prprio. Tendes o orgulho de exigir que vosso irmo submeta a sua inteligncia  vossa; o orgulho 
humilhado conduz  clera, nem  outra a sua origem. O homem ferido por vinte balas numa batalha no fica encolerizado; mas um doutor ferido pela recusa de um sufrgio 
torna-se furioso e implacvel.

RESSURREIO

Conta-se que os egpcios no construram as suas pirmides seno para fazer tmulos e que os seus corpos embalsamados por dentro e por fora esperavam que suas almas 
viessem reanim-los ao fim de mil anos. Mas se os seus corpos deviam ressuscitar, por que a primeira operao dos perfumistas era
perfurar-lhes o crnio e tirar-lhes o crebro? A idia de ressuscitar sem crebro faz supor (se se permitir a expresso) que os egpcios no o tinham muito vivo; 
 preciso, porm, considerar que a maioria dos antigos julgava que a alma estivesse no peito. E por que deveria estar no peito mais do que em qualquer outra parte? 
 que, com efeito, em todos os nossos sentimentos um pouco violentos experimentamos perto do corao um confrangimento ou uma dilatao, que fez pensar ser ali o 
alojamento da alma. Essa alma era qualquer coisa de abstrato, de areo; era uma figura leve que vagava pelo espao at encontrar de novo seu corpo.

A crena da ressurreio  muito mais antiga do que os tempos histricos. Atlida, filha de Mercrio, podia morrer e ressuscitar ao seu bel prazer: Esculpio restituiu 
a vida a Hiplito; Hrcules a Alceste; Plopes, tendo sido cortado em pedaos pelo pai, foi ressuscitado pelos deuses. Conta Plato que Eros ressuscitou por quinze 
dias somente.

Os fariseus, entre os judeus, s adotaram o dogma da ressurreio muito tempo depois de Plato. H nos Atos dos Apstolos um fato bem singular e digno de ateno 
Jac e vrios dos seus companheiros aconselharam S. Paulo a ir ao templo de Jerusalm observar todas as cerimnias da antiga lei, por cristo que ele fosse, "a fim 
de que todos saibam", dizem-lhe, "que tudo o que se diz de vs  falso e que continuais a guardar a lei de Moiss".

Ento S. Paulo foi durante sete dias ao Templo, mas no stimo foi reconhecido. Acusaram-no de l ter ido com estrangeiros e de o ter profanado. Eis como ele se livrou 
da entaladura:

" Ora, sabendo Paulo que uma parte dos que l estavam eram saduceus e outra fariseus, gritou na assemblia: "Meus irmos, eu sou fariseu e filho de fariseu;  por 
causa da esperana duma outra vida e da ressurreio dos mortos que me querem condenar" (63). No houvera nenhuma questo da ressurreio dos mortos em todo esse 
negcio; Paulo dizia-o apenas para atirar os fariseus e saduceus uns contra os outros.

V. 7. "Paulo, tendo assim falado, motivou uma dissenso entre os fariseus e saduceus, e a assemblia foi dividida.

V. 8. "Porque os saduceus dizem que no h ressurreio, nem anjo, nem esprito, enquanto os fariseus reconhecem um e outro, etc.".

Pretendeu-se que J, que  muito antigo, conhecesse o dogma da ressurreio. Citam-se as suas palavras: "Sei que o meu redentor est vivo e que um dia a sua redeno 
se erguer sobre mim, ou que eu me erguerei do p, que minha pele voltar e que ainda verei Deus em minha carne". ( 64)

Mas vrios comentadores entendem por essas palavras que J espera que h de melhorar em breve de sua doena, e que no permanecer sempre deitado na terra como estava. 
H provas de que essa explicao seja verdadeira, porque ele gritou aos seus falsos e empedernidos amigos: "Por que ento dizeis: persigamo-lo?" ou ento: "Porque 
direis: porque ns o perseguimos". Isso evidentemente no quer dizer: "Arrepender-vos-eis de me haver ofendido quando me virdes no meu primeiro estado de sade e 
opulncia"? Um doente que diz: "Eu me levantarei", no diz: "Eu ressuscitarei". Dar sentidos forados a
passagens claras  o meio seguro de jamais se entender. S. Jernimo coloca o nascimento da seita dos fariseus muito pouco tempo antes de Jesus Cristo. O rabino Hilel 
passa por ser o fundador da seita farisaica, e esse Hilel foi contemporneo de Gamaliel, o mestre de So Paulo.

Vrios desses fariseus acreditavam que somente os judeus ressuscitariam e que o resto dos homens no valiam a pena. Outros sustiveram que no se ressuscitaria seno 
na Palestina, e que os corpos daqueles que forem enterrados alhures sero secretamente transportados para Jerusalm, a fim de se juntarem  sua alma. Mas So Paulo, 
escrevendo aos habitantes de Tessalnica, diz-lhes que "O segundo advento de Jesus Cristo  para eles e para ele, que eles sero testemunhas".

V. 16. "Porque logo que o sinal for dado pelo arcanjo e pelo som da trombeta de Deus o prprio Senhor descer do cu, e os que estiverem mortos em Jesus Cristo ressuscitaro 
por primeiros".

V. 17. "Depois ns que somos vivos e que tenhamos sobrevivido at ento seremos elevados com eles s nuvens para irmos perante o Senhor, no meio do ar, e assim viveremos 
para sempre com o Senhor" (65).

Essa importante passagem no prova evidentemente que os primeiros cristos esperavam ver o fim do mundo, como de feito se prediz em S. Lucas, no tempo mesmo em que 
viveu S. Lucas?

Acreditava Sto. Agostinho que as crianas, e mesmo as crianas natimortas, ressuscitariam na idade madura. Os Orgenes, os Jernimos, os Atansios, os Baslios no 
creram que as mulheres pudessem ressuscitar com o seu sexo.

Enfim, sempre disputamos sobre o que fomos, sobre o que somos e sobre o que seremos.

SALOMO

Teria sido Salomo rico como se disse? Afianam os Paralipmenos que o "melk" Davi, seu pai, deixou-lhe cerca de vinte milhes de nossa moeda corrente, segundo o 
clculo mais modesto. No h tal soma de dinheiro corrente em toda a terra e  muito difcil que Dav tivesse podido amealhar tamanho tesouro no pequeno pas da 
Palestina.

Salomo, segundo o terceiro livro dos Reis, tinha quarenta mil coudelarias para os cavalos de suas carruagens. Quando mesmo cada coudelaria no contivesse mais que 
dez cavalos, isso somaria apenas o nmero de quatrocentos mil que, juntos a seus doze mil cavalos de sela, teria feito quatrocentos e doze mil cavalos de batalha. 
 muito para um "melk" judeu que jamais praticou a guerra. Essa magnificncia no tem exemplo num pas que apenas produzia asnos e onde hoje no existe outra montaria. 
Mas parece que os tempos mudaram.  verdade que um prncipe to sbio, que tinha mil mulheres, podia ter tambm quatrocentos e doze mil cavalos, quando mais no 
fosse para lev-las a passeio ou ao longo do lago de Genezar ou de Sodoma, ou  torrente de Cedro, que  um dos stios mais deliciosos da terra, embora,
na verdade, essa torrente esteja seca durante nove meses do ano e o terreno seja um tanto rochoso. Mas teria esse sbio Salomo realmente escrito as obras que lhe 
atribuem?  verossmil, por exemplo, que seja o autor da gloga intitulada Cntico dos Cnticos?

Pode ser que um monarca que possua mil mulheres dissesse a uma delas: "Que ela me beije com um beijo de sua boca, pois seus seios so melhores do que o vinho". 
Um rei e um pastor, quando se trata de beijar na boca, podem se exprimir da mesma maneira.  verdade que  muito estranho haver-se pretendido que foi a moa quem 
assim falou elogiando os seios do amante.

No negarei que um rei galante tenha podido fazer que sua amante dissesse: - "Meu bem amado  como um ramilhete de mirra, ele morar em meus seios". No entendo 
muito bem o que significa esse ramilhete de mirra; mas enfim, quando a bem amada diz ao bem amado que lhe passe a mo direita sobre o pescoo e a abrace com a direita, 
entendo muito bem. Poder-se-ia pedir algumas informaes ao autor do Cntico quando diz: "Vosso umbigo  como uma taa na qual h sempre algo que beber; vosso ventre 
 como um alqueire de trigo; vossos seios so como duas crias de cervo e vosso nariz  como a torre do monte Lbano".

Confesso que as glogas de Virglio so de outro estilo; mas cada um tem o seu, e um judeu no  obrigado a escrever como Virglio.

 aparentemente um belo efeito de eloquncia oriental dizer: "Nossa irm  ainda pequena, ela no tem seios. Que faremos de nossa irm? Se  um muro, construamos 
sobre ele; se  uma porta, fechemo-la".

Belas coisas, belas anedotas para Salomo, o mais sbio dos homens... Era, dizem, seu epitlamo para o seu casamento com a filha do fara;  porm natural que o 
genro do fara deixe sua bem amada durante a noite para ir passear em seu jardim das nogueiras, que a rainha corra sozinha, descala, atrs dele, que seja espancada 
pelos guardas da cidade e que estes lhe tirem a roupa?

Poderia a filha de um rei ter dito: "Eu sou morena, mas sou bela como as pelias de Salomo"? Tais expresses poder-se-iam atribuir a um pastor, porquanto ao cabo 
de contas no h grande relao entre pelias e a beleza de uma moa. Mas, enfim, as pelias de Salomo poderiam ter sido admiradas em seu tempo, e um judeu do povo, 
que fazia versos  amante, poderia ter dito, em seu linguajar judeu, que jamais rei algum tivera roupas de pele to bonitas como as dela; quanto ao rei Salomo, 
deveria estar muito entusiasmado com suas pelias para compar-las  amante: se um rei de nossos dias compusesse um tal epitlamo para o seu casamento com a filha 
de um rei vizinho no passaria, com toda certeza, pelo melhor poeta de seu reino.

Vrios rabinos sustiveram que no s essa pequena gloga voluptuosa no era do Salomo, mas que tambm no era autntica. Teodoro de Mopsueste tinha idntica opinio, 
e o clebre Grtio chama ao Cntico dos Cnticos obra libertina, flagitiosus; contudo ela est consagrada, e  considerada como uma perptua alegoria dos esponsais 
de Jesus Cristo com sua igreja.  preciso no esquecer que a alegoria  um pouco forte, nem se sabe que poderia a igreja deduzir do ponto em que o autor diz que 
sua irm no tem seios, e que, se  um muro,  preciso construir sobre ela.
O livro da Sabedoria tem um tom mais srio; porm no pertence mais a Salomo do que o Cntico dos Cnticos. Atribui-se comumente a Jesus, filho de Siraque, outros 
a Flon de Biblos; mas, seja quem for o autor, parece que no seu tempo ainda no existia o Pentateuco, porque ele diz no captulo 10 que Abrao quis imolar Isaque 
no tempo do dilvio, e, por outro lado, fala do patriarca Jos como de um rei do Egito.

Os Provrbios foram atribudos a Isaas, a Elzias, a Sobna, a Eliacin, a Joaqu e a vrios outros. Mas, quem quer que seja que compilou essa coletnea, de sentenas 
orientais, no h o menor viso de verdade em que tenha sido um rei quem se deu a tal trabalho. Teria ele dito que "O terror do rei  como o rugido de um Leo"?  
assim que fala um sdito ou um escravo, que a clera do seu senhor faz tremer. Teria Salomo falado tanto da mulher impudica? Teria dito: "No olheis o vinho quando 
se afigura claro e sua cor brilha atravs do copo"?

Ponho francamente em dvida a existncia de copos no tempo de Salomo:  uma inveno muito recente; toda a antigidade bebia em taas de madeira ou de metal; e 
essa nica passagem indica que essa obra foi elaborada por um judeu de Alexandria muito tempo depois de Alexandre.

Resta o Eclesiastes, que Grtio pretende ter sido escrito sob o reinado de Zorobabel. Sabe-se perfeitamente com que liberdade o autor do Eclesiastes se exprime; 
sabe-se que ele disse que: "Os homens nada tm mais do que as bestas; que mais vale nunca ter nascido, do que existir; que no existe nenhuma outra vida; que a nica 
coisa boa em tudo isso  podermos diverti-nos com aquela a quem amamos".

Pode ser que Salomo tenha feito tais discursos a algumas de suas mulheres; pretende-se tratar-se de objees; porm essas mximas, de ar um tanto libertino, nem 
de leve se parecem a objees, e entender num autor o contrrio do que ele diz  zombar da humanidade.

Alis, vrios padres pretenderam que Salomo tenha feito penitncia; assim, pode-se perdo-lo. Porm, que esses livros tenham ou no sido escritos por um judeu, 
que nos importa? Nossa religio crist alicerceia-se sobre a judaica, mas no sobre todos os livros que os judeus escreveram. Por que ser o Cntico dos Cnticos 
mais sagrado para ns do que as fbulas do Talmude? Porque, diz-se, ns o inclumos no cnon dos hebreus. E que  esse cnon? Uma coletnea de obras autnticas. 
Essa  boa! Uma obra, por ser autntica,  divina? Uma histria dos reis de Jud e de Siqum, por exemplo, ser algo mais que uma histria? Eis um estranho preconceito. 
Ns abominamos os judeus, e queremos que tudo o que por eles foi escrito e por ns recolhido traga o sinete da Divindade. Jamais se viu contradio to palpvel.

SENSAO

As ostras tm, diz-se, dois sentidos; as toupeiras, quatro; os outros animais, como os homens, cinco. Algumas pessoas admitem um sexto, mas  evidente que a sensao 
voluptuosa de que pretendem falar reduz-se ao sentimento do tato e que cinco sentidos constituem o nosso quinho.  nos impossvel
imaginar ou desejar mais que isso. Pode ser que em outros planetas existam sentidos de que no fazemos a mnima idia; pode ser que o nmero de sentidos aumente 
de planeta em planeta e que o ser que tem sentidos inmeros e perfeitos seja o termo de todos os seres.

Mas, ns outros com os nossos cinco rgos, qual  o nosso poder? Sentimos sempre contra nossa vontade, e jamais por que o desejemos; -nos impossvel deixar de 
ter a sensao que a nossa natureza nos destina quando o objeto nos fere. O sentimento est em ns mas no depende de ns. Ns o recebemos; e como o recebemos? Sabe-se 
perfeitamente que no h nenhuma relao entre o ar agitado e as palavras que me cantam e a impresso que essas palavras gravam no meu crebro.

Admiramo-nos do pensamento; mas o sentimento  igualmente maravilhoso. Um poder divino lampeja na sensao do ltimo dos insetos como no crebro de Newton. Contudo, 
que milhares de animais morram  vossa vista, no vos inquietareis pelo que possa vir a ser a sua faculdade de sentir, embora tal faculdade seja obra do Ser dos 
seres; vs os olhais como mquinas da natureza, nascidas para morrer e dar lugar a outras.

Como e por que a sua sensao deveria subsistir quando eles j no existem? Que necessidade teria o autor de tudo o que existe de conservar as propriedades cujo 
sujeito est destrudo? Equivaleria a dizer que o poder da planta chamada sensitiva de retrair suas folhas subsiste mesmo quando a planta deixa de existir. Perguntareis 
sem dvida como, se a sensao dos animais morre com eles, o pensamento do homem jamais perecer. No posso responder a essa questo, no sei o bastante para resolv-la. 
S o autor eterno da sensao e do pensamento sabe como a concede e como a conserva.

Toda a antigidade afirmou que nada existe em nosso entendimento que no tenha passado por nossos sentidos. Descartes, nos seus romances, pretendia que tivssemos 
idias metafsicas antes de conhecer os seios de nossa ama; uma faculdade de teologia proscreveu esse dogma, no porque fosse um erro, mas porque era uma novidade; 
em seguida adotou esse erro, porque fora destrudo por Locke, filsofo ingls, e era necessrio que o ingls errasse. Enfim, depois de haver mudado tantas vezes 
de princpios, ela tornou a proscrever essa antiga verdade, que os sentidos so as portas do entendimento. Fez como esses governos sobrecarregados de dvidas que 
ora do livre curso a certas cdulas e ora as interdizem; mas desde muito tempo que ningum quer saber das cdulas dessa faculdade.

Todas as faculdades do mundo jamais impediro os filsofos de ver que ns comeamos por sentir e que nossa memria no  seno uma sensao contnua. Um homem que 
nascesse privado dos seus cinco sentidos seria privado de toda idia, se pudesse viver. As noes metafsicas no nos chegam seno pelos sentidos: pois como medir 
um crculo ou um tringulo se no se viu ou tocou um crculo e um tringulo? Como conceber uma idia mesmo imperfeita do infinito sem estabelecer limites? E como 
estabelecer limites sem os ter visto ou sentido?

A sensao envolve todas as nossas faculdades, disse um grande filsofo (66). Que concluir de tudo isso? Vs que ledes, que pensais, conclu.

SONHOS

Somnia, quae mentes ludunt volitantibus umbris, non delubra deum nec ab oethere nurnina mittunt, sed sibi quisque facit (67).

Mas como, estando todos os sentidos mortos no sono, existe um sentido que vive? Como, nossos olhos no vendo mais, vossos ouvidos nada entendendo, vedes, contudo, 
e ouvis em vossos sonhos? O co est na caa, em sonho; late, segue a presa. O poeta faz versos dormindo; o matemtico v figuras; o metafsico raciocina bem ou 
mal: temos exemplos contundentes. Sero esses os nicos rgos da mquina que funcionam?  a alma pura que, subtrada ao imprio dos sentidos, usufrui dos seus direitos 
em liberdade?

Se os rgos, por si ss, produzem os sonhos  noite, por que no produziro tambm, ss, as idias de dia? Se a alma pura, tranqila, no repouso dos sentidos, agindo 
por si prpria  a causa nica, o sujeito nico de todas as idias que tendes dormindo, por que sero essas idias quase sempre irregulares, desarrazoadas, incoerentes? 
Como!  no momento em que essa alma est menos turbada que ela tem mais perturbaes em todas as suas imaginaes! Ela est livre e  louca! Se houvesse nascido 
com idias metafsicas como o dizem tantos escritores que sonham de olhos abertos, suas idias puras e luminosas do Ser, do infinito, de todos os primeiros princpios 
deveriam despertar em si com a maior energia quando o corpo est adormecido: nunca se seria bom filsofo seno em sonho.

Seja qual for o sistema que abraceis, sejam quais forem os esforos vos que faais para provar a vs mesmos que a memria agita o vosso crebro, que vosso crebro 
agita vossa alma,  mister convirdes em que todas as vossas idias vos acodem durante o sono, sem vs e apesar de vs: vossa vontade no intervm a.  portanto 
certo que podeis pensar sete ou oito horas seguidas sem ter a mnima vontade de pensar, sem mesmo estar seguro de que pensais. Ponderai isto tudo: procurai adivinhar 
o que vem a ser o complexo do animal.

Os sonhos foram sempre um grande objeto de superstio; nada mais natural. Um homem vivamente comovido pela doena de sua amante sonha que a v morrer; ela morre 
no. dia seguinte: portanto, os deuses predisseram-lhe a sua morte.

Um general do exrcito sonha que vence uma batalha; ganha-a, com efeito: os deuses o advertiram de que seria vencedor.

No se levam em considerao seno os sonhos que foram confirmados; esquecem-se os outros. Os sonhos participam grandemente da histria antiga, tal como os orculos.

Assim traduz a Vulgata o fim do versculo 26 do cap. 19 do Levtico: "No observareis os sonhos".. Mas o termo sonho no existe no hebraico e seria muito estranho 
que se reprovasse a observao dos sonhos no prprio livro em que se diz que Jos se tornou o benfeitor do Egito e de sua famlia mediante a explicao de trs sonhos.
A explicao dos sonhos era uma coisa to comum que a gente no se limitava a essa prtica: era preciso ainda adivinhar algumas vezes o que outro homem sonhara. 
Nabucodonosor, tendo olvidado um sonho que tivera, ordenou aos seus magos a sua adivinhao, e os ameaou de morte caso no chegassem a bom fim; mas o judeu Daniel, 
que era da escola dos magos, salvou-lhes a vida adivinhando o sonho do rei, com a respectiva interpretao. Essa histria e muitas outras poderiam servir para provar 
que a lei dos judeus no proibia a oneiromancia, isto , a cincia dos sonhos.

SUPERSTIO

(Capitulo extrado de Ccero, Sneca e Plutarco) Quase tudo o que vai alm da adorao de um Ser Supremo e da submisso do corao s suas ordens eternas  superstio. 
O perdo aos crimes acompanhado de certas cerimnias  uma das mais perigosas.

Et nigras mactant pecudes, et manibu' divis inferias mittunt (68).

Ah! nimium faciles qui tristia crimina coedis fluminea tolli posse putatis aqua! (69).

Pensais que Deus olvidar vosso homicdio se vos banhardes num rio, se imolardes um cordeiro preto e se se pronunciarem sobre vs algumas palavras. Um segundo homicdio 
vos ser pois perdoado ao mesmo preo, e assim um terceiro, e cem mortes no vos custaro mais do que cem cordeiros negros e cem ablues! Fazei melhor, miserveis 
humanos: nada de mortes e nada de cordeiros negros.

Que infame idia imaginar que um sacerdote de Isis e de Cbele, tocando cmbalos e castanholas, vos reconciliar com a Divindade! E quem  pois esse sacerdote de 
Cibele, esse eunuco errante que vive de vossas fraquezas, para se arvorar intermedirio entre o Cu e vs outros? Que espcie de patentes recebeu ele de Deus? Recebe 
de vs algum dinheiro para balbuciar algumas palavras, e credes que o Ser dos seres ratificar as palavras desse charlato?

H supersties inocentes: danais nos dias de festa em honra de Diana ou de Pomona, ou de qualquer desses deuses secundrios de que est repleto o vosso calendrio: 
pois podeis continuar. A dana  muito agradvel,  til ao corpo, alegra a alma, no faz mal a ningum; no acrediteis porm que Pomona e Virtuna se comovam por 
haverdes saltado em sua honra e que vos puniriam se o no houvsseis feito. No existem outra Pomona nem outra Virtuna que a enxada e a p do jardineiro. No sejais 
to imbecil a ponto de acreditar que vosso jardim se queimar por haverdes deixado de danar a prrica ou a cordcia.

Existe provavelmente uma superstio perdovel e mesmo reconfortante para a virtude:  a de colocar entre os deuses os grandes homens que foram benfeitores do gnero 
humano. Melhor sem dvida seria olh-los simplesmente como homens venerveis e sobretudo procurar imit-los. Venerai sem culto um
Slon, um Tales, um Pitgoras; no adoreis porm um Hrcules por ter limpado as estrebarias de Augias e por ter-se deitado com cinqenta mulheres numa noite.

Guardai-vos de instituir um culto para certos patifes que no tm outro mrito que a ignorncia, a vivacidade e a sordidez; que fizeram um dever e uma gloria do 
cio e da glotonaria: esses que quando muito foram completamente inteis durante sua vida, merecero por acaso a apoteose depois da morte?

Lembrai-vos de que os tempos mais supersticiosos foram sempre os dos crimes mais horrveis.

TIRANIA

Chamamos tirano ao soberano que no conhece por leis seno o prprio capricho, que se apodera dos bens de seus sditos e que em seguida os arrola para ir tomar os 
dos vizinhos. No existe tal espcie de tiranos na Europa.

Distingue-se a tirania de um s e a de vrios. Essa tirania de vrios seria a de um corpo que invadisse os direitos dos outros corpos e exercesse o despotismo a 
favor das leis por ele corrompidas. To pouco existe essa espcie de tiranos na Europa.

Sob qual tirania gostareis de viver? Sob nenhuma; mas se fosse preciso escolher, eu detestaria menos a tirania de um s do que a de vrios. Um dspota tem sempre 
alguns bons momentos; uma assemblia de dspotas jamais. Se um tirano me faz uma injustia, poderei desarm-lo por intermdio de sua amante, por seu confessor ou 
por seu pagem; mas uma companhia de graves tiranos  inacessvel a todas as sedues. Quando no  injusta  no mnimo impiedosa, e jamais concede favores.

Se tenho apenas um dspota, salvo-me com o simples colar-me a um muro  sua passagem; ou por me prosternar, ou por bater a fronte no solo, segundo o costume do pas; 
mas se houver uma companhia de cem dspotas, estarei exposto a repetir essa cerimnia cem vezes por dia, o que  exaustivo, quando no se tem os fundilhos reforados. 
Se eu tiver uma pequena herdade nas vizinhanas de um de nossos senhores, serei esmagado; se reclamar contra um parente dos parentes de nossos senhores, estarei 
arruinado. Que fazer? Temo que neste mundo estejamos reduzidos a um triste dilema: ser bigorna ou martelo. Feliz de quem escapar a essa alternativa!

TOLERNCIA

Que  a tolerncia?  o apangio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices,  a primeira lei da 
natureza.
Que na bolsa de Amsterd, de Londres, de Surata ou de Bassor, os guebros, os banianos, os judeus, os mafomistas, os decolas chins, os brmanes, os cristos gregos, 
os cristos romanos, os cristos protestantes, os cristos quakers faam suas traficncias juntos: eles no brigaro de punhal. Por que motivo, pois, nos esganamos 
quase sem interrupo desde o primeiro conclio de Nicia?

Constantino comeou por baixar um dito que permitia todas as religies; terminou por perseguir. Antes dele os cristos apenas eram perseguidos quando comeavam 
a ter alguma fora dentro do estado. Os romanos permitiam todos os cultos, at o dos judeus, at o dos egpcios, pelos quais tinham tanto desprezo. Por que tolerava 
Roma esses cultos?  que nem os egpcios nem mesmo os judeus procuravam exterminar a antiga religio do imprio, no perdendo tempo em revolver terras e mares para 
angariar proslitos: o que queriam era ganhar dinheiro;  porm incontestvel que os cristos desejavam que sua religio fosse a dominante. Os judeus no queriam 
que a esttua de Jpiter estivesse em Jerusalm; mas os cristos no admitiam que estivesse no Capitlio. Sto. Toms tem a boa f de convir em que, se os cristos 
no destronavam os imperadores,  que o no podiam fazer. Sua opinio era que toda a terra devia ser crist. Eram portanto inimigos de toda a terra, at que esta 
se convertesse.

Havia entre eles inimigos uns dos outros em todos os pontos de sua controvrsia. Antes de mais nada  preciso considerar Jesus Cristo como Deus, os que o negam so 
anatematizados sob o nome de ebionitas, que anatematizam os adoradores de Jesus.

Alguns deles desejam que todos os bens sejam comuns, como pretendem que o tenham sido no tempo dos apstolos: seus adversrios os chamam nicolaitas, acusando-os 
dos crimes mais infames. Outros, tendentes a uma devoo mstica, so chamados gnsticos e perseguidos com furor. Marcio  tratado de idlatra por disputar sobre 
a Trindade.

Tertuliano, Praxedes, Orgenes, Novato, Novaciano, Sablio, Donato, so todos perseguidos por seus irmos antes de Constantino; e apenas Constantino fez reinar a 
religio crist; os atanasianos e eusebianos se separaram; e desde ento a igreja crist foi inundada de sangue at hoje.

O povo judeu era, reconheo, um povo bastante brbaro. Degolavam sem piedade todos os habitantes de um desgraado e pequeno pas sobre o qual no tinham mais direito 
do que sobre Paris e Londres. Entretanto, quando Naam  curado de sua lepra por se haver banhado sete vezes no Jordo; quando, para testemunhar sua gratido a Eliseu, 
que lhe ensinou esse segredo, conta-lhe que adorava o Deus dos judeus por reconhecimento, reserva-se a liberdade de adorar tambm o Deus de seu rei; pede licena 
a Eliseu, e o profeta no hesita em conceder-lha. Os judeus adoravam o seu Deus; mas nunca se admiraram de que cada povo tivesse o seu. Achavam muito natural que 
Camoes concedesse um certo distrito aos moabitas, contanto que o seu Deus tambm lhes desse um. Jac no hesitou em desposar as filhas de um idlatra. Labo tinha 
seu Deus assim como Jac tinha o seu. Eis belos exemplos de tolerncia entre o povo mais intolerante e cruel de toda a antigidade: ns o imitamos em seus furores 
absurdos, e no em sua indulgncia.

 claro que todo indivduo que persegue um homem, seu irmo, porque no  da sua mesma opinio,  um monstro. Isto est fora de dvidas. Mas o governo, mas os magistrados, 
mas os prncipes, como devero proceder para com indivduos que tm um culto diferente do seu? Se forem estrangeiros poderosos,  claro que um prncipe far aliana 
com eles. Francisco I., muito cristo, unir-se- aos muulmanos contra Carlos V, muito cristo. Francisco I dar dinheiro aos luteranos da Alemanha para
sustent-los em sua revolta contra o imperador; mas principiar, segundo o costume, por fazer queimar alguns luteranos em sua prpria casa. Paga-os em Saxe por poltica; 
por poltica queima-os em Paris. Mas que acontecer? As perseguies criam proslitos; em breve a Frana estar repleta de novos protestantes. A princpio deixar-se-o 
enforcar, em seguida comearo tambm a enforcar. Haver guerras civis, em seguida o S. Bartolomeu e esse recanto do mundo ser pior que tudo o que antigos e modernos 
j disseram do inferno.

Insensatos, que jamais soubestes render um culto puro ao Deus que vos criou! Desgraados, que o exemplo dos noaquidas, dos letrados chineses, dos parsis e de todos 
os sbios jamais pode edificar! Monstros, que necessitais de supersties corno o urubu de carnia! J se vos disse, e no temos outra coisa que dizer-vos: se tiverdes 
duas religies, elas se trucidaro; se tiverdes trinta, vivero em paz. Vede  gro-turco: governa guebros, banianos, cristos gregos, nestorianos, romanos. O primeiro 
que experimentar provocar um tumulto  empalado, e todos permanecem em santssima paz.

VIRTUDE

Que  virtude? Beneficncia para com o prximo. Poderei chamar virtude a outra coisa seno ao bem que me fazem? Eu sou indigente, tu s liberal; eu estou em perigo, 
tu vens em meu socorro; enganam-me, tu me dizes a verdade; esquecem-me, tu me consolas; eu sou ignorante, tu me instruis: chamar-te-ei sem dificuldade virtuoso. 
Mas que acontecer com as virtudes cardinais e teologais? Algumas delas ficaro nas escolas.

Que me importa que sejas temperante?  um preceito de sade que observas; beneficiar-te-s com isso e eu te felicito. Tens f e esperana, redobro-te minhas felicitaes: 
elas te concedero a vida eterna. Tuas virtudes teologais so dons celestes: tuas virtudes cardinais so excelentes qualidades que servem para te conduzir ao bom 
caminho; mas no so virtudes que se relacionem com o teu prximo. O prudente faz o bem a si, o virtuoso f-lo aos homens. S. Paulo teve razo ao dizer que a caridade 
implica a f e a esperana.

Mas como! admitiremos apenas as virtudes que so teis ao prximo? Ento! como poderei admitir outras? Vivemos em sociedade; nada existe de verdadeiramente bom para 
ns seno o que beneficia a sociedade. Um solitrio ser sbrio, piedoso; revestir-se- de um cilcio: pois bem, ser santo; porm no o chamarei virtuoso seno 
quando praticar algum ato de virtude em proveito dos homens. Enquanto for s, no ser nem malfeitor nem benfeitor; nada  para ns. Se S. Bruno pacificou as famlias, 
se socorreu a indigncia, foi virtuoso; se jejuou, rezou na solido, foi um santo. A virtude entre os homens  um comrcio de benefcios; o que no participa desse 
comrcio no deve ser considerado. Se esse santo estivesse no mundo, sem dvida praticaria o bem; mas enquanto no o estiver o mundo ter razo em no lhe conceder 
o nome de virtuoso: ser bom para consigo prprio, e no para ns.

Mas, dizeis-me, um solitrio gluto, bbedo, entregue  devassido secreta consigo mesmo,  um vicioso: ser portanto virtuoso se tiver qualidades contrrias  no 
que no posso convir: ser um homem muito vil se tiver de fato os defeitos que dizeis; mas no pode ser um vicioso, mau, susceptvel de punio, no que diz respeito 
 sua relao com a sociedade, a quem suas infmias no fazem mal algum.
 de presumir que se entrar na sociedade praticar o mal, ser um grande criminoso;  at muito mais provvel que venha a ser um homem mau do que incerto  que outro 
solitrio, casto, temperante, venha a ser um homem de bem: pois na sociedade os defeitos aumentam e as boas qualidades diminuem.

Faz-se uma objeo mais forte; Nero, o papa Alexandre VI. e outros monstros dessa espcie fizeram benefcios; ouso responder que foram virtuosos nesse dia.

Dizem alguns telogos que o divino imperador Antonino no era virtuoso; que era um estico tenoeiro que, no contente de governar os homens, ainda queria ser estimado
por eles; que fazia reverterem a si prprio os benefcios que fazia ao gnero humano; que foi toda a sua vida justo, trabalhador, benfeitor por simples vaidade,
e que apenas enganou os homens com a sua virtude; neste caso exclamarei: "Meu Deus, dai-nos a basto velhacos desta laia !"




NOTAS

(1) Esta inscrio acha-se gravada na fachada do templo de Delfos. (
(2) Virglio, Gergicas, III, 244. 
(3) Ovdio, Metforas, X, 84-5. 
(4) Isaas, XIV, 8 e 12. 
(5) Justino o Mrtir, nascido por volta do ano 114, foi condenado  morte por Rstico, prefeito de Roma, em 168.
 (6) Livro V, captulo XXXIII. 
(7) Histria da Igreja, livro VII, captulo XXV. 
(8) Comparao entre Aristfanes e Menandro. 
(9) J. Fr. Arpe, autor da Apologia pro Julio Caesare Vanino. 
(10) Horcio, Epigr., II, ii, Sat., II, i. 
(11) Em seus Ensaios de Teodicia sobre a Bondade de Deus, etc., Amsterd, 1710, in- 8. 
(12) Li - medida itinerria chinesa equivalente a. 576 metros. 
(13) Sinus denominao dada pelos chineses aos judeus das dez tribos que, em sua disperso, penetraram at a China.
 (14) Os cinco livros sagrados chineses, que contm a doutrina de Confcio. 
(15) Salmos, LXVII, 16-17. 
(16) Anagrama do abade Castel do Saint- Pierre 
(17) Anagrama de Lelivre. 
(18) Anagrama de Arnoult. 
(19) Anagramas do prncipe de Cond e do duque de Brunswick. 
(20) Neste dilogo o japons figura um ingls; os cozinheiros designam os padres; o grande lama, o paga; o imperador mencionado, o rei Henrique VIII; paiscopie, 
anagrama de episcopais, so os bispos; breuseh, hebreus; pispatas, papistas; Teluro, Lutero; Vicalno, Calvino; quekars, batistanaos, diestas, etc., respectivamente, 
quakers, anabatistas, deistas, etc. (Nota de Avenel).
 (21) Canusi - antigos sacerdotes japoneses. 
(22) Anagrama de Horcio Flaco. 
(23) Anagrama de Racine. Trata-se de Louis Racine, filho do grande Racine. 
(24) Trata-se de Abraham Chaumeix, crucificado a 2 de maro de 1749, na rua Saint- Denis. Foi quem denunciou a Encyclopdie ao parlamento.
 (25) Jerusalm Libertada, canto IV, 3. 
(26) Ilada, livro XXII. 
(27) O Testament Politique de Charles V, due de Lorraine et de Bar, en faveur du roi de Hongrie, Leipzig, Weitman (Paris), 1696, in- 12, foi editado pelo abade de 
Chevremont; tem por autor Henri de Straatman, membro do conselho ulico do imperador.
 (28) Testament Politique de M. de Vauban, etc., dans lequel ce seigneur donne les moyens d'augmenter considrablement les revenus de la Couronne par l'tablissement 
d'une dime royale, etc., 1707 ou 1708, 2 vol. in- i12. A obra aparecera em 1695 sob o ttulo Le Dtail de la France sons le rgne de Louis XIV.
 (29) St., I, ii, 127. 
(30) Les Femmes Savantes, III, ii. 
(31) Foi em virtude deste passo que Larcher chamou Voltaire "besta fera de que se tem tudo a temer". 
(32) Veja-se, nos Romans, Le Monde comme il va.
 (33) Gavacho em espanhol quer dizer canalha. 
(34) Denominao dada pelos espanhis aos rabes e que, segundo Littr, se tornou uma injria significando traidor, prfido, tratante. Do espanhol marrano - porco 
e tambm maldito.
 (35) Satyricon, captulo XLIV. 
(36) Sat., I, VIII. 
(37) Livro VIII, epigr., XXIV. 
(38) De Ponto, II, VIII. 
(39) Teb., XII. 
(40) Livro IX, 578. 
(41) Ovdio, Fastos, IV. 
(42) 617-618. 
(43) Sua obra intitula-se Apologie de M. Petit- Pierre sur son Systme de non ternit des Peines  Venir, 1761, in- 12.
 (44) Jean Le Pelletier  autor de uma Dissertation sur l'Arche de No, Ruo, 1704, in- 12. 
(45) Opinio de Descartes professada nas escolas ao tempo de Voltaire. (46) Veja-se captulo XI dos Juizes. 
(47) Levtico, captulo XXVII, 29. 
(48) Codorlaomor - rei dos elamitas contemporneos. de Abrao. Mentzel - chefe da ala austraca na guerra de 1741. Tomou Munich a 15 de fevereiro de 1742.
 (49) Na Dfense du Mondain, do prprio Voltaire. 
(50) Ovdio, Met., I, 32. 
(51) III dos Reis, captulo XIX, 15 e 16. 
(52) Atos dos Apstolos, captulo V, 34, 35 e 36. 
(53) Atos dos Apstolos, captulo VIII, 9. 
(54) Scrates, Histria Eclesistica, livro II, captulo
XXXVIII. 
(55) Cf. Ensaio sobre os costumes, capitulo CXCI. 
(56) Ospiniam, p. 230. 
(57) Isto foi escrito em 1764. 
(58) La Fontaine, livro II, fbula II. 
(59) Cf. Owen, livro V, epigr. VIII. 
(60) o rei de Portugal Jos II. 
(61) Juizes, XI, 81-83. 
(62) Stira XV, 81-83. 
(63) Atos dos Apstolos, captulo XXIII, 6. 
(64) J, XIV, 26. 
(65) Epstola aos Tesslios, cap. IV. 
(66) Condillac, Trait des Sensations, t. II, p. 128.
(67) Petrnio, CIV 1-3.
(68) Lucrcio, III, 52-3.
(69) Ovidio, Fastos, II, 45-6.
